23/04/2018

Negócio da Choyna

Então. Pedro Choy forrou as carruagens do metro cá da cidade com uma pobre pub, que é esta:


A pessoa estarrece e estaca diante da visão, não da magreza, não da beleza, não necessariamente por esta ordem, da menina, mas sim do seu braço esquerdo, que se nos apresenta à direita da imagem. Então, questiona-se se Choy possui o segredo (do Oriente, calma) de praticar o Photoshop no corpo de quem lho entrega para que lho emagreça. E se é suposto ficar-se assim, com a zona do pulso mais larga do que a do cotovelo. Seja lá como for, declaro aqui que não quero saber o segredo de P.C., assim como não quero que ele me aplique Photoschoy. Ainda prefiro o cotovelo mais largo do que o pulso, à antiga.

22/04/2018

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 56

Era estar menos atenta, e já não dava por estes diálogos:
- Olha, alguma de vocês percebe alguma coisa de Francês?
- Não, porquê?
- Porque está ali uma senhora que só pede por cus-cus-cus-cus...

Por acaso, depois fiquei a congeminar nisto: quando uma pessoa come couscous, e lhe fica presa uma única bolinha entre os dentes, como é que exprime a sua lamúria? Tenho um couscou [cuscu] preso no dente? Ou Tenho um coucou [cucu] preso no dente

[Hã, e o esforço para escrever posts sem conteúdo a que me tenho votado ultimamente, ninguém louva?]

21/04/2018

💗 Bumba


Se quereis perceber um pouco mais do meu ponto de vista, eu estou TODA! um pouco ao minuto 01:00, até ao minuto 01:50.
Execrável, tits.

20/04/2018

Na blogosfera como na vida # 3

A estupefacção. 
Ou então, apenas, 
Quando não tens nada para dizer ao mundo, encriptas e eis um post.


19/04/2018

o que é normal

Saímos todos do mesmo metro, tão iguais uns aos outros. Chegada a pequena multidão ao cimo das escadas, foram saindo alguns, depois de validarem o seu bilhete, abrindo a cancela de acesso à luz. Já de outras vezes o havia visto sair do comboio, naquele mesmo horário, e sei que me chamou a atenção, logo após a sua evidente trissomia, ainda que de costas, a sua autonomia, a sua alegria, a sua liberdade. Imaginei que viria da escola, para a escola, para a sua vida, enfim. Houve então uma mulher normal — no sentido de vulgar, sem quaisquer sinais distintivos, nem alta, nem baixa, nem velha, nem nova, nem magra, nem gorda, nem mal nem bem vestida. Talvez apenas isso, banal — que lhe fez sinal, apontando a cancela, pedindo-lhe que, com o seu passe, lha abrisse. E ele, gentil, assim fez, não desfazendo o sorriso que rasgara aquando da abordagem. Ela, agora sim, vulgar, seguiu caminho, sem um agradecimento, sequer a devolução do sorriso bom dele. E então, ele ficou para cá da cancela, o passe a recusar-se dar-lhe duas saídas seguidas, preso na sua ingenuidade, vítima da sua própria bondade. 
Não fui eu que o salvei da estupidez das pessoas, pois logo se acercou dele uma senhora, também ela normal — mas, essa, sim, caracterizável em vários quadrantes: pequena, com a magreza da escassez e do desfavorecimento, negra de outro continente onde sei que a partilha do pouco ou nada existe, vestida de vestes humildes —, que, pegando no seu passe, o picou com uma entrada e, logo de seguida, a saída, para ele.
Fiquei então a pensar que prefiro pertencer a este lado das pessoas normais, e que não, nós não somos todos iguais. A bem de todos que não somos. 


18/04/2018

Post interdito a machos # 8

(Porque só uma mulher pode entender todo o conteúdo que segue.)

Estávamos numa aula aquática, já havíamos sido sujeitos a todas as sevícias de que os monitores se haviam lembrado, e, nos últimos quinze minutos, ainda tiveram a peregrina de nos mandar sugerir fazer um jogo de futebol (polo, ou lá o que é). 
Já noutro post denunciei que a água da piscina nos dá cabo do verniz, seja ele gelinho ou quentinho manicure normal. Começo a suspeitar que lhe deitam gotas de tira-verniz, assim como desmaquilhantes vários, do dos olhos ao facial. Uma pessoa entra qual bailarina aquática — se descontarmos a touca do Demo e o fato-de-banho abaixo de péssimo —, e sai transfigurada em si mesma, com mais dez anos em cima das peles. É como mergulhar no Grande Tanque de Elixir da Eterna Velhice.
O jogo decorria na sua (a)normalidade, apesar de as duas equipas estarem claramente desequilibradas: uma delas — que, obviamente, não era aquela que me calhou — tinha dois homens, e não eram eles dois elementos quaisquer. Eram dois tubarões lá para os seus trinta e picos, com uns cabedais de meter respeitinho fora de água, quanto mais lá dentro. Acho que ganharam a partida, e só não tenho a certeza porque os instrutores, feitos treinadores-árbitros-fiscais-de-linha, boicotaram grande parte dos golos que a equipa adversária havia de ter marcado, desviando a baliza no último momento. 
Mas não é isso que interessa agora aqui. O que vim contar foi o grande momento que protagonizei, e que só não foi de puro fair play porque se deu com uma das minhas companheiras de equipa: lá no meio da confusão aquática, a bola do nosso lado, perto da baliza adversária, e, portanto, numa fase do jogo que requeria alguma atenção acrescida da minha parte, ouvi a senhora mais idosa que se encontrava em campo (capitã?) a gritar:
- Perdi uma unha!
É claro que nem me passou pela cabeça levar o aviso ao pé da letra (até porque se tratava de uma unha da mão), pois, naquele relance que dirigi à mão da senhora, percebi que se tratava de uma unha postiça. Acerquei-me dela, certifiquei-me da cor das restantes nove (um castanho-bordeaux, fácil de encontrar na transparência-azul da piscina) e, qual baywatch da unha tresmalhada, anunciei:
- Vou procurá-la, já lha entrego.
Ela sem acreditar, assim como eu. 
O que é facto é que a unha passou por mim a nadar, fazendo piruetas em direcção ao fundo da piscina, toda ela num parafuso bonito de se ver. Tentei apanhá-la, mas a libertária continuou no seu passo de natação sincronizada até ao chão. Pus-lhe um pé em cima, agarrei-a com os dedos (nós somos tão primatas...), levantei o pé e eis-la. A senhora quase chorou, interpretem como quiserem.
O jogo não havia parado, e terminou passados minutos, acho que empatado. 

17/04/2018

Notícias de Bernardo, o meu passarinho

Com a morte de Bianca, minha bico-de-lacre, perpetrada pelas minhas que se quiseram ternas e se fizeram cruéis e desajeitadas mãos, adveio também a viuvez de Bernardo e a minha viuvez de passarinhos em casa.
Havíamos combinado há um tempo que só saberia definir se fosse procurar no tempo, que, uma vez sozinho um dos passarinhos, ela viria buscar o outro, levando-o para outra gaiola — e como me faz sentir ainda mais cruel e desajeitada do que as minhas mãos esta palavra — maior, mais solarenga, com mais companhias. Assim fez, um dia depois de ter tido eu que sepultar a fêmea com as tais mãos, de carrascas a coveiras. Ele chilreava como nunca desde que a solidão havia tomado conta da gaiola, num requiem de desgosto e procura, e então, num gesto que simulou quase perfeitamente a abnegação que não sentia, e mal dissimulava a verdade da minha cobardia em assistir ao sofrimento dele, que passou a ser nosso, deixei-o ir, dorida e aliviada.
Sei-o agora feliz, aninhado nas noites no mesmo poleiro que outra fêmea igualmente desagasalhada de macho.
A minha casa está mais vazia por estes dias. Tal como acontece no coração das pessoas, assim ficam as casas quando nelas se cala o canto de passarinhos.



16/04/2018

Dúvidas que me assaltam à mão armada com alguma frequência # 5

Gostaria atrozmente que alguém me explicasse esta nova moda de andar na rua com o telefoninho deitadinho na palma da mão, e a falar na direcção da ponta de cá, que é aquela que fica mais próxima do pulso. 
Em tudo me lembra aquilo um reclame que dava no televisor quando eu era garotita (já não me lembro a o quê, mas não me chocaria se fosse a conservas enlatadas), que era o do beijo nos quatro dedos, depois estendidos para a frente, e, por fim, soprados nas pontas. Ouvia-se então uma vozinha cantada, que trinava "sex appeal!". 
Depois as coisas evoluíram, todas adquiriram um nome técnico, e a isto passou a chamar-se blowing kiss.


Assim anda actualmente o povo, com seus aparelhos em pose de sex appeal, ou, se preferirdes, blowing kiss. É porquê? Têm medo do cancro no cérebro (?), e acham que assim o evitam, preferindo não encostar o telemóvel à orelha? Falam para a mão, na verdadeira acepção da expressão? E como é que ouvem quem está do lado de lá da "linha"? Com auriculares? E não têm medo que o cancro no (tal) cérebro lhes entre pelo fio? Ou põem o interlocutor em alta voz? E nós, que estamos literalmente de fora, temos que ouvir o que se passa nestas vidas? Porquê? Não é precisa toda uma estratégia, cada vez que vão falar, ou alguém lhes liga, para ligar o fio, colocar o telemóvel naquela posição de equilíbrio precário, a ocupar uma das mãos (elas não são só duas?), e, assim, estabelecer uma conversação? De que é que falam? Quando a chamada termina, sopram o telemóvel? E ele cai? Isto um dia vai chamar-se blowing mobile phone? Qual é a cena?
Não consigo dormir.

15/04/2018

para Sempre Mulher

Com mais um ano de idade biológica no lombo, lá fui para a Sempre Mulher, (ainda) na modalidade caminhada de lazer, mas, desta feita, fiz o grande feito de ter feito o mesmo percurso em menos 32 (trinta e dois!) minutos do que no ano passado: caminhada avenida da Liberdade acima, corrida na Fontes Pereira de Melo até ao Saldanha, caminhada até à João Crisóstomo, e de regresso ao Saldanha, corrida na Fontes Pereira de Melo, caminhada no Marquês, corrida na avenida da Liberdade até à meta. 
Por este andar, para o ano vou ao lado das atletas de alta competição, e ainda as ultrapasso. Isto, numa linha de raciocínio perfeitamente lógica: se no ano passado fiz o mesmo percurso em 01:19:56, e este ano em 00:47:59 (o raio do cronómetro espeta-se sempre nos cinquenta e tais quando eu vou a passar, só para o galo), isto quer dizer que, para o ano, a minha marca pode ser 00:15:57, mais segundo, menos segundo, certo? Certo. A Matemática tem destas coisas, e nunca falha. 


O tempo apresentou-se de feição, pois choveu todo o percurso, o que, parecendo que não, refresca, à medida que se sua. Por outro lado, este ano foi comigo não uma, mas sim duas filhas, o que foi duplamente divertido. Para a próxima, levo as filhas todas que tenho (ou não me chame Linda Blue e assim elas anuam), e aí, sim, para além de triplamente divertido, seremos tantas, que seremos imbatíveis e inultrapassáveis. 


12/04/2018

da conformação diante da morte

Fiz o que fiz sempre, da mesma forma suave e macia: tirei o passarinho da gaiola, após várias fugas de grade em grade, com a intenção de lhe cortar as unhas. Nos bicos de lacre, as garras compridas podem significar a morte, pois fazem com que fiquem presos no poleiro, numa grade, no comedouro, às vezes durante a noite, e, incapazes de se libertarem, ali ficam até morrerem. Segurei-a — era a fêmea — cuidadosamente, e ela fez o que fez sempre: primeiro debateu-se ligeiramente, depois deixou-se ficar, à espera que a minha manobra terminasse. Cortei uma unha, senti-lhe a tranquilidade no pequeníssimo corpinho, e foi quando cortei a da outra pata que lhe veio a morte, muda e queda na palma da minha mão. Fui eu que a matei, e isso mata-me também a mim. Tirei-lhe a vida num lapso de décimo de segundo em que a terei apertado um pouco demais. 
Não me perdoo agora ter-me conformado imediatamente com a morte dela. Não tentei sequer  uma massagem cardíaca, simplesmente pousei-a, em prantos inúteis, em cima da bancada da cozinha. Sou dada a momentos em que não podia ser mais estúpida, e é esse irremediável que me torna assim, conformada. 
Recebi palavras de conforto e um abraço precisado, e depois saí sozinha de casa, com ela metida numa caixa bonita, que me deu a Maria, minha grande criança sensível, sensibilizada. Corri o bairro em busca de um local bonito e sossegado, onde fosse pouco provável a passagem de cães. Mas apenas encontrei árvores feias, as mesmas que se põem lindas nesta Primavera que tarda, e zonas escuras. Chovia para lá de mim, quando abri um buraco fora do céu e a entreguei à Terra, depositando-a na terra, numa paz de dar dó.


10/04/2018

Para além de tudo o resto, ainda aerofóbica

Tenho a comunicar ao povo — a toda a população terráquea em geral — que, daqui a vinte e sete dias, vou viajar de avião. Estou, por isso, em contagem decrescente, à espera que, a todo o momento, me dê o stroke, que é o strike das sinapses.
A única novidade deste facto, se já vos haveis apercebido, é que não me encontro preparada. É certo que ainda não comecei a sonhar com o assunto, pelo menos que me lembre de manhãzinha. Também ainda não comecei a tomar calmantes, nem ninguém mos botou na sopa, que eu tenha dado por isso. Ao contrário, tenho visto vários episódios de "Mayday! Desastres aéreos", para saber como é que tudo se processa, e, especialmente, se já mandaram arranjar as avarias, percalços e cenas possíveis (das tolas do piloto e co, inclusive) que geraram aquelas situações, ou se é preciso ser eu a fazer a checklist à entrada do pássaro, do género, "Verificaram os quatro motores? E o combustível? O peso das malas no porão? Os antecedentes psiquiátricos do chauffeur? Ele fala e percebe perfeitamente Inglês? Quem é que está ao serviço na torre de controlo? Todos dormiram horas suficientes? Ó menina, se isto for a cair, pode avisar-me com uma antecedência mínima de três a cinco minutos, para eu poder mandar uns quantos whatsapps? Onde é que fica o pára-quedas? E o colete? Como é que é a posição fetal, mesmo? Posso ir já descalça? E com a máscara do oxigénio? Se calhar, sento-me aqui no chão, mesmo ao pé de uma saída de emergência. Isto não tem um atalho, para ser mais rápido? Pergunte lá ao condutor se não podemos voar baixinho e devagarinho, mas que mania das alturas! Olhe, aquele senhor tem uma mochila esquisita. Na verdade, todos os passageiros têm uma cara esquisita. Já viu aquele, a dormir? Acha normal? Vocês hoje não tinham uma greve? E os controladores, também não? E os que transportam as malas? Os da pista, que usam aquelas raquetes? Alguém? Acho que me esqueci de qualquer coisa no carro. Dói-me a barriga. Quero a minha mãe!".
Outro dia, estava a desabafar com uma querida cheia de paciência, que, naquele Português lá dela, aconselhou assim:
- 'Ocê toma umas e outras antchis dji embárrcá. Já vai alhégrinha, assim si cáirr, 'cê neim dá porr nada. Acórrda lá do outro lado numa alégria, só pérguntando ondji é qui 'tá.
Mais sugestões (um pouco mais sóbrias)?

09/04/2018

regressado

Chegou-me inteiro. Vinha sujo, queimado de um sol que eu nem sabia ter havido, rouco e cheio de frio pelos calções abaixo. Trazia "vontade de comida a sério", cansado de hambúrgueres sempre iguais e cereais secos. Na pequeníssima mala, toda a roupa suja, meticulosamente dobrada. Nos olhos adornados de olheiras, o brilho da idade da inocência, umas vezes perdida, outras tantas intacta.
Lavou os dentes, tomou banho, comeu comida de casa e adormeceu, tornando-se, num breve segundo, de homem rude e exausto, em criança tranquila e apaziguada.
Poucas horas depois, perante as notícias que davam conta do acidente com a camionete de finalistas, partida lá do mesmo sítio de onde ele veio, veio também o inevitável impossível de não me colocar na pele dos pais do João, de não sentir uma imensa compaixão por duas pessoas que, tal como nós, passaram toda a semana com o coração nas mãos, esperando pelo regresso do filho que, no último momento, não aconteceu. Não posso nem quero imaginar o tamanho da dor daqueles pais. Mas consigo perceber o alcance dela, assim como a dimensão da tragédia nas vidas de uma família inteira.
Foi com esse aperto no coração que entrei no quarto azul e o constatei adormecido. Fui espreitá-lo, confirmá-lo em casa e nas nossas vidas, como se assim o pudesse garantir.
Chegou-me inteiro, o meu menino.


08/04/2018

Eu tenho problemas com tudo # 31

Na aula Acqua de hoje, cheguei à conclusão que isto não pode continuar: o raio da touca de natação anda para me saltar crânio fora, e perco demasiado tempo precioso, que posso usar em movimentos braçais, só a ajeitar aquela porra, a puxá-la na direcção da cara, a repuxar as raízes do cabelo até à dor excruciante (dá-se que sou, em linguagem povina, "arrepeladiça", e ai de quem me faça cafuné, que tem inimiga fisicamente violenta garantida), tudo um enfado, um fado, enfim, se é que me faço entender. Já experimentei pôr uma em cima de outra (licra + silicone), já experimentei pôr só a de silicone, mas, não bastando o ar de extraterrestre com que um humanóide fica, ainda temos a saga da touca que ameaça debandar. Assim, saí da piscina e rosnei para quem me calhou no percurso que "Vou mas é comprar uma daquelas toucas que têm um cinto de orelha a orelha, porque não aguento mais isto". Parecendo que não, acaba por ser uma aula duplamente cansativa (embora duvide que me consuma o dobro das calorias), e eu já não tenho idade para estes números. 
Já no lar, voltei a desabafar o drama touca deslizante, e foi quando uma das minhas bebés me esclareceu que o problema não sou eu, é ela (touca): toooodas as toucas são demasiado pequenas para quem tem cabelo comprido. 
E fez-se-me uma espécie de luz, pois já ponderava a possibilidade de, subitamente, me ter tornado cabeçuda, ou de a minha caixa craniana inchar com a água, qual soja, qual liofilizado. Eu bem olhava à volta, e parecia-me que as cabeças dos outros nadadores eram, grosso modo, do tamanho da minha, mas sei lá, tudo é possível, já que sou tão atreita a fenómenos. 
E deu-me a criança que gerei a conhecer esta maravilha:


Claro que vou ter uma, não é isso que está aqui em causa.
É que, entretanto, lembrei-me que a água da piscina também me anda a fornicar as unhas. As vinte unhas. Já experimentei ir para lá de gelinho, e, porque estou de mão e pé submerso um ror de tempo, o verniz deu em levantar placas, separando-se das unhas num divórcio feio de se ver. Hoje já fui de verniz normal, e também trouxe duas meio descascadas. Então, lembrei-me que deve haver umas luvas de natação. E umas meias. E que, se não há, vou inventar, vou patentear, depois apresento no próximo Shark Tank e fico rica, feliz e gira para sempre. Entretanto, a mulherada vai para a piscina de luvas, meias, o fato de banho mais feio da parada, a bendita touca, algumas de óculos de natação (que também são aquele arraso de beleza), mola no nariz, e assim está criado todo um novo conceito de nadadora: a sereia-anti-tusa.
Quem é amiga, hã?

07/04/2018

Os 5 anos do coiso

Foi há cinco anos que escavei este buraco onde me escondo. Lembro-me que era um domingo de tempestade, se não literal, pelo menos literária. Sei que chovia, fora e dentro de mim, e daí adveio a imperiosa necessidade de brotar. Assim, amontanhei-me e pari este espaço, como quem pare um rato.
Havia de fazer uma retrospectiva, num registo trágico, ou então cómico, que são para aí os dois caminhos que, como boa Escorpiosa que sou, sei trilhar. Mas dá-se que não aprecio particularmente nada que comece pelo sufixo retro, a não ser retrosaria (por causa dos alfinetes, aka ironia), pelo que vou abster-me, como aquelas pessoas que não sabem o que querem à boca das urnas. 
Também não estou na mood de fazer um apanhado, geral que ele seja, do que é, neste momento, manter o coiso, pois isso poderia ferir susceptibilidades, e a mim já me bastam as minhas feridas para lamber, que me dão uma trabalheira só em salivação, quanto mais as dos outros.
Em último, não vou homenagear ninguém aqui e agora, reservando tais tributos para o momento e local certos, e hoje it's my party and I cry if I want to. Nem vou deixar indirectas a quem não me grama, nem a quem finge que não me lê e depois se denuncia à vara larga, nem a quem me deixa aqui comentários anónimos (muito mal) disfarçados de amigáveis, pois que sou demasiado directa para isso, e estimo, com fervor religioso, que se forniquem.
Só não me apetece ser querida e fofa (🙄), muito menos captadora de seguidores [incrível, ao fim de cinco anos, e 2783 textos que me saíram dos bons e maus fígados, ter conseguido angariar cem seguidores. Deve haver, cá na blogobola, poucas com este dom, hã?], designadamente porque esta noite dormi poucas horas e estou com os níveis de inspiração abaixo de zero. Isto, obviamente, partindo do pressuposto que haja vezes em que sequer vêm à tona. 
No entanto, quero agradecer a quem cá vem com alguma frequência, ou porque escrevi alguma coisa com (os) pés e (pouca) cabeça, ou porque pus um título que é uma esparrela (caso do da viagem de finalistas) e caem aqui ao engano, mas que me aumentam o número de visitas diárias uma ou outra vez, e isso, sei lá porquê — já que sou bruta —, aquece-me o coração. 


06/04/2018

Ela fala tanto # 24

No entanto, ou tem breves bloqueios, ou serei eu que não alcanço raciocínios tão intrincados, esdrúxulos, direi mesmo abstrôncios.
Ouve um estrondo no quarto das miúdas, vai calmamente saber do que se trata. Vê uma delas com uma das portas do roupeiro na mão, que acabou de descarrilar do trilho que é a calha. Coisa para dois metros e tanto de altura, algo como oito ou dez quilos de peso. 
- Ah, pensava que tinhas caído.
E assim disse, melhor fez: saiu do quarto e foi à atarefada e inadiável vida dela.
Pergunto-me assim: então e se ela tivesse caído? E respondo-me assado: provavelmente, diria: “Ah,  pensava que a porta do armário tinha caído”. E lá ia, à atarefada e inadiável vida dela.
Só não me pergunto o tamanho da puta que ela havia de armar se a porta lhe descarrilasse nas mãos, ou se desse uma queda na minha casa. Logo baixa, quais agora?
(Se calhar, se fosse comigo, defecava no assunto. Em se tratando de uma das pessoas que eu gerei, é que temos a burra nas couves, que parece que tudo muda de figura. E de cores.)

05/04/2018

Madrinha atípica # 2

Sou dotada de bastante orgulho derivado às prendas que ofereço à minha afilhada. Se já filhas tenho bastantes, afilhada tenho só uma, com a grande vantagem de ser um tanto mais nova do que as da minha criação. Aquela menina matou-me (não a gritos; não a tiros; sim a beijos) muitas das saudades que fui deixando arrastar para trás no tempo, aquele que não volta para lá. Sem ter culpa pelo mau jeito, tem também a grande desvantagem de ter nascido em plena Páscoa, mais coisa, menos coisa, pois que esta é festarola móvel, ao contrário do aniversário da minha petite, que é de comemoração imóvel. Ou seja, ou calha em cheio na Páscoa, ou calha-lhe rés-vés, mas nunca em vazio.
Sinceramente, gostava de ser afilhada de mim mesma. De alguma maneira, até sou, naqueles momentos extra aniversário, Natal ou Páscoa, em que me oferto cenas. Mas não é a mesma coisa que seria alguém me fazer esse miminho, pois sou uma carente no que toca a agrados com valor monetário sentimental. A madrinha que tive não se esticava muito nas datas, a não ser por duas vezes em que me ter brindou com um relógio de pulso, o primeiro que espatifei logo (por ser extremamente pequena, não só em altura como também em idade), se calhar por não saber ler as horas, e um outro, que era um Timex* azul com números brancos, de que só havia à venda ou azuis ou vermelhos, mas a minha madrinha lá deve ter percebido que, para mim, ou era azul ou não servia, e posso mesmo dizer que amei aquele relógio com fervor quase carnal, tanto que ainda o tenho guardado, volvidas que lhe são em cima cerca de várias décadas. 
Bom.
Nestes treze anos de vínculo que nos une, dei à afilhada do meu coração um serviço completo de colheres de café em prata (quando eu ganhar o Euromilhões, faço-te o Topázio* Caninhas de jantar, querida, se me estás a ler), a Pandora* completa, brincos e pulseiras a perder de vista, o relógio mais foleiro do Mundo, mas que ambas delirámos por dar/receber, e eteceteras vários, tudo assim nesta linha de pensamento. 
Porém, mas sem poréns, dá-se que a menina está a fazer-se mulher, e algo me gritava que só eu, que quase nunca a vejo, me apercebi desse facto. Então, fui à loja italiana da lingerie de perdição e adquiri-lhe um conjunto bellissimo. Dei-lho com a recomendação de que não abrisse à frente de toda a gente (referia-me aos pais) (e sim, sou desencaminhadora), ela sumiu-se para o quarto e voltou, minutos mais tarde, com uma piscadela de olho, "Adorei a prenda, madrinha" e um abracinho bom.
Mais tarde, a mãe, minha bicomadre, enviou-me uma mensagem, a dar conta de que ela estava tão feliz que não queria largar a lingerie. E que eu tinha acertado em cheio.
Olha a novidade, são muitos anos a virar frangos.
Portanto, já sabeis: quando tiverdes dúvidas acerca do que ofertar a jovens dos zero aos quarenta e nove, vinde cá perguntar, que LB é este poço de sabedoria da treta e abnegação, capaz de iluminar trevas dessas.


* NMPPI

03/04/2018

Viagem de finalistas

Diverte-te, aproveita, cuida-te,
e travei mais não sei quantas palavras, presas na garganta como fumo espesso, tantos pedidos, já não conselhos — pois quem sou eu, senão apenas mãe? —, com laivos de rogo, e um (que me pareceu) leve timbre de súplica.

Uns dias antes, havia começado a lista, encimada pelos mais terríveis e inadiáveis, por ordem de importância na escala da aflição,
Por favor, não bebas até cair. Se beberes até cair, não te aproximes de uma janela. Nem de uma varanda. Nem da piscina. Pede ajuda, se te sentires mal. Não sei se já te disse que me és precioso. Já disse? Então, repito.
Calei-me a tempo de não debitar tudo o que me ensombra a alma de cada vez que um pássaro me sai do radar.

[Senta aqui ao meu colo. Toma a chucha. Não arranques a fralda. Vai ao bacio. Tira isso da boca. Não te descalces. Vem para o banho. Toma leitinho. Dorme um bocadinho. Come a sopa. Não subas para aí. Desce daí. Diz 'obrigado'. Põe o chapéu. Deixa-me pôr-te protector solar. Bebe água. Sai do sol. Espera pela digestão. Não fales com estranhos. Não digas 'não' a tudo. Não corras aqui. Dá-me a mão. Faz um desenho. Sonhos azuis. Dá-me um beijinho.]

[Não apanhes chuva. Não abuses do sol. Leva protector. Cuidado com os mergulhos. Sê educado. Come sopa. Come também fruta. Alimenta-te como deve ser. Respeita a digestão. Não passes fome. Nem frio. Veste um casaco. Leva roupa suficiente. A escova de dentes. Cuecas para todos os dias. E meias. Os calções de banho. A sweat com capuz. Uma farmácia completa, I mean. Também devias levar a tua gata, ninguém a aguenta quando tu não estás.]

[Senta aqui ao pé de mim. Vamos comer pipocas. E batatas fritas. Chiu, é segredo. Tem cuidado. Atravessa na passadeira. Bom treino. Vai sempre pela pista. Não resistas se fores assaltado. Foge da confusão. Vai estudar. Vai para o banho. Acorda, que já são horas. Corre. Diz 'não' ao que te prejudica. Não venhas tarde. Não fumes. Não estragues a tua pele. Dorme bem. Dá-me um abraço.]

Agora a sério, diverte-te. Aproveita. Mas cuida-te.
(Já te disse que me és precioso?)


02/04/2018

Isto, por acaso, vem um nico a propósito da quaresma

Aquilo era um dia de sol, dos raros que têm sido nos últimos tempos.
À porta do prédio, agarrada ao vidro, vi uma borboleta pequena e pouco bonita. A pobre, como todas, não tinha capacidade para entender a barreira não natural e transparente — para ela, invisível, até — que a separava do sol. Com um papel que encontrei na mala, procurei arrastá-la até à porta aberta. Pousou na minha manga e, assim, levei-a até ao exterior. Partiu, voando, sem adeus nem obrigada. Também eu não lhe disse adeus, só com o olhar, o que não conta, e fiquei a tautear 'How to save a life'. Não tem nada a ver, didn't go wrong, didn't lose a friend, mas lembro-me sempre.
~
O homem tinha dito que, quando a gata emprenhasse, a doutora ia mandar tirar
Naquele dia, agarrei-a mais uma vez, como minha que não é, mas assim a sinto, quanto mais não seja só por um bocadinho. Chega-me essa migalha, e sabe-me por um pão inteiro. 
Disse a senhora que ela já está à espera
A doutora vai deixar ter?, era eu, sem acreditar que o homem confirmasse.
Ai, não vai, não, vai mandar tirar.
Ai, não vai, não, isso pensas tu. 
Telefonema para a doutora,
Desculpe, sinto-me uma pet lover ridícula, mas alguém é capaz de fazer semelhante crueldade àquela gatinha?
Pois que não, que fique descansada, é claro que não, ai, não vai, não, não vai mandar tirar.
How to save some lives.
~
Devia deixar de comer carne. Isto é uma hipocrisia como outra qualquer.
Mas e o que eu adoro a chuleta do boi, a perna do borrego, o leitão assado, as plumas do porco preto, o frangote no churrasco? Oh pá, preciso de ajuda! Algum Carnívoros Anónimos?



29/03/2018

Ai-fostes também não me tem em grande conta # 4

Ai-fostes veio parar-me às mãos guarnecido com uma aplicação assaz atractiva, quanto mais não seja por ter, no seu ícone, un petit coeur. Responde ela pelo nome de "saúde" e é a que — de entre outras valências que não explorei — nos mede a distância diária que percorremos a pé ou a correr (como se corrêssemos com recurso a outra zona do corpo que não fossem os pés). A mesma aplicação peca, a meu ver, pela incapacidade intrínseca que lhe é inata, de nos contar os passos em situações de não deslocação, ou seja, quando maior é o esforço, que é no ginásio: elíptica, passadeira, jump, body pump, aeróbica, etecetera. Pode uma pessoa estar a finar-se de exaustão cardio-gluteal durante uma ou duas horas, que a aplicação do coraçãozinho lhe atribui muito menos passos (na verdade, igual a zero) do que se for bater pernas para o shopping no mesmo espaço de tempo.
[No entanto, existem casos como o meu em que me parece justo que assim seja: a marcha fora do ginásio é cumprida (e comprida) de saltos altos, pelo que até deveria valer o dobro, como aquelas campanhas em África.]
Depreendo, não obstante, que Ai-fostes contabiliza a passada de forma relativamente aleatória. Por exemplos: anteontem, ao longo de um dia inteiro, contou-me 3941 passos para 2,6 km. Ontem, eram ainda umas escassas 16:49 da tarde, já ele me havia contabilizado os mesmíssimos quilómetros, mas com 4447 passos. Ou seja, percorri a mesma distância, dando mais 506 passos (e sim, recorri à calculadora, porque este desgaste pedonal acaba por me afectar o cérebro).





Conclusões:
1. Há dias em que dou passos de gueixa;
2. Há dias em que dou passos de elefante/ gazela;
3. A contabilização é muito mais aleatória do que eu imagino. Tipo o boletim metereológico;
4. É possível enganar a aplicação (que funciona por GPS), bastando, para tanto, que nos desloquemos de um lado para o outro, nem que seja do sofá para o frigorífico, do frigorífico para a despensa e da despensa para o sofá, sempre no enfardanço. Ou então, era a pessoa praticar o ballet e dar uns bons jetés por dia, que aquilo contava dez passos por cada jeté);
5. Nós não estamos sós


28/03/2018

Post interdito a machos # 7

O soutien, ou sutiã, conforme preferirdes, é aquela peça de vestuário que, salvo as excepções dos de desporto e medicinais, regra geral, vem apetrechado com colchetes, que são o que encerra o dito cujo até à próxima abertura, isto tanto para o bem como para o mal. A mim parece-me, mesmo sem ter feito uma auscultação de mercado exaustiva ou de qualquer espécie, que toda a mulher, mais ou menos a partir dos doze anos de idade (ou desde que as meninas eclodem), consegue fechar os dois colchetes atrás das costas, atrás dos olhos, à frente do peitoà frente das costas, nas costas, sem recurso a ajudas, espelhos ou outras manobras que tais. O tacto também é um sentido, e é em grandes momentos como o da abotoadura do sutiã que dá provas cabais da sua grande oportunidade. Portanto, apertar dois colchetes, minúsculos e quase juntos, em duas ou três fileiras, quantas vezes com unhas compridas, não sendo tarefa que exija grande ciência nem tecnologia, também não é impossível aos olhos (mesmo sem recurso a eles) de qualquer mulher desde o final da infância.
Com o advento dos bralettes, advieram com eles as fileirinhas de colchetes, mais concretamente três fileiras paralelas (vá lá não serem perpendiculares; ou oblíquas. Secantes) de nada menos do que quatro colchetes cada uma. Quatro. Não sei como não se lembraram de pôr um fecho-éclair naquilo.
Ora bem, quatro vezes três, é igual a doze. Doze colchetes são vinte e quatro peças do tamanho de uma mosca recém-nascida, para uma mulher ter que manusear sem olhar, nas suas próprias costas. Esta intrincada matemática, qual autêntica matriz, que envolve análise combinatória (aliada à ginástica contorcionista de todas as articulações do braço), equivale a n possibilidades de combinações entre os doze colchetes, cada qual, como já vimos, com duas peças, e em que há que fechar em recta perfeitamente vertical, nada menos do que quatro deles. Nada confuso, portanto.
Aposto todas as minhas fichas em como quem desenha os sutiãs são homens. Esquecem-se — ou não — do super-multitasking feminino: tal como nos primórdios da eclosão, havemos de abotoar o bom bralette na barriga, rodando-o e depois subindo-o torso acima, até que nos reabituemos à estratégia da cabra cega. Subestimam-nos, os meninos.


27/03/2018

Freud, socorro!

E lá estava ela, exibindo a sua pretensa superioridade na matéria, impondo opiniões, desfocando o objectivo, na ânsia de sobressair. E ele, ao lado, adormeceu. Foram escassos três segundos, qualquer coisa de imperceptível, mas foram profundos, alienatórios e reparadores. Quem mos dera. Ao invés, morri-me mais três segundos da minha vida.
Ela não o viu adormecer, pois estava tão concentrada em si mesma que simplesmente era incapaz de olhar à volta.
Pode ser uma fase que passo agora, e que passará um destes dias — ou não —, mas tenho cada vez menos paciência para a soberba, para a vaidade cultural, para a sobranceria intelectual. Sobretudo quando, como é exemplo esta senhora, se engana tanto e tantas vezes seguidas que não é possível justificar verdadeiros erros com lapsos (e não gralhas porque a mulher fala; na verdade, não se cala).
O que mais me intriga é que a própria não se apercebe. Pode estar diante de um grupo de seis, de dez, talvez pudesse enfrentar uma plateia de centenas, que nunca se daria conta do frete que provoca de cada vez que abre a boca para mais uma das suas pequenas — infindáveis — dissertações. Aquilo é quase um dom para a hipnose de grupo. (Estará a treinar?) 
Olho para ela e penso se algum dia ficarei assim, não necessariamente dona da última opinião, pois isso nem me é estrutural, mas assim: convencida que sou um "bom papo", que é um prazer para os outros ouvirem-me (e, se não for, no limite, que me aturem na mesma, porque já defeco se me ouvem por opção ou por mera delicadeza), que sou uma oradora de mão boca cheia. O que sei, para já, é que nunca ninguém adormeceu a ouvir-me falar (faça-se honrosa excepção aos filhos enquanto pequenos, o que era, se não um alívio, pelo menos um momento bom). Já pus gente a ouvir-me com atenção, com (real ou simulada, nunca saberei) admiração, com alegria, com lágrimas, até mesmo com raiva. Já provoquei, através das minhas palavras, as mais diversas reacções nos meus interlocutores. Mas sono, ou adormecimento então, isso nunca. Quer dizer, que eu tenha dado por isso. Ou não terei  já tido momentos em que, também eu, concentro o centro do mundo no meu umbigo e não vejo mais nada?


26/03/2018

Splash

Aqui há tempos, tipo ontem, acordei a sentir-me uma sereia [e não metade mulher, metade baleia — e não, a piada não é minha]. Atendendo a esse facto, e logo após puxada aula de dança, vai de me meter noutra aula, igualmente de dança, mas, desta feita, imersa — e só não submersa porque é suposto deixar as cabeças, minha e dos outros que lá estavam, fora do charco. 
É claro que, entre uma aula e outra, duchei-me. Se a ideia de ir boiar no suor alheio já me deixa apreensiva, que direi da contrária, e dá-se que sou humana de respeitar extremamente o próximo, sobretudo quando ele está efectivamente próximo. 
Enverguei então fato de banho próprio para a ocasião — horrível, como são todos os fatos de banho de natação —, chinelos —, minhas havaianas high heels — e touca, aquele penico que não fica bem a ninguém (de tal modo que não sei como é que o pessoal das praxes académicas ainda não se lembrou de substituir os penicos por toucas de natação), daí que seja impossível ficar-me bem a mim. Na verdade, levava duas toucas, uma em cima da outra, porque uma só não me segurava o cabelo e precisava da outra para segurar a primeira. Para além disso, fui um bocadinho maquilhada (coisa leve, um rimelzinho e um nico de base + anti-olheiras, pois que enfrentar a aula de chapinhanço com olheiras é que jamé-salomé), tendo em conta que não tencionava mergulhar (ou não era suposto, melhor dizendo). Esqueci-me, ou ignorei, a possibilidade da ocorrência de salpicos, derivados ao facto de existirem em todo o lado adultos imaturos e inconscientes, brlá-brlá-brlá.
Apesar de ser eu, acho que correu tudo muito bem. Pelo menos, acertei com a porta para a piscina, não escorreguei em lado nenhum, nem o fato de banho encolheu comigo lá dentro. Fora o facto de as duas toucas terem ameaçado, logo ao início das actividades, saltarem-me da cabeça (imagino que em simultâneo), e ter tido que pedir socorro à titcha, que, mal suspeitando que eu já tinha duas, me atirou mais uma (o que me há-de ter feito ficar parecida com Stewie Griffin, aquele bebé maléfico e macrocéfalo); fora ainda ter-me dirigido à única louca que frequenta aquelas aulas para fazer par comigo numa actividade a dois; descontando também ter saído da banheira com um dos olhos (ao menos que fossem os dois!) a borrar, qual guaxinim zarolho, de resto, acho que o cômputo foi assaz positivo.
Voltarei. (Ainda não sei se isto é uma promessa ou uma ameaça.)




23/03/2018

os caminhos do afecto

Já era a ela que ia visitar, perdidas que ficaram na estrada todas as esperanças de um regresso. Tornou-se um facto consumado, o de me ter tornado irreconhecível, embora não me reconheça qualquer mudança. Pelo menos, nenhuma que me pudesse ter valido a indiferença e o distanciamento, vindos de quem tão próxima que mais não poderíamos ser. 
Mas votava-me ela também àquele desapego de que só um gato é capaz, e não foi uma nem duas vezes, devido a isso, que fiquei lá sem chão, no mármore de Estremoz bonito e frio que é aquele. Bem a chamei, muito a espiei, tantas vezes a agarrei e encostei a mim, com cuidado para não a apertar, evitando que me escapasse, procurando assim tê-la mais uns segundos, aproveitando a temperatura e a maciez, abusando-lhe da mansidão, até que se fartasse de mim outra vez. 
Tinha, assim, um motivo para continuar a ir, fazendo da estrada o caminho para o afago, o apego, o afecto. Foi isso que me fez entrar e ir directamente da porta à procura dela. Fui encontrá-la no cesto, adormecida, ausente, alheada. 
Antes que o chão me fugisse outra vez, recebi os braços que há muitos séculos me embalaram, beijos que acreditei que me foram dados a mim, e a voz sussurrada que tantos fados me cantou, "Querida, querida". 
À saída levava comigo uma alegria trespassada por só saber porquê, mas não por quê, ali voltarei sempre.


21/03/2018

And that awkward moment # 47

em que te encontras numa qualquer farmácia deste berlinde, já retiraste a senha de vez,
(que é outro dos grandes mistérios insondáveis da tua magra — querias! — existência, pois que, seja ali, seja no banco, seja na segurança social, seja no supermercado, seja onde o Diabo perdeu os chinelos Prada, nunca, por nunca, existe uma mera possibilidade, daquelas que a lista das senhas apresenta, que te sirva como uma luva. Então, retiras a senha que te parece ser a menos longínqua da tua pretensão, ou a mais genérica quanto a ela, do género "apoio", "balcão", "outros". Pôxa, só te apetece tirar sempre a senha de prioritário e fazeres-te mais palerma do que já te tomam na realidade),
e a tua visão periférica, do lado esquerdo, te anuncia que se encontra, logo ali ao teu lado, uma pessoa a quem não te apetece falar? Não é das tuas relações pessoais, é daquelas pessoas com quem, em universitários tempos idos, que já lá vão e não voltam (lagarto, lagarto), te cruzavas todos os dias pela mera coincidência de frequentarem o mesmo estabelecimento. 
Rodas o salto cerca de 180º, mais grau, menos grau, e, subitamente, interessas-te por todas as estantes da loja. Sim, elixires, chuchas e lubrificantes incluídos. 
E é quando, também pela tua visão periférica, mas desta feita pelo lado direito, avistas outra pessoa a quem não te apetece falar. Isto dito assim, até parece que guardo esqueletos no armário, e ando a fugir da minha própria sombra. Não guardo, môres, acontece que no meu armário não cabe nem mais uma saia (última tentativa: ontem), e, quanto à minha sombra, nem sei por onde anda, pois, tal como o outro boneco, sou mais rápida do que ela. Mas esta pessoa é daquelas que, tal como a outra, pertence a um passado remoto, e eu terei exactamente zero para conversar com ela. 
Vai de rodar o salto mais uma vez, o que veio a revelar-se inútil, já que fiquei com um de cada lado, qual Cristo. 
Entretanto, fui atendida, e praticamente bichanei com a técnica, a ver se nenhuma das duas almas me reconhecia a voz e me estragava o arranjinho. 
Para sair, tive que optar por um dos lados, pois andar às arrecuas, apesar de ter maior probabilidade de escapatória, era bem capaz de dar nas vistas (e, com esta sorte magana, ainda me ir esbarrar com um dos dois). Então, pus-me cabisbaixa, orando com fervor "faz-me invisível, faz-me invisível, só três segundos", mas é que Ele não me deu ouvidos (deve ter sido por não me ter ajoelhado), e exclama a da visão periférica direita: "Olááááá! Estás boa?", tudo isto com um hálito fétido e cinco caixas de pastas de dentes na mão. Antes que eu pudesse responder (na verdade, estava em apneia), elucidou-me: "Vim aqui comprar pastas de dentes!". E logo: "Mais um beijinho! Olha, tu estás na mesma, o que é que fazes?". Desbloqueando a respiração, respondi: "Tu também". Depois fiz o que já devia ter feito minutos antes: fugi.

Começas a suspeitar que és uma pessoa humana assaz previsível

quando uma das tuas filhas te mostra um cartoon e te diz: "Olha tu".

https://www.instagram.com/p/BgjUs96DSE0/

20/03/2018

Alvíssaras para mim /

Quem é uma menina (!?) cheia de sorte?

Achei!
Ou melhor, achei a titcha de dança e fui-me a ela, cheia de dúvidas. 
É isto: Mampi, a responsável pelo meu desassossego cerebral, é natural da Zâmbia (e não Nova Zelândia nem Índia). E é óbvio que não está a cantar em Inglês.
Swilili, chamei eu de Tiriri. Não mereço o chão que piso. 


Pronto, agora já posso dormir descansada. Eu, e vocês, pois este tipo de problemática, geralmente, atinge a blogobola em cheio, qual alfinete no balão.
Obrigada a todos aqueles que sofreram comigo e, até certo ponto, me deram aquele apoio, sem o qual não teria aqui chegado, a este ponto. Final. 

Alvíssaras, que eu cá ando a ponto de desistir

Tenho na cabeça, desde domingo passado — anteontem, já lá vão dois dias, quarenta e oito horas deste massacre — uma música que não consigo "agarrar" na netty, mas que se me incrustou no cerebelo a níveis exponenciais, daqueles de cantá-la de noite e tudo. O grande busílis é que não é uma melodia em Inglês, ou Francês, ou numa língua qualquer que eu entenda uma palavrinha que seja, para, ao menos por aí, pesquisar e encontrar. Acho que é em Maori. A sério. Também podia ser em Híndi, não fora o facto de não ter um ritmo indiano. 
Só sei o refrão, e mal:
Tiriririririri,
Diriririririri,
Chiriririririri,
ou
Niriririririri.
É que parece que não existe.

Entretanto, consolo-me com esta análoga (diferente, mas na mesma onda):

19/03/2018

o odor do amor

Houve aquele momento em que ele pediu que, de olhos fechados, nos lembrássemos das três mais remotas recordações da nossa infância. Não preciso de fechar os olhos para saber que todas as que trago guardadas em mim há mais tempo estão ligadas ao olfacto: tenho comigo o cheiro da minha mãe, da sua pele branca e lisa, orvalhada de um perfume desaparecido há muitos anos, dando-me que pensar se esse não terá sido também o ponto da sua partida. Conservo intacto o cheiro do meu pai, dos abraços com braços pequeninos e de cabeça encostada às pernas dele, ao abdómen, mais tarde ao coração, e a passagem neles da certeza de que tudo estava bem e de estar num abrigo que jamais me faltaria. Ficaram-me outros tantos odores só meus, do mar da Costa, dos pinheiros carregados de resina, da lareira no Alentejo, das azeitonas nos alguidares de barro, dos tarros de cortiça, da casa da minha avó no Porto, dos móveis passados a óleo de cedro da minha Titi, das sardinheiras da sua varanda, dos lápis de cera e dos pincéis na escola, das sardinhas na Feira, e do vento, que nunca mais cheirou da mesma maneira. Todos são irrepetíveis mas eternos, se calhar por serem meus, apesar de eu já não ser aquela mesma. 
E os olhos do meu pai. Havia também neles um odor de desvelo e entrega, que era o odor do amor.
Calhou ser Dia do Pai e ele fazer aquela pergunta, logo hoje, dia em que ele próprio comemora o seu primeiro Dia como Pai.
Calhou ter feito uma longa pausa, quando chegou a minha vez. Assim que a voz me voltou, falei-lhe das incontáveis vezes em que parti a cabeça, do primeiro dia de jardim de infância e da quantidade de bonecas que tinha para cuidar.


17/03/2018

Eu tenho problemas com médicos # 29

Agora supõe que vais para que te tirem um RX à boca. Meteste na cabeça — ainda não literalmente — que vais colocar um aparelho dentário invisível. (Daqueles que, tal como n' "O Rei vai nu", só os espertos conseguem ver. Vai na volta e nem eu própria.) Não que tenhas a dentadura a gritar por endireita (caso contrário, já há várias décadas os teus pais se teriam encarregado desse assunto), mas porque queres. E é a velha história de a-menina-quer, enfim, apesar de ainda andares nas démarches do orçamento. Com toda a probabilidade, vem de lá uma surpresa financeira que te fará pôr a cabeça no lugar, e os dentes aonde estão actualmente.
O dentista dos olhos bonitos é que receitou o RX, para poder fazer O Estudo. Antes disso, sujeitou-me a todas as sevícias de que se lembrou naquele dia: meteu-me na boca uma papa amarela e gosmenta, parecida com plasticina, que disse ele que sabia a baunilha. (Eu, pessoalmente, prefiro pistachio ou chocolate, mas achei chato dizer.) E mandou a pessoa morder aquilo, juntamente com duas espátulas de metal, vá lá que uma de cada vez. Quando já havia dejectos de plasticina amarela por todo o ser humano, desde os ombros até aos cabelos, mandou a assistente colocar-me um babete e a mim mandou-me lavar a boca lá naquela torneira que os dentistas têm. A mim tudo me anestesia (até mesmo um naco de plasticina), pelo que bochechei aquilo pelas paredes do lavatório afora, o que deve ter poupado alguma coisa ao trabalho da senhora das limpezas, na madrugada seguinte. De seguida, meteu-me uma coisa plástica nos dentes para manter a boca aberta e foi buscar uma máquina fotográfica daquelas potentíssimas, com uma lente gigante, e desatou a fotografar-me a boca naquele preparo. Ora, eu estava deitada, por isso temi que a objectiva se soltasse e me caísse nos dentes. Mas, afinal, não. Quando, finalmente, me deu autorização para me levantar dali, disse que me ia tirar uns quantos retratos (de frente, séria; de frente, a sorrir; e de lado, a olhar por cima do ombro). Tirei o babete e cedi. Dei o meu melhor, embora parecesse mesmo que estava na Judiciária, apesar de ele não ter querido fotografar-me de perfil. Ainda bem, porque nunca sei qual é o meu melhor. (São os dois tão bons, cada um à sua maneira.) 
Fui fazer o RX e aparece-me o técnico, personagem saída directamente de um livro de Charles Dickens: praticamente calvo, ainda com algum cabelo no topo, a ver-se a cabeça à transparência, mas de cabelo comprido. 


Homenzinho sisudo, cara de carnes chupadas, olhos sinistros. Pôs-me a cabeça entre umas traves, a boca a morder uma placa de plástico, e disse-me para fazer um sorriso forçado. Pensei que fosse uma brincadeira, porque um sorriso forçado já eu estava a fazer. De pânico, é certo, mas um sorriso na mesma. Afinal, era para mostrar os dentes para a máquina. Eu, por acaso, tenho bastante medo daquele momento em que as placas começam a andar à volta da nossa cabeça, porque sempre achei que um dia uma delas me vai decapitar, não sei porquê. Mas acho que não aconteceu nada disso, e depois fui para casa.

16/03/2018

Jump!



Já tinha espreitado aquelas aulas, o povo todo com uma espécie de patins sem rodas, olha que giro, saltam que se fartam, de certeza que é fácil, ai que também quero. 
E eis-me. Primeira vez que vou, e não eis a instrutora, eis outro, que é doido varrido, e pode ter sido por isso. 
O meu tornozelo direito é mais frágil do que o irmãozinho gémeo (são dizigóticos), e, por isso, já fui munida de uma meia elástica a abraçar o menino, não fosse torcê-lo. A hipótese de engessar os dois, muitíssimo mais preventiva, não se me pôs, dado que as botas cumprem essa tarefa na perfeição: o pé fica ali agarrado e quieto, quase-quase como nos skis. [Nem me quero lembrar do quão detestei "esquiar" (aspas derivadas do facto de não ter esquiado efectivamente), o que faz de mim, vista por esse prisma, a eterna não-blogger, que chatice.]
Primeira barreira: calçar as botas. Há que fazê-lo sentado no chão, exactamente como se tivéssemos três anos de idade. Depois, cada uma tem duas presilhas, pelo que, se não me falha a matemática, temos que apertar quatro. Ora, basta que uma esteja relaxada e a aula já tenha começado, para que uma pessoa como a minha, não querendo chegar atrasada, porque nunca, vá mesmo assim, com uma das presilhas desapertada, e logo se vê se a bota sai a jacto na direcção de espero que não uma cabeça, nomeadamente a minha. Então, apesar dos avisos do instrutor, e como não me entendi muito bem com aquilo, só apertei três das quatro (75 %, não é mau), mas, efectivamente, não aconteceu nada de registo.
A ordem é pular-pular-pular. Cinquenta minutos a pular com umas botas que, se por um lado, têm molas e ajudam à impulsão, por outro pesam trezentos quilos (nunca experimentem ir nadar com aquilo calçado), e, (só) por isso, devem fazer um bem horrível ao coxedo. Se não, a qualquer coisa fazem de certeza (à mood, pelo menos).
Confesso que passei as fases 1. que-giro; 2. que-canseira (no final do aquecimento!); 3. penso-que-vou-cair; 4. acho-que-vou-descansar-um-bocadinho; 5. onde-é-que-me-vim-meter-? [fase mais prolongada no tempo]; 6. penso-que-faleço; 7. coitadinhos-dos-meus-filhos; 8. quero-a-minha-mãe-já!; 9. ah-oh!-está-quase-a-acabar; 10. tenho-que-cá-voltar.
Portanto, fora o facto de ter saído a sentir-me o Tigre do Winnie the Pooh (alegria incluída!), acho que correu (pulou) tudo bem. 

13/03/2018

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 55

Ou
Há uns que gostam de apanhar, só pode ser isso.

Não posso ir ao supermercado, nem que seja virtualmente. Isto é, através de nettinha, pois que aquela coisa do online permite a uma pessoa humana teletransportar-se para o recinto, escolher os itens no sossego do seu computa e tê-los todos no lar em cerca de horas, verdade?
Não. Mentira. Tudo depende de, de quem se trata. E eu trato-me de uma pessoa sem sorte para algumas coisas, por compensação de todo o resto. 
Escolho o horário de entrega para o lapso que dista entre as 10:30 e as 12:30 da madrugada.
Vejo chegar as 12:30 e nada de a encomenda me chegar aos braços. 
Ligo para o apoio ao cliente, sou atendida ao fim de um quarto de hora de música de câmara, e isto a fazer-se uma da noite, rés-vés Campo de Ourique com a hora do almoço. 
Diz que o entregador está ligeiramente atrasado. (Oh, really?)
Protesto e reclamo que alguém me vai devolver a taxa de entrega. A Voz diz-me que sim, dado que já se deve ouvir o meu ranger + espumar + arfar. Vou esperar sentada, a ligar para aquele 707 nos próximos dias, cada vez que abrir a minha conta e verificar que — oh, surpresa! — a taxa não me foi devolvida.
Cerca de quê? Três, cinco minutos depois, recebo uma chamada do apoio, agora já com uma gravação, que me faz um questionário em duas singelas perguntas:
1. De 0 a 9, recomendaria o serviço online a um amigo?
2. De 0 a 9, quão satisfeito ficou com o serviço de atendimento mu-mu-mu, que nem a deixei completar a pergunta, pois já me tinha caído o dedo, outra vez, e com toda as as minhas forças, na tecla do zero. 
Era terem esperado meia-hora, que já me apanhavam macia, como de costume. Assim, olha,  apanharam-me em bruto (ou em bruta, se preferirem), e enfardaram até eu me cansar. 


12/03/2018

É preciso tão pouco para me fazer feliz # 13

Dever cumprido, trabalho acabado, vamos lá comemorar isto, e que melhor maneira do que com um vestido novo? É de flores, é de Primavera, tem chovido bastamente até dizer basta, mas foi de flores que me apeteceu vestir hoje, tanto e tanto que me fui assim para o sol tímido da trégua.
Nem sapatos novos, nem um casaco novo, nada mais me dá tanta alegria estrear como um vestido.
E era toda de flores que atravessava a calçada, quando avistei uma menina pequenina, não especialmente bonita, mas linda como o são todas as crianças: era uma flor, ela sim, pousada na relva, cabelos encaracolados ao vento, olhos azuis daquele mar que já me tarda. E, do alto dos seus três anos, dedito espetado na minha direcção, exclamou: "É a mamã!".
Eu, que já tinha o dia iluminado de flores hoje, colhi mais uma braçada delas assim, guardando-as dentro do peito só para mim. 

11/03/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 14

que avisto uma mota da Ubereats e acho aquele conjunto homem-motocicleta tão parecido com o do senhor polícia motorizado, que me ponho logo a conduzir como manda o Código? Oh, pá, não sei se é o coletinho verde, se é o capacete, se é tudo junto, sei que me temo. Aquilo assim, num relance, à laia de soslaio, é um ai-Jesus, um ar que me dá, um ai-que-susto. Não sei explicar o temor reverencial que me assola, mas sei que me ponho logo no trilho, calhando haver um do Eléctrico, e é nesse mesmo que me alinho. 



Na verdade, o mesmo se me passava aqui há uns anos não muito largos, com aquela maravilha inventada por alguma cabeça cheia de nem quero imaginar ideias luminosas, que dava pelo nome de Motocão, tinha um cabo de aspirador incorporado e tresandava a estrume de vaca. Pois, eu cruzava-me com um condutor daquilo, e, muito antes de o fedor me dominar até às têmporas, já eu me punha em sentido, cheia de respeito pelo agente. Que, afinal, era um desgraçado, incompreendido, provavelmente mal pago, e com um emprego de merda. Antes outra coisa. Essa função, tão benemérita — e não estou a usar da ironia — desapareceu, sem deixar rasto (nem mesmo olfactivo), pese embora os animais não tenham deixado de defecar a calçada, com toda a pompa e circunstância que lhes apraz assim que a tripa grita por alívio.


Quero explorar o assunto. 
Será que, noutra encarnação, fui gatuna e andei reclusa por essas penitenciárias, pagando penitências, qual pagadora de promessas, mas em bom?
Será que sou uma irreverente irreprimível, que se alterca toda quando visiona um senhor autoridade?
Será que, ainda neste sentido, a autoridade me provoca medos encapsulados?
(O que é um medo encapsulado?)
(Não sei, inventei agora.)
Será que há em mim uma agente frustrada?
Quem sou eu?
O que faço aqui?
Para onde vou?


A cada um, as tormentas que cada um merece

(não está giro, este título?)
(parece assim uma coisa profunda.)
(mas não é.)

Não, é que hoje perdi a conta — porque, efectivamente, não as contei — à quantidade de coisas que voaram dos estendais / varandas / janelas abertas (?) destes nossos concidadãos, e que, pela manhã jaziam alegremente por essas estradas afora, a saber: um cobertor pequeno, um lençol de cama, um tabuleiro decorativo (cheio de florzinhas coladas) (olha, menos uma foleirada), uma camisola. Só não vi meias, para, ao menos, encontrar uma justificação / apaziguamento mental para o fenómeno, já assaz debatido por estas bandas, da meia desirmanada. Continua igualmente por explicar o fenómeno da caixa de tupperware cuja tampa lhe dá ares de Vila Diogo, e se some lá para onde o Diabo perdeu as botas (ou também para Nárnia, como tudo o que cai no chão de Rosinha, minha canoa).

08/03/2018

Ser mulher

também é isto: a pessoa é fiel detentora de uma viatura automóvel, que responde pelo nome de Rosinha, minha canoa, que, por sua vez, possui uma coisa debaixo do banco do passageiro da frente, à qual não consegue atribuir um nome. Trata-se de uma espécie de caixa de metal, não sendo, no entanto, uma caixa, uma vez que não tem tampa. Porém, tem uma abertura, numa das faces, por onde tudo entra e fica. E, quando digo, tudo, quero significar, exactamente, tudo. Qualquer miudeza que caia da mão direita do condutor, ou de qualquer mão do passageiro-pendura, enfia-se pela lateral dos bancos, e eclipsa-se para lá. A dita abertura da dita coisa é bastante pequena, pelo que não permite a entrada de uma mão, e, quanto a dedos, estamos conversados, pois só entram ali dois ou três, impossibilitando-os de alcançarem o fundilho, transformando qualquer busca numa sessão de contorcionismo inútil. Já para lá refundi acessórios do cabelo, a chave de abertura do telemóvel, as costas do telemóvel — que recuperei com um palito de sushi, um torcicolo, três cãibras e um esgotamento nervoso —, dinheiro (sim, comprovei-o hoje, mas não sei afiançar a quantia certa), e só o Criador saberá o que mais. 
Então, aqui há dias, enfarpelada com um sobretudo alapado ao torso e todo abotoado à frente, e, num largo gesto, não de abnegação, como é meu apanágio, mas sim de impaciência — porque outra das características peculiares de Rosinha é a de que o cinto do passageiro fica a bater tac-tac-tac quando ele sai de Rosinha —, na tentativa, em pleno andamento, de esticar o referido cinto, hei-de tê-lo feito com tal convicção que, assim me estiquei para a direita em diagonal, assim me saiu a jacto um dos botões do casaco, mas isto com uma violência tal, que dei graças ao cosmos de não me ter acertado numa das vistas. Ao invés, disparou lá para o canto, entre a porta e o banco, e nunca mais o vi. 
Estou, aliás, convicta de que, debaixo daquele banco, está Nárnia. É toda uma outra dimensão, um verdadeiro universo paralelo. As coisas, simplesmente, incorporam de alguma forma alternativa, saem do radar, desintegram-se. 
Mayday.
Estou farta de procurar a m. do botão, e ele não aparece. Já fiz pesquisas dentro e fora do carro, já usei a lanterna, já tirei fotografias ao interior (tenebrosas, irreais e indecifráveis), já subornei o rapaz para que tentasse por sua conta, já só me faltou enfiar-me, eu própria, lá dentro e transformar-me numa ameba proteus. Ainda agora, fiz a enésima tentativa e, após um momento Carochinha, em que encontrei vinte cêntimos (será o botão, transmutado?) e mais três arranhões nos dedos, o coiso não apareceu. Deve estar, feito parvo, a rir-se de mim, lá com o mundo de cenas, de entre objectos e, quem sabe, animais, que já foram ali parar antes dele. 
E não, não adianta equacionar a solução do botão sobresselente, que esse deve existir, mas eu também o extraviei algures, para uma qualquer caixa lá do lar, onde repousam todos os botões extra que a roupa nos fornece, e deve estar cheia deles, pertencentes a peças que eu já nem sei quando e por que é que comprei. Ou então, juntou-se ao outro, e vivem agora, felizes para sempre, em Nárnia, metamorfoseados em unicórnios. 
Chiça.

07/03/2018

Poetry in motion

Sabes, ou suspeitas, que o fim do mundo poderá estar levemente próximo, quando, em pleno metropolitano de Lisboa, aquela voz off da senhora, que outrora proclamava
Esteja especialmento atento à entrada e à saída do comboio
e, anos volvidos desta saga intraduzível, o corrigiu para especialmente atento,
mas que, actualmente, avisa, no seu melhor Inglês,
Pay special attention when entering or exiting the twain [Mark or Shania, that don´t impress me much?]
no actual momento (que eu tenha dado por isso desde a passada segunda-feira), declama.
Ora, e declama o quê?
O que mais, senão poesia, pois que a declamação só a ela lhe é intrínseca?
Temos o metro da cidade a jorrar Camões e Pessoa aos altifalantes. Aquele susto, quando imaginamos que nos vão anunciar mais uma avaria/ incidente com passageiro/ perturbações na linha (amarela, azul, às riscas).
Quando não ela, um ele.
Ainda hoje, nem de propósito, já dentro do tal comboio, veio A Voz dizer que tínhamos todos que sair uma estação antes, devido a avaria beca-beca-beca. Vá que não estava a chover, e deu para chegar mais ou menos inteira e totalmente seca ao meu destino.
Senhores passageiros, e lá veio o resto do recado. Ora, eu, que sou fóbica dos aviões, procurei logo o raio da máscara de oxigénio, o colete salva-vidas e o para-quedas. Nem sei como é que não me lembrei de me pôr em posição fetal. Afinal, era só para me dizer que tinha que dar à sola mais um quilómetro nesta vida, mal sabe ele que de salto alto. A ver se me bufou aos ouvidos Alma minha gentil, naquele momento. É o bufas.


05/03/2018

Óscaras 2018

Conforme já vem sendo tradição — umas vezes, sim, outras vezes, não — cá no buraco, vimos por este meio anunciar as oscarizadas do ano, ou seja, aquelas que são as mais merecedoras de nota derivados aos seus outfits. 
Na mesma senda, não se distinguem os fatos da passadeira dos outros, usados no after party. Isso calha-vos a vocês, perceberem quais foram usados aonde.
Quanto às mais bem vestidas, elas são exactamente aquelas que não constam na lista abaixo. Para essa tarefa, estão cá as bloggers a sério. Eu sou apenas a genuína blogger.

Miss Lucy in The Sky With Diamonds


Miss Qual é o Mal? Ah, Tudo


Miss Ainda Bem que Tenho Bolsos para Guardar Cenas


Miss Esqueci-me dos Sapatos


Miss Porra Para os Sapatos


Miss Avozinha do Capuchinho


Miss Cardeal Patriarca, Hallelujah


Miss Caderno Para Colorir


Miss Super-Heroína (essa mesmo)


Miss O Tecido Estava Num Saldo Imperdível


Miss A Mim Deram-me Uma Tesourada. Ou duas


Miss Mandei Aplicar Bottox Também no Vestido

Miss Nota de Cor

Miss Esfarraparam-me Toda