19/11/2017

imperfeita transposição

Enquanto crianças, temos dificuldade em perceber algumas frases que nos dizem os adultos, às vezes a mãe, normalmente a mãe. A minha teve sempre uma linguagem muito metafórica, muito poética, e com ela aprendi quase tudo o que se relaciona com o coração. Até uma certa idade, não entendia capazmente tudo o que me dizia, mas sei que fixava como máxima, retinha como lei, guardava como tesouro, nem imaginando que, mais tarde — tão mais tarde quanto agora, tantos anos volvidos —, iria perceber todo o alcance daquilo que, naquele momento, me parecia quase enigmático. 
Assim foi com o desabafo "Tomara que todas as vossas dores passassem para mim". Era um espanto, era uma magia extraordinária, porém injusta, que imaginava ser possível, e se revelava impossível, aquela que a minha mãe desejava para as dores das filhas. 
Percebi muitos anos mais tarde, quando tive os meus próprios filhos, e os vi magoados, doridos, inferiorizados, perdidos. Percebi, de forma cruel e, nesses momentos sim, liminarmente injusta, a impossibilidade de operar essa transposição, a de tomar para mim tudo o que os amachucava e adoecia. Restou-me, nessas horas, a mera e pequeníssima tarefa de os apaziguar, de os defender, de os tratar — e, às vezes, nem isso, pois não era das minhas mãos sem dom que poderia sair o "milagre". 
Agora queria transpor para mim uma dor dessas grandes, que nos tomam a vida de súbito, de alguém a quem quero tão bem. Porque sei o quanto ela dói, porque sei passar por ela, porque tenho uma cicatriz igual à ferida que se abriu agora naquele coração de quem tanto amo. E, no entanto, o único "milagre" que pode sair das minhas mãos, é, mais uma vez, o de apaziguar.
Tomara que a tua dor passasse para mim, querida gandi

17/11/2017

dignidade

Fui encontrá-lo muito velhinho, tolhido pela doença que o definha há mais de vinte anos, cruel e sarcástica, de roer músculos e ossos, de deixar a cabeça intacta. Contra todas as expectativas, continua bonito, a mesma proporção perfeita em todos os quadrantes do rosto, o mesmo sorriso impossível, que a doença proíbe, o mesmo sentido de humor dos Natais da minha infância no Porto, a mesmíssima alegria por me ver chegar. Acho que nunca o tinha abraçado tão longamente, nunca lhe tinha dado tantos beijos, mesmo somados todos aqueles que lhe dei ao longo da minha vida inteira. 
Meu tio, meu querido tio. 
A afinidade é aquela espécie de parentesco que acontece por adopção, e essa pode acontecer por via do coração. Marido da irmã do meu pai, meu tio, meu querido tio do coração. 
Não me viu crescer, sequer envelhecer, perguntou se eu tenho vinte anos, numa quase gargalhada sem vestígio de confusão — elogioso, amoroso, íntimo. 
Depois, aquela sopa que teimava entornar para fora da tigela, derramando-se pelo prato afora, aquela colher que não chegava cheia à boca, e a minha hesitação — num daqueles momentos em que qualquer decisão que tomemos será forçosamente a decisão errada —, logo seguida da pergunta sussurrada,
Tio, quer que eu faça isso?
Quis evitar a todo o custo o verbo "ajudar", que tanto me consome. 
Num silêncio sem olhar, sem qualquer movimento de cabeça, ouvi dele, no mesmo tom quase mudo,
Não, filha. 

15/11/2017

Espero que não haja câmaras de filmar naquela sala

Carrego carinhosamente comigo, há três dias, um torcicolo. Ainda assim, ao primeiro dia de dores escruciantes, meti-me numa aula de GAP. A parte do A deste feliz e bem engendrado acrónimo — abdominais — pode ter constituído dos momentos mais dolorosos de toda a minha passagem por este planeta azul. Tudo sem um ai, que eu posso ser portuguesa, mas ainda sou uma senhora. 
Felizmente, o volume da música estava muito alto, e a instrutora tinha um microfone agarrado à cabeça. 


14/11/2017

Era só um enrolador de pestanas térmico

Se a minha vida não podia ser tão mais simples, um mar de rosas ou um campo de papoUlas ao vento, verdejandes e carmesantes, esvoaçando pólen alergeno em toda a sua dimensão e capacidade? Podia, mas já não era eu.
Num exercício conjunto, vamos todos supor que eu quis, um destes dias, vir a ser possuidora de uma coisa estética, agora não interessa para aqui o quê. Ora, o normal, seria adquiri-la, experimentá-la na minha cobaia preferida — OK, eu — e, eventualmente, vir aqui para o buraco rasgar-lhe elogios vários, ou, quem sabe, descoser-lhe críticas ferozes. Na loucura, dava uma de blogger a sério, fazia um tutorial e explicava os meus porquês para tão arrojado passo.
Ao invés, deu-se início a mais uma novela por episódios em que consiste esta minha existência.

Ep 1 - 27 de Outubro: Farta de procurar pelo produto em dois ou três mil sites, cliquei na Avon*. Inscrevi-me no coiso, dei a minha ficha toda, para lhes dar oportunidade de encherem a minha caixa de mail com spam, e pensei que tinha feito a encomenda. Recebi então um mail lá da firma, afirmando-me que a minha encomenda tinha sido direccionada para a revendedora mais próxima da minha região. (Que é Lisboa, a pequena Lisboa, tipo a capital do país.) Isto, após ter sido informada de que a minha zona não tem revendedora disponível. (Eu percebo. Portanto, moro nos arrabaldes do epicentro.)
Ep 2 - 2 de Novembro: Apresenta-se-me, através de sms, Diana, a revendedora — que, afinal, existe, ou foi entretanto nomeada —, a querer saber se eu sempre quero a encomenda. Respondo que não, uma vez que não pretendo intermediários naquela compra (só para não lhe dizer que não estou disposta a levar mais uma seca nesta vida e ver-me obrigada a comprar mil produtos que não vou usar, só para que uma carraça me deslargue o pé), que passe bem. Resposta de Diana: Onde é que me encontro consigo para a entrega? É claro que trocámos miminhos a partir daqui, andámos à briga via sms, fizemos as pazes e acordámos a entrega para quando ela tivesse o produto consigo. Nos entrementes, diz que tem "passe da Carris", sugiro-lhe uma estação de metro junto a mim, responde que isso já é "muito longe". (E sou eu quem mora nas cucuias.)
Ep 3 - 12 de Novembro: Diana informa-me que já tem o artigo. Pergunto se quer combinar a entrega. Diana não responde.
Ep 4 - 13 de Novembro: Diana quer encontrar-se comigo. Combinamos local, depois de nos desentendermos mais uma vez — porque Diana desconhece em absoluto onde fica a cidade de Lisboa —, mas não hora. Insisto. Diana não responde.

Pergunta para queijinho: este negócio não vai acontecer, pois não?
Pronto, era só para saber se vou continuar a enrolar as pestanas com aquela bodega que parece uma tesoura que me vai cortar os olhos ao meio, e ainda me deixa as pálpebras de cima cheias de feridas da alergia ao níquel.
Beijinho bom, obrigada.

* Ninguém me paga para me calar

13/11/2017

Ela fala tanto # 19

E ainda me surpreende, ao fim de vinte anos de relação.

Conta-me do marido, recentemente desempregado. História cheia de cabelos e rabos presos, que, quando questiono para clarificar/ ajudar/ tentar resolver, esquiva-se para outros mil assuntos que estão sempre mal presos na manga e saem como cerejas. Que a filha também não encontra trabalho, que passa os dias em casa, que nem as tarefas domésticas mais básicas cumpre. (Isto, dito por outros termos, que envolvem uma taça de cereais no chão da sala um dia inteiro.) É tudo em cima das costas dela, exclui deste fardo o filho, que é a melhor coisa que lhe aconteceu na vida (isto, dito por outras palavras, que é um miúdo que não chateia, está lá na vida dele), apesar, digo eu, de já ter perdido dois anos do percurso escolar. 
- Outro dia estava cansada, telefona-me a minha Tatiana a pedir para lhe comprar um gel para refrescar os pés. 
Eu pensei que ela estava revoltada porque, numa casa em que vivem quatro e só entra um ordenado pouco mais do que mínimo, um gel para refrescar os pés deveria ser, talvez, a última das prioridades. 
- Eu ainda lhe disse, Ó Tatiana, eu estou cansada.
Eu pensei que ela disse à sua Tatiana que estava cansada para se esquivar, reforçando a evidência da impossibilidade de lhe comprar um gel para refrescar os pés.
- Ainda por cima, levei que tempos a encontrar o gel, que havia lá uma data deles, todos iguais, e ela queria um especial. 
Eu não pensei. Morri.
- Ela precisa daquilo, porque os ténis lhe aquecem muito os pés, e aquilo é tudo ténis de 70 euros o par.
Já nem precisava deste golpe de misericórdia. Mas olhem, ressuscitei e posso ter sido acometida de um bocadinho de Tourette, porque saiu-me isto assim:
- Eu só gostava de saber o que é que passa pela cabeça de uma pessoa que não trabalha nem estuda, não faz nada o dia inteiro, tem o pai desempregado, e telefona à mãe, que é a única pessoa que sustenta a casa, a pedir um gel para refrescar os pés. 

Fica a questão. 

12/11/2017

De onde se denota que LB é uma pessoa extremamente informada e também fala de assuntos

Só que depois há uns senhores que escrevem para a Televisão, colocam na mesma frase as palavras "corpo" e "sepultura", e pronto, temos o caldo entornado, ou o pensamento bloqueado num único momento da notícia (provavelmente o menos relevante).



Quem é que guarda o guarda?

Hoje ia lá nos meus pensamentos, conduzindo Rosinha por esta cidade azul afora, quando, à entrada de uma rotunda, após abertura do sinal verde, ouço uma sirene, paro, e me passa a mota de um senhor PSP do Trânsito, feito parvo a sorrir-se para mim, tipo a achar-se, por me ter feito parar quando eu ia na minha mão, tipo a gozar o prato de ter, basicamente, usado da sinalização de emergência por não estar para ficar parado no semáforo vermelho, como lhe competia, a alargar ainda mais o cu gordo.
Fiquei revoltada. 
Sei perfeitamente que não se deve tomar o todo pela parte, e que o todo é igual à soma das partes, e que, as duas máximas juntas não formam um axioma em si mesmo considerado, tendo em conta que uma é que é, ela sim, um axioma, sendo que a outra é apenas uma regra de convívio social, ou coisa assim. [Não sei por que é que escrevi este parágrafo.]
Mas acontece que ainda há menos de quarenta e oito horas, noite escura das seis da tarde, indo eu, indo eu, a caminho de sei lá eu, sabendo que havia de virar à esquerda ali pela Defensores de Chaves em direcção à República, mas errando cabal ou tangencialmente na transversal para o fazer, eis que me apercebo de estar a praticar a contramão, no momento em que visiono os faróis brancos de uma comunidade automóvel apontados na minha direcção, e, simultaneamente, um sinal de proibido, também a apontar para mim. Nesse mesmo segundo, surgiu-me do céu, caído aos trambolhões, o quê? Nada menos do que um polícia! Hã? Sou ou não sou a maior vacuda do pedaço? Mijinha fora do penico, zás, Senhor Lei logo ali a dar por ela (por mim, no fundo). Conformada com a possibilidade de levar uma multa das boas para casa, deitei-lhe para cima aquele sorriso com mil significados — de entre os quais já-fiz-merda-e-sei-o —, e não é que o agente autoritário se transformou subitamente em polícia sinaleiro [oh, pá, tenho tantas saudades...], se prostrou no centro do cruzamento, mandou parar o trânsito de um lado, depois do outro, só para a menina fazer a manobra e voltar para a sua mão? 
Portanto, cada um faz o que quer. Com prejuízo ou benefício da pessoa humana. 


10/11/2017

Eu tenho problemas com tudo # 29

Sei que entrei naquele parque de estacionamento ainda não eram 4:30 da tarde. 
Tirei o bilhete à entrada, não só porque não havia Via Verde, como também porque, ali, as duas primeiras horas são grátis, e estacionei Rosinha. Fui à minha vida e voltei. Entre tirar o bilhete e voltar ao carro não passaram mais do que quinze minutos. 
O bilhete não estava na mala, naquela bolsa específica onde sempre os ponho, já por causa das coisas. Não estava na outra bolsa. Não estava na do fecho. Não estava entalado no porta-moedas. Não estava misturado com os mil papeis e o lixo todo do interior da mala. Não estava no tablier. Não estava no chão do carro. Não estava no tecto do carro. Não estava neste Mundo. Como um anjo alado, fora-se. Sumira-se no ar.
No ar, também o meu suor. Passei, então, ao Plano B: despejar a mala. Porque tinha que ser na mala que o tinha posto. Vi bloco a bloco, agenda a agenda, papel com anos a papel com anos, e nada. Parei para respirar, saí do carro, tentei raciocinar as possibilidades várias para explicar aquele sumiço. E também as que se me apresentavam, caso não encontrasse o bendito: qual é a tarifa máxima diária — que é o "preço" do bilhete perdido, conforme sabeis —, tendo em conta duas horas grátis? Quis multiplicar zero por zero, para não piorar a minha situação, mas piorei. Sabia perfeitamente que: 
A. Encontrava o cartão;
B. Não encontrava o cartão:
    i) Pagava a tarifa máxima diária;
    ii) Fazia uso de eyelash power e o responsável lá se compadecia e abria a cancelinha;
  iii) O responsável era uma mulher, pagava a tarifa máxima e ainda era enclausurada numa catacumba qualquer, despojada de todos os meus bens e raciocínio lógico.
Meti-me corredores afora, a pé, até à entrada do parque, pensando na possibilidade de o ter deixado cair quando o retirei da coluna. Mas também não estava lá. 
De volta ao carro, despejei a mala pela terceira vez, procurei de novo, liguei a lanterna de Ai-fostes, procurei em todos os recantos possíveis e imaginários — esses mesmos, que proporcionam posições à pessoa de uma elegância digna de registo fotográfico —, mas o c. do bilhete não apareceu. 
Toda eu era suor, desânimo, raiva e vontade de chorar de abandono e frustração e tudo o que assiste a uma mulher nestas horas. (Ninguém nos dá o nosso devido valor.)
Desisti. Há sempre um momento, em todas as lutas, em que o guerreiro, por mais bravo que seja, baixa os braços. Se não há, devia haver. Eu baixei os meus ao fim de quinze minutos de enfardar pancada.
Arrastava-me, pesarosa, para o gabinete do segurança, quando vi um bilhete no chão, a uns cinco metros do meu carro. Hora de entrada, 16:24.
Se não era o meu, passou a ser. Naquele momento, perdera todo o civismo, e tinha como único objectivo de vida sair daquele parque. Se fosse outro o dono daquele bilhete, paciência, pusesse-se ele de rabo para o ar dentro do carro dele, e tratasse de encontrar outro bilhete, de outro avoado da vida. 
Depois até segui as setas que indicavam a saída, mas, quando alcancei a rampa para subir para o exterior, elas estavam desenhadas em contramão. Posso ter saído pela entrada, sim. Mas saí. 


09/11/2017

Story of my life

Aquele cliente que demora a pagar.
Depois pede um acerto no trabalho. Coisa de nada, apenas uns pormenores de formatação de um documento do Word. [Vamos acreditar que existem pessoas que não sabem formatar um documento do Word/ não têm tempo para formatar um documento do Word/ ocupam uma posição demasiado elevada (nomeadamente a atender telefones, receber clientes à porta e servir cafés na sala de reuniões) para formatar, assim à toa, um documento do Word].
Recebe o trabalho reformatado.
E não paga.
Depois pede segundo acerto, que afinal não era bem aquilo, que a primeira versão [por mim acabada e por ele tentada alterar] é que estava bem, mude aqui, mantenha ali, tanta cocozice, só faltou mandarem-me meter em Comic Sans, a ver se eu me ria um nico, ha-ha, essa foi boa. 
E continua sem pagar.
A pessoa emite a factura, só naquela.
Passam semanas. 
Pede a terceira modificação, desta vez uma adenda.
Adendei tudo, mandei tudo adendado, e ainda adendei a pertinente pergunta Para quando?
Vou esperar sentada, que isto parece a história do meu biquíni, ou a das calcinhas amarelas, que vem a dar no mesmo, só que com requintes de malvadez. 

(Eu sou aquela pessoa que tem a mania que é esperta, mas que um dia cai de boca no conto do vigário. Como, aliás — a ver se me consolo —, a grande maioria dos portugueses.)

06/11/2017

A Minha Paixão

Fui ver ‘A Paixão de Van Gogh’. 
É só para saberem.

Não faço link para o trailer, porque recomendo vivamente a quem ainda não viu o filme que faça como eu fiz: não vi nada, fui “às cegas”, e a surpresa foi muito maior e melhor. [Pronto. Agora tudo a googlar ‘a paixao de van gogh trailer’.]
Também vos digo que não vão se:
1. Sois epilépticos (a sério);
2. Não gostais de desenhos animados;
3. O Movimento Impressionista vos impressiona;
4. Não considerais cinema tudo o que saia da comédia romântica norte-americana;
5. Preferis comer pipocas de microondas. (Por acaso, não comi. E tive a sorte de assistir numa sala civilizada.)

05/11/2017

Cuidado com os acrónimos

Ora, se eu já estava moída da minha musculatura por ter ido quarta, e por ter ido sexta, o que é que fui lá fazer ontem? 
Quis experimentar uma modalidade, que dá pelo nome de GAP, meia horinha, pareceu-me coisa de bom tamanho, rápida e intensa. 
Mal sonhando que GAP é o acrónimo de glúteos, abdominais e pernas, hahaha. Ha. Ha. Ha.
O instrutor, daqueles magros cheios da genica, gritou ao microfone que puséssemos caneleiras, que havia de um e de dois quilos, "Eh, turma, tudo a pôr de dois quilos!", vai a esperta, não querendo ficar atrás não sei de quê, e leva as de dois quilos lá para o colchão. À cautela, porque o seguro morreu de velho e a providência ainda cá anda, levei também as de um quilo, dando a entender que ia pôr todas. Mas pus "só" um par: o de dois quilos, ya. 
Lembro-me das frases gritadas, "Turma, levanta a perna!", "Agora insiste, turma!", "Agora pequeninos, lá em cima!". Só faltou chamar-nos "Seus maricas". Lembro-me também de ter arrancado uma caneleira, porque (ainda) sentia a perna a arder em flamas até à cintura, e de ele ma ter recolocado à força. Depois puxou-me a perna para cima e, quando a largou, ela caiu, inanimada e desorientada.
Hoje acordei e falecera. Partes de mim — glúteos, abdominais e pernas, designadamente — feneceram talvez de noite. Não estou sequer capaz de subir para o passeio, quando atravesso a rua. Pondero andar só pela estrada. Desconheço todo o mecanismo envolvido no acto de subir escadas. E de descê-las. Uma simples ida à sanita, urinar, digamos, é tarefa que me recuso a cumprir. Não me interessa, prefiro rebentar.
Como se não bastasse, hoje fui meter-me a zumbar uma hora, e depois mais outra hora nos alongamentos. Não tenho um único músculo inteiro, nem sequer nos maxilares, drivados daquele esforço. Tenho torcicolos por todo o corpo. 
Hoje odiei toda a gente graciosa e elástica. 
Para a semana há mais (caneleiras de um quilo em cada chispe e já gozam).


04/11/2017

Tenho medo

A Uva e a Filipa (não sei se por esta ordem, mas foi por esta que as li) já disseram tudo o que me vem atravessado na garganta, no peito, no coração, nos últimos dias. Não tenho muito mais a acrescentar, a não ser aquilo que sinto em mim. Este medo de, um dia, acordar e ser mãe destas pessoas:

Daqueles ali ao fundo

Ou desta

Daqueles, que continuam ali

Ou deste palerma

Daqueles mesmos, sempre os mesmos.
Quantos são, mesmo?

Ou deste, do pull overzinho ao ombro

Daquele, da calça bege,
ou deste, da fralda de fora

que agora até aparece a compor a toilette

Desta grande maluca do Halloween,
ou deste casaleco, todo aninhado para o espectáculo

Tenho medo de um dia acordar e ser mãe da conivência, do silêncio, da compactuação, do conluio, que são, afinal, todos irmãos da cumplicidade e da co-autoria. Desculpados pelo medo, impassíveis e, no limite, indiferentes. 
Este meu medo é todo ele egoísmo, é todo ele reflexo, é todo ele hipotético: então e se o rapaz que está a ser espancado fosse o meu filho? Era assim, era com "gente" desta, a assistir e a filmar?
[Crucificava-os.]
[Um por um.]
[Com as minhas próprias mãos.]


03/11/2017

Nova noção de "treino"

Se a pessoa for ao supermercado de manhã e carregar para o carro oito quilos de compras, e depois carregar o mesmo peso do carro para casa; se for fazer uma prova de esforço à tarde; se for dançar durante uma hora à noite, pode considerar-se que treinou três vezes durante o dia?
Ou nenhuma?


Metas que eu atravesso

Uma hora e quatro, eu não disse?

À frente de um verdadeiro pelotão

01/11/2017

Foi assim que aconteceu

Era quase hora de jantar, e já o arraial estava montado sob mim. Gritos de terror e agonia, gargalhadas malévolas, urros de pânico prédio acima. Uma das minhas crescidas crianças, que nunca usa o elevador, passou-lhe à porta e só não se assustou porque é valente, porque fui eu que fiz, porque acha piada ao Halloween. Contou-me, divertida, que Agora, a vizinha tem a morte à porta, e aquilo tem um sensor de movimento, que uma pessoa passa e aquilo mexe-se, levanta os braços e grita. Então, fui lá, porque também não quero morrer parva, passe o pleonasmo: para crer como São Tomé, para dançar com a Morte, para ver com os próprios que um dia o forno há-de cremar, já que estamos a falar nisso. Primeiro de longe, depois de perto, acerquei-me a medo — um medo que provinha, não do pobre boneco, mas sim da paupérrima humana que se escondia atrás daquela porta —, assomei-me, cheguei-me, espreitei-o, remirei-o, e ele quedo e mudo, como morto, lá está.


Já ia escadas acima quando as luzes do patamar se desligaram, e deu-se a coincidência de a gravação da Morte se accionar, motivo pelo qual ela, afinal com uma voz terrivelmente masculina, largou numa gargalhada que devia ser horripilante — a mesmíssima que Vincent Price deu no clip de Michael Jackson, Thriller —, há-de ter mostrado as axilinhas lá no meio do breu, bradou "Happy Halloween!" para quem a quis ouvir (o que não era o meu caso), e digamos que era eu ter para aí menos sessenta anos do que tenho efectivamente, e isto servia-me que nem uma luva para trauma de infância e, quem sabe, para justificar montes de merdinhas que, de onde em onde, me assistem. Ao invés, fiquei assaz agastada, pelo que cumpri (ao menos uma vez na vida) a promessa que havia feito, e chamei a polícia. 
A única mágoa que me ficou deste assunto todo foi não ter ficado para ver os senhores agentes a chegarem à porta da louca, por ter tido que sair para jantar. Resta-me o consolo de que, ao telefone, depois de me ter identificado pormenorizadamente, disse apenas que A senhora tem um boneco muito ruidoso à porta de casa, e, assim, posso imaginar a cara dos homens quando se depararam com Senhora Dona Morte, a rir e a guinchar. Quando voltei, imperava a paz no prédio, um silêncio quase sepulcral, e, do boneco, nem fumo. O que foi pena, por outro lado, pois umas voltinhas no elevador haviam de arejar e desempoeirar a criatura, e assim já não pôde ser.