30/04/2017

É preciso tão pouco para me fazer feliz # 5

Foram perto de duas horas a dançar.
Fiquei feliz por ter chegado antes da hora e ter anunciado ao balcão da entrada "Já chegaram as bailarinas".
Fiquei feliz por ter visto pela primeira vez a t-shirt alusiva e ter constatado que era azul.
Fiquei feliz por ter levado a saia verde-alface, que fazia matchi com o desenho da t-shirt, embora tenha ficado toda em desmatchi (legging pretas, ténis cinzento e rosa...). 
Fiquei feliz porque fui a primeira pessoa a ser chamada e fiz uma entrada triunfal na sala, ovacionada pelos cinco professores como se fosse uma artista consagrada. (Adoro ambientes de festa.)
Fiquei feliz porque quem iniciou a aula foi o PT brasileiro, que foi logo para as latino-americanas (of course, mermão!), e foi a melhor coisa que podia ter acontecido em termos de alinhamento, com toda a gente ainda com as forças e a atenção em alta.
Fiquei feliz porque o coordenador da dança saiu do palco e veio ao pé de mim para me mandar subir para lá. (Mas eu não fui, porque vedeta que é vedeta tem seu cachet, e ele ou é elevado, ou esquece.) 
Fiquei feliz porque aguentei a maratona e nunca me encostei à parede para respirar/beber água/descansar/gemer.
Até fiquei feliz por ter ficado o resto do dia com umas dores nas pernas que pensei que hoje nem da cama saía, quanto mais fazer outra aula.
Fiquei feliz porque hoje voltei lá. (Os cavalos não se abatem.)

29/04/2017

Suar a camisola



Dia Mundial

da Dança.
Cada um comemora os seus.
Hoje é a minha vez.

Cá vos apresento Meta Nagode, que deve ser a melhor dançarina de Zumba (que eu conheça), e que não precisa de ser magra e curvuda para fazer isto com o corpo.

 

28/04/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranha é a tua relação com o teu gato?

Veio para casa com cinco semanas, cresceu e passou a ter cios, como qualquer gata adulta.
Já não se aguentavam os miares, os gritos, os roçanços num candeeiro que caía constantemente (e era sempre aquele, que até tem outro igual, mas era aquele e só aquele), os encarranchamentos, e ultimamente, uma ou outra marcações de território. Além da agressividade, que talvez até fosse piorar com o passar do tempo, além dos desassossegos a aumentar de frequência: os cios, que vieram tão tarde (a dias de fazer um ano), passaram a uma cadência de semana sim, semana não.
Irremediavelmente, dona Pequena Molly foi a esterilizar. 
Foi estranho enquanto durou a ausência dela em casa: abrir a porta e não me sair a jacto o bicho, sentar-me ao computador e não a ter a morder-me a mão esquerda (a do rato), o próprio rato, a tentar apanhar o cursor com a pata, a deitar-se em cima do teclado. Foi estranho poder abrir o roupeiro, uma gaveta, a minha mala, sem que ela surgisse do ar e se enfiasse lá dentro. Foi estranho não tê-la a atormentar-me os passos, a esconder-se para me apanhar na curva, a pregar-me sustos por tudo, a não me deixar estar sem ser em permanente estado de alerta. Podia ter sido um dia de alívio, mas não foi.
Depois fui buscá-la.
Fui encontrá-la com um vestido cor-de-laranja, baralhada e furiosa, e, por baixo, uma fralda. Pedi à veterinária que lha tirasse (péssima experiência quando foi da Mel), e ela entendeu tirar-lhe também o vestido, por lhe estar largo (muito fit, a minha gata). Teve que ser amarrada com uma toalha, foi necessária a força de duas pessoas. Mesmo meio anestesiada, a minha fera não se deu por vencida. Mas os gritos, que passaram largamente a definição de rosnados, não me saem da cabeça até agora. 
Veio para casa com um funil, e agora tenho-a aqui, prostrada e infeliz. Parece um objecto. 
E estou cheia de pena dela, e desejando que volte a trepar à minha mesa e que venha embirrar comigo outra vez. Já não sei viver sem ser em permanente estado de alerta.
No fundo, desejo que a operação não lhe modifique muito o feitio. 


Quando te chamam "uma personagem" e tu ouves um elogio com música de amor

Eu sou aquela pessoa que pretende ir até Belém, partindo, digamos, do centro da cidade, e faz uma passagem pelo Cristo Rei, por exemplo. 
Não sei que diabos tenho eu com a mania de atravessar uma ponte cada vez que me perco. Já uma vez fui parar a Alcochete quando apenas pretendia alcançar essa bela localidade que dá pelo nome de Prior Velho. 
(Isto, antes de conduzir, também não era melhor. Recordo com saudade e mágoa uma vez que fui parar a Benfica para uma entrevista de emprego, porque li qualquer coisa Calhariz.)
(Já nem sei que emprego era.)
(Nunca cheguei a saber, aliás.)
Enfim.
Na minha inesgotável e descendente carreira de UBERMomSCUT, ofereci-me compulsivamente para ir a Belém buscar um dos meus amores de perdição, cansada que estava ela de onze horas (leram bem, onze) de trabalho (mas calma, ó sindicatos, é trabalho esporádico), que lhe exigiu uns saltos altos aos quais aquele pezinho mais belo e mais bom (que fui eu que fiz) não está habituado. 
Meti-me pela avenida de Ceuta afora, cujo máximo de velocidade permitida parece uma anedota, mas vá que não me ri. Limitei-me a ir ali, em velocidade de cruzeiro avariado, a ver a bela paisagem que constitui o Casal Ventoso. Em chegando ao semáforo antes de seguir em frente, normalmente, tem que se parar o carro, porque parece que está sempre vermelho. E pára-me a boneca. Mas que palhaçada é aquela da falta de orientações que expliquem detalhadamente que quem vai em frente tem que se meter por aquele lado e quem vai para a ponte tem que se meter pelo outro? 
Suponhamos que me mantive à direita, feita bem comportada do trânsito, e isso pode ter valido uma volta de ida e volta pela Ponte 25 de Abril. (Vá que tinha combustível. Dízel, como dizem os taxistas.) Andava com saudades do mar, vi o rio. Cada um tem o que merece.
Dez minutos mais tarde, estava de regresso a Alcântara, mais uns quantos e atingi Belém. Fui dar com ela fermosa e descalça, com aqueles olhos lindos que se fazem numa linha quando ri (também fui eu que fiz), e ouvi aquilo que me pareceu um elogio:
- Ó mãe, tu és uma personagem. 
O tanto que nos rimos juntas valeu pelo engano, pelo combustível, pelo tempo perdido, que foi tempo ganho — amorosamente. 

27/04/2017

Quantas proibições vês?

Imagem recolhida no dia 25 de Abril
São demasiadas, concordo.

Quando fazes aos outros o que não gostas que te façam a ti

Coincidimos na aula de dança, coincidimos depois no balneário, coincidimos finalmente na saída do ginásio. Como uma sombra, assim mesmo, muito maior do que eu, ela esteve sempre quatro passos atrás de mim, coincidências que acontecem, como numa coreografia bem ensaiada. Tínhamos recebido a novidade de uma aula especial, extra-plano, com o triplo da duração das costumeiras, e ambas queríamos fazer a inscrição para o evento. Ela, enorme, possante, chegou ao balcão os tais quatro passos depois de mim, pelo que fui atendida em primeiro lugar. Disse ao que ia, que queria inscrever-me na aula especial. Ela encostou-se no outro extremo do balcão, à espera que chegasse a sua vez, atenta, porém impaciente. Enquanto era atendida, vi num relance que toda a linguagem corporal dela denunciava pouco tempo/paciência/vontade de esperar. Pareceu-me cansada e atribuí a cara fechada a isso mesmo.
A funcionária perguntou-me se queria a t-shirt alusiva ao dia e eu ai que sim. Perguntou-me de que tamanho, e eu "XS, então não se vê logo?", mas ela não percebeu a ironia e disse-me que não tinham XS, com as sobrancelhas elevadas ao nível da raiz do cabelo.
Nesse momento, ela começou a borbulhar, aquele ponto da fervura que não tarda à ebulição. Fitava-me fixamente, contrariada e suspirante. Imagino que terá rolado mentalmente os olhos várias vezes.
- Então o S, pronto. Vai-me ficar largo, mas depois mando apertar à costureira.
(Isto era uma piada.)
Quase a ouvia bufar, a três metros de distância, enquanto me lançava olhares de enfado e pressa. A outra escrevia no computador sei lá o quê, que também não atava nem desatava com a inscrição nem com a t-shirt. 
- Tem aí alguma para eu ver o tamanho? — Quis eu acelerar o processo, abreviando a agonia da minha companheira de aula. E não esperei a resposta, fui para o expositor das t-shirts, para confirmar.
- Pode ser o S, sim.
Os olhos dela em alvo, ou melhor, eu em alvo, os olhos dela em mira, chispando. 
Finalmente, explodiu, e avisou:
- Vou-me embora, venho cá amanhã. — Na voz a raiva, no andar a fúria.
Não se costuma dizer que "Nas costas dos outros vejo as minhas"? Pois, foi exactamente o que me aconteceu. Pude ver-me ali, em tantas circunstâncias em que simplesmente desisto, porque está uma chata a fazer o Mundo perder tempo.
Não me posso esquecer de que vamos dançar juntas. (E de que ela é muito maior do que eu, já disse?)

26/04/2017

"ó amor"

[Agora tudo a achar que LB, aquele ícone, vem para aqui a estas desoras fazer uma declaração pública de amor, e toca a clicar no post. Oh, wait, isto vai aparecer no feed.]

Este meu blog faz-me lembrar o senhor da papelaria ao pé da minha casa, que é um senhor que já morreu há, pelo menos, vinte e quatro anos, tantos quantos eu levo de moradora aqui nesta minha zona. Toda a gente já percebeu que o homem está morto, menos a mulher dele, pois continua a tratá-lo por "ó amor". Também deve haver alturas em que eu trato esta coisa por "ó amor".
A ver se não me engano e não trato o homem por "senhor blog", um destes dias. 


25/04/2017

Errar é desumano

Isto vem um bocado a propósito do post de ontem.
Perco a conta ao número de erros, enganos, lapsos, gralhas e artoadas no Português que vejo e ouço todos os dias. E é muito raro corrigir ou chamar a atenção, sobretudo se estiver em público. Reservo-me aqui para o blog, para a cobardia do anonimato que é um nick.
E logo eu, que tenho a PDM com a minha língua tão amada (não me refiro ao órgão), e que também erro? Incrível, também me engano. Também escrevo e digo coisas que só me dão vontade de me açoitar. (Tenho intimidade comigo para isso, nem sequer preencherei os requisitos do crime de violência doméstica.) Ainda outro dia, neste post, escrevi dizimação maciça em vez de dizimação massiva. Mea culpa, sei perfeitamente que maciço é uma qualidade de alguns materiais (e não, não fui ver à nettinha, porque, errrr... sei.) Também não foi preciso que alguém me mandasse mail a avisar do erro, ou pusesse num comentário. Simplesmente, como veio, o erro foi. Horas depois, deu-me aquele vaipe — ahhhhh! —, e corrigi, em pleno semáforo vermelho.
Diz que errar é humano. É. Fico, assim, muito mais descansada.
Mas persistir no mesmo erro é que já não é. É qualquer coisa de irracional, no sentido em que não existe um processo de raciocínio entre um engano e outro. É quase, regressando placidamente ao meu exemplo, como na violência doméstica: à primeira és vítima, à segunda já és cúmplice. Quando cometo pela segunda vez o mesmo erro, posso ser apenas uma pobre vítima cúmplice da minha própria estupidez.
Assim como errar sistematicamente, também não é nada humano. Lembra os bois, incapazes de entrar no curral, incapazes de largar as traves, embora elas até os aleijem de cada vez que lhes marram. 
Vem tudo isto também a propósito de gente que se engana e pede uma explicação, que lhe é dada totalmente de graça, sem smileys assim :) ou assim :P, sem qualquer espécie de emoção nas palavras, já para não entrar "ruído" no recado, e ainda se amofina que os outros são todos uns arrogantes e que julgam que sabem tudo e que nunca erraram, e o genitalinho a sete. 
Gostava de saber como é que estas pessoas um dia sequer conseguiram lidar com professores, há muitos anos, quando andaram na escola (andaram?). Também lhes chamaram arrogantes de cada vez que lhes foi dada uma explicação — aí já não totalmente de graça — sobre onde é que estava o seu engano e qual a melhor forma de o sanar?
Deve ter sido. Assim, de facto, ninguém aprende coisa nenhuma.
Ámen, porra.


24/04/2017

Lapsus linguae

Entramos juntas na loja onde tudo cheira tão bem que devia ser obrigatório. Estamos animadas e felizes por estarmos juntas, é domingo, dia de mais uma partida que eu quero adiar por me partir sempre um pouco a mim, daquele tanto de mim. Queremos uma vela aromática que transforme o quarto dela, lá longe, num espaço que, não podendo ser bonito, ao menos que seja cheiroso. Começo a juntar cremes no cesto, o do corpo, o da cara, o específico dos olhos, e o nosso entusiasmo contagia-se à funcionária, que começa a oferecer-nos amostras de cremes de mãos, de cremes anti-rugas, de cremes, enfim. Espalho ainda um deles, disponível no tester, pelos braços acima. Ela está esquecida da vida e quer também pôr nos dela. Lembro-a de que tem alergia a perfumes, mas o ânimo não lhe esmorece e faz aos braços o mesmo que me viu fazer aos meus. Mostra as manchas de pele seca nas articulações à senhora, e eu explico: "Tem pele atópica". Recebo então a resposta pronta e rápida de quem já viu muito, mas não tudo-tudo:
- Isso não é só pele atópica. Isso é também equizema.
Mas eu estou feliz, perfumada e contente com a quantidade de amostras que levo no saco. E não me apetece explicar que equizema não existe, e que a expressão pele atópica, já por si, significa a existência de um eczema (eczema atópico).
Não é verdade, este último parágrafo: não foi por não me ter apetecido que não corrigi a senhora. Foi porque ela era um poço de simpatia e não merecia. Nunca o faria, efectivamente. Afectivamente.


Na blogosfera como na vida # 4

Sem palavras.

(No entanto, escrevi três rascunhos. Quatro, se contar com um de ontem. Cinco, com o de anteontem. E seis, se contar com um que está na cabeça, sobre cantis, o plural de cantil. Ainda vou conseguir transformar esta coisa num amontoado de posts que nunca viram a luz do dia. Só a escuridão. Que tétrico.)

23/04/2017

Não há flores no meu caminho

(Sei que já dei este título a um post, mas gosto dele e aceitemos de uma vez por todas sem mais discussões nem dramas que o blog é meu, portanto posso repetir-me e trepetir-me até me cansar, sematepecer.)

Não há flores no meu caminho, mas há ciclistas — isolados ou em grupo — que, oh surpresa!, passam e desejam "Bom dia!"; há, logo de seguida, uma senhora gorda que me apita para que saia da ciclovia e ela possa passar de carro; há aquele algodão amarelo não sei de que árvore caído; há formigões (que ganham asas nos dias de chuva, como os invejo), bichos da conta, marias-café, lagartixas, caracóis, borboletas, abelhas e zângãos, melros, pardais, arvelas, até me esqueço dos pombos, às vezes um bando de papagaios, mais raramente uma águia que há quem afiance que é um falcão; há gente que anda, gente que corre, gente que passeia o bebé, gente que pedala, gente que passeia de traje desportivo, aos pares, aos grupos, sozinhos — como eu, que preciso de mim e do meu ritmo de marcha que respeite a minha passada, de corrida que pouco mais é do que marcha rápida (só não abano as ancas daquela maneira, acho eu), absorta na minha música, nos meus pensamentos e no que os meus olhos captam. E, por acaso, hoje ia a pensar que, se um dia começar a (só) correr, terei sempre que o fazer sozinha, exactamente pela necessidade que tenho de dar tempo ao meu tempo, e para evitar cometer alguma violência sobre um/a pretenso/a companheiro/a de esforços e suores: estou certa que seria alguém com 66,66666...% de hipóteses de apanhar uma bordoada, caso corresse mais depressa do que eu, e também se corresse mais devagar. Portanto, deixem-me lá ir sossegada, que eu não faço mal a uma mosca e até desvio caminho só para não pisar as cascas dos caracolinhos, coitadinhos. E as formigas, e não sei quê. Juro.



22/04/2017

Désanchantée, Mr. Blogger

Perdi a possibilidade de ler blogs em chico-smart na versão para telemóvel. Apenas me restou a versão para web, o que, em aparelhómetro daquelas dimensões, significa a cegueira total, ou então o ter que aumentar o texto e andar a puxá-lo para a direita e para a esquerda, se o quiser ler. Se, em posts pequenos, vá lá que não vá, nos meus lençóis de cama de casal torna-se uma saga impraticável que leva a pessoa ao enfado e à desistência. E eu pecadora me confesso, também gosto de me ler a mim. (Ainda ontem, por exemplos, corrigi uma gralha num post publicado há horas, em pleno semáforo vermelho.)
Não sei o que se passou, se a iniciativa partiu do Blogger, ou se é chico que ameaça o adeus à vida e eu finjo não perceber. Mas não apreciei. Fica aqui o meu voto de protesto, não sei contra quem, mas sei contra o quê. 

´tá-se bonito...


21/04/2017

uma gota no oceano

Tocaram-me à porta, como quem me toca no coração. Do lado de lá da placa de madeira que nos separava, a voz de um de dois, macia e delicada, anunciava a UNICEF. Ficaram felizes por saber que haviam batido à porta errada, pois que atrás dela encontraram uma pessoa já Amiga da UNICEF — designação que me enche de orgulho e tomara que maior paz —, o que fez cair pelo pó da terra a necessidade de convencerem mais uma a contribuir (o verbo ajudar faz-me tremer as penas). Porque ainda é preciso bater porta a porta — e quantas permanecem encerradas? —, pedir e mostrar as caras de quem foi socorrido pela UNICEF (os voluntários são quase todos antigas vítimas de flagelos) para que quem não é necessitado do básico (água e comida, não me refiro sequer a electricidade e gás, tão pouco a combustível e uma cama fofa) perceba que metade da população mundial vive abaixo da linha (que irónico, chamar linha a uma fronteira tão trágica) da pobreza. E que essa linha é uma corda grossa que agrilhoa o pescoço, da qual nenhum de nós está livre, bastando apenas estarmos no epicentro errado de uma catástrofe natural ou de uma guerra, para que a aparência de tranquilidade em que vivemos — nós, do lado de da linha — possa alterar-se de um minuto para o outro.  
Ainda tenho na memória os negros olhos do jovem que, um dia, me bateu àquela mesma porta e se apresentou como voluntário da UNICEF. Vinha propor-me uma contribuição mensal mínima para que todos os dias uma criança pudesse ser vacinada. Também guardei no coração o brilho aquático daquelas duas doces azeitonas, ao ver-me assinar os papeis sem um pestanejar das minhas, quando confessou "Eu também fui uma criança dessas, e foi a UNICEF que me salvou". 
Agora, com toda a celeuma à volta do tema "Vacinação - sim ou não?", questiono-me se um destes dias não serei vista como uma contribuidora para a dizimação massiva da população do lado de . Estou há anos a vacinar uma criança por dia. Passaram de mil as crianças que contribuí para vacinar. Pergunto-me ainda que alternativa apresentariam as facções anti-vacinação se singrasse entre nós, povos evoluídos e assépticos, a cólera, a diarreia, a febre tifóide, a febre amarela, só para início de uma conversa que não deveria ter que existir. Quero acreditar que passaram de mil as vezes que fintámos a doença e a morte, juntos, as crianças, a UNICEF e eu. E é dessa paz que falo ali em cima: não o apaziguamento das consciências, o deixa cá dormir na minha cama fofa sem pensar que há pessoas deitadas em chão de terra com a barriga vazia de alimento e cheia de subnutrição, e sim porque o caminho para a Paz se percorre com passos pequenos, é certo, mas firmes e perseverantes.
E eu sou apenas uma gota no oceano, mas também faço parte dele.


20/04/2017

Na blogosfera como na vida # 3

Para quando o emoticon rolling eyes no Blogger? Faz muita falta, nem que seja para resposta sem texto, quando já não há mais nada a dizer, como naqueles romances.

(A partir de hoje, com LB: é copiarem o endereço da imagem e colarem onde vos apetecer. É melhor que nada.)
Para quando gente que se manca e percebe que nem sempre o calado se calou porque consente no arrazoado, mas porque lhe entrou um neurónio em coma e está a prestar-lhe primeiros socorros? E que ter a última palavra pode não significar que se proferiu a mais certa, e sim que a discussão morreu de morte fulminante, porque: 
1. Não era aquele o ponto;
2. Não era aquele o lugar;
3. 1 e 2 juntos;
4. A paciência de um dos interlocutores entrou em esgotamento nervoso/cerebral;
5. 1, 2 e 4 juntos.

19/04/2017

Eu tenho problemas com tudo # 22

A indecisão foi qualquer coisa inventada pelas mulheres, já a outra com a maçã, mordo-não-mordo, dou-lhe-a-morder-não-dou, transformo-isto-numa-metáfora-para-todo-o-sempre-não-transformo...?
Se não, vejamos: sou literalmente compelida a entrar numa lojeca de bairro, que vende umas roupas ao estilo jamé-Salomé (sim, hoje estou bíblica) e uns acessórios tipo bugigangas. E digo "compelida" porque a criatura que está de serviço se encontra à porta, encostada à ombreira, vê o meu interesse relativo por uma pequena bolsa que está na montra — da qual preciso desesperadamente para meter coisas muito pequenas e dar largas à compulsão que me afecta desde a mais tenra infância. (Em miúda juntava todo o meu dinheirinho para comprar porta-moedas, e depois ficava sem ter o que meter lá dentro. E sim, sou uma pessoa normal) —, e chama-me para ver o interior da loja. Vou também atraída por uma coisa branca, qual luz (eu bem digo), pensando que é uma saia branca e gira, mas afinal trata-se de um par de calções daqueles que usam as senhoras da lota. Não sei se por isso ou porque era chata, a mulher colou-se-me ao corpo daquela maneira do futebol e do basquete, que era eu a ir do expositor dos trapos para a montra e ela sempre na minha cola a um ponto em que ponderei mesmo abraçá-la, mas sem a beijar. Uma coisa de não conseguir mexer-me, como nas lojas do xnês.
Se já tenho grandes dificuldades em perceber a mentalidade de quem acha que as fancarias que tem à venda são roubáveis, ainda maiores entraves ao conhecimento me suscita o que ocorre na mona de uma figura que me veio buscar à rua, me obrigou a entrar na loja, quase me arrastando pelos cabelos, praticamente me ameaçando sob arma de fogo, e depois me sujeita àquela tortura que envolve intimidade física, só para que não lhe leve dali sem pagar o artigo de três euros e meio. Ora, vá-se catar, se eu quiser sujar as mãos meto-me na Longchamp* ou na Tous*.

* NMPPI, infelizmente.

18/04/2017

Jaguar

Comprou, em segunda mão, mas quem sabe em primeiro coração, um carro de marca cara, coisa para o encher e inchar de vaidade. Fez-se impante, soberbo, ufano daquilo. Assim percorre os passos naturais da chegada à meia-idade, necessitando de sinais exteriores de riqueza e status, para afirmar ao Mundo uma valia que, segundo aqueles cânones, deles deverá depender. 
Chega junto de meu Rosinha, minha canoa, coisa linda, coisa boa, ainda com dois mesinhos mal contados da vida, exclama Eh, pá, granda carro!, mal escuta quando lamento o risco que lhe fizeram de uma ponta à outra, e coloca os dois cotovelos na janela do passageiro, a cabeça dentro do carro. Sei que vai começar a feira de vaidades, ocorre-me que posso pregar-lhe um susto subindo um pouco o vidro, mas refreio a irreverência e dou-me ao sacrifício. Percebo que não aguenta nem mais um minuto sem falar na aquisição do seu orgulho, mas que tudo fará para disfarçar a pressa que tem em chegar ao assunto. Primeiro conta que foi não sei aonde, à neve, depois que veio de almoçar não sei aonde, ao peixe grelhado, e termina com:
- Já não cabemos todos no carro.
Tem três filhos, naturalmente que um carro comum fica lotado com cinco ocupantes. (O quarto filho é o filho do carro novo, eu que o diga.) Mas é-lhe fundamental à sobrevivência lembrar que o filho mais velho já tem uma namorada fixa, assim como ele foi namorado fixo durante doze longos anos da mulher com quem casou há vinte e seis, e essa longevidade, feita de antiguidade e resistência, lhe atribuirá, igualmente lá nos tais cânones, uma distinção em relação aos demais, uma espécie de voto de confiança de bonus pater familias.
- Tivemos que levar o Jaguar.
...

Já não cabemos todos no carro. Tivemos que levar o Jaguar
Isto, convenhamos, não existindo maiúsculas na linguagem falada, que imagem mental faz uma doce parola desavisada como eu?


17/04/2017

And that awkward moment # 24

em que recebes um sms da pessoa menos urbana (não quis chamar rural ao senhor, está bem?) que conheces, a dar-te conta do seu novo número de telemóvel — como se ele não constasse do remetente, mas acredite-se que ainda há quem desconheça certas e determinadas minudências tecnológicas (e eu até sou uma dessas personas, só que noutros sectores da high-tech) —, que inclusive te trata por menina e pelo teu petit nom, e, no fim, exactamente no fim da mensagem, assina... e coloca reticências a seguir ao próprio nome?
E tu, a quem aqueles três pontinhos dizem tanto por aparentemente nada dizerem, ris-te como uma tola.
(Que enigmático, Monsieur Marques...)



16/04/2017

Uma questão de ego


(Foi este o percurso que percorri e corri por duas vezes nos últimos quatro dias, perto do local para onde me desloquei a banhos de sol e mar. [Não costumo ir para lá, não volto para lá, não me procureis lá, não me achareis lá.] É uma longa recta de ciclovia, ladeada por um longo passeio de peões que, com sorte, não está pejado de carros estacionados.)
(Vá, vamos considerar que quem começa a andar não tem que, necessariamente, cair, mas é suposto dar primeiro passos de bebé, fazer pequenos percursos, dar umas pequenas corridas, e só depois ganhar calos nos pés, confiança, e deslargar-se a correr como se houvesse amanhã e nesse amanhã houvesse uma meta [a cumprir]). 

Por falar em metas, visando aquele objectivo de me melhorar a cada dia, ia eu pela estrada fora, bem sozinha — tal e qual o Capuchinho, mas sem a cesta —, encontrava-me sensivelmente a meio da recta, quando me apareceu, caído dos céus aos trambolhões, um cidadão espanhol que, surpreendentemente, só falava castelhano. Vinha montado numa bicicleta, qual cavalo alazão, e abordou-me com uma algarviada que me pareceu "Onde é que fica a farmácia?". Olho para a direita e vejo um quilómetro de recta. Olho para a esquerda e vejo um quilómetro de recta. Abro os braços em Cristo e elaboro mentalmente a resposta, no meu melhor espanhuelo: Siñor, por supuesto, la farmácia es equidistiante para la derecha e para la esquierda. Tanto le dá en Muente Guerdo ou en Vila Real de Santio Antiónio. Es mejor que pedales para lo lado que te apetieça, mas pergunto, à cautela, en claríssimo portunhol: A farmácia? E diz-me ele: No, pergunto se te llamas Marcia. Es muy parecida con una amiga mía, brasileña, llamada Marcia. 
(Caracoles. Então interrompe-se a walk-run a uma senhora para vir com esta conversa de [digam vocês], o estupor?)
Acho eu que não perdi a compostura, mas fui tão parva por não me ter lembrado de imitar o sotaque do Brasil: 
- Não, nem Márcia nem brasileira. E sua amiga, também não. 
E ala, com andar de antipática, que é assim um andar firme e certo que eu cá sei.
Ooooolé!


15/04/2017

Dou-Le o bloqueio mental

É loira, num tom um tudo-nada reforçado quimicamente, ou um tudo-tudo, mas o que importa isso, se é gira? De resto, como muitas loiras portuguesas, sofre de contraste denunciador no Verão, pois que bronzeia a pele uns tons acima do que tem no cabelo, lembrando o negativo de uma fotografia das que havia há muito, muito tempo, era eu uma criança, mas o que importa isso, se é gira? Já não é nova, ainda não é velha, é magra, seca, não é bela, mas o que importa isso, se é gira? E de uma simpatia quase contagiante, com um discurso que quase transmite confiança, fluente, esclarecido, quase esclarecedor. Usa e abusa da entoação de titi, a mááim (mesmo quando se refere à minha mãe, como se fossemos filhas da mesma), o pááii, os tzios, as tziáás, os ôçás. Uma pessoa embala-se naquilo e até acha piada, mas que diabo, o que é que passa pela cabeça destas pessoas, que montam um boneco tão frágil e que as fragiliza tanto? Mas lá segue, inebriada pela sua retórica imaginativa, que toda a vida viveu numa moradia destas (no luxo de Cascais), que os pais tinham uma assim, igualzinha, e juro que até ouço violinos a tocar. (Logo eu, que fico nervosa com violinos.) É gira, pode tudo, até mesmo ser a caricatura de si mesma.
Eu costumo dar-Le; 
Eu faço-Le; 
Eu vou-Le dizer uma coisa.
Não consigo ouvir mais nada de cada vez que ela assassina o H ao pronome. Bloqueio ali e fico Le-Le-Le-Le, ad infinitum. Hipnotiza-me. 
Gira, mas não tão gira que lhe possa perdoar um crime de lesa pátria.


Sumol lalanja



13/04/2017

Operação biquíni 2017 ad eternum

Hoje é aquele dia dos 365 em que uma mulher dava um braço pela sua invisibilidade: o primeiro dia de praia.
Não a rala o pêlo tresmalhado, a estria fluorescente, a celulite marota, o papo inoportuno, o derrame extemporâneo. Mas a cor com que se apresenta aos demais e também aos outros, é capaz de fazer deste dia tão azul o mais temido do ano. No entanto, o tom, sendo areia, embora não possibilite que uma pessoa se torne invisível, pelo menos permite a camuflagem, bastando, para tanto, que se estenda directamente no areal. Poupa-se um braço que, de caminho, também bronzeia.




12/04/2017

Eu tenho problemas com médicos # 24

Chego-lhe recomendada pela minha irmã. Sei, pelo apelido que tem, que, por sua vez, é irmã de um outro médico do meu coração, pediatra que foi dos meus filhos. Só isso já me merece simpatia. 
Faz-me esperar para lá do razoável, mas não me perturba a paz de estar numa sala de espera limpa, arejada e luminosa. Os outros doentes são pessoas de idade, tristes e queixosas. Não me atrevo a impacientar-me. 
Recebe-me, inexpressiva, estende-me a mão (os médicos dão-me beijinhos, as médicas apertam-me a mão. Faz sentido), sento-me e digo ao que vou. Pergunta-me quem a indicou, respondo que foi a minha irmã, digo-lhe quem é, mas não se lembra. Acho-a um pouco louca, sobretudo quando venho a saber que estiveram juntas nessa mesma manhã. (Eu gosto de loucos distraídos. Os outros, mais concentrados, enlouquecem-me.) Pede-me a história da minha vida cardíaca, e relato-lhe o rosário de amarguras que já vai em três gerações, por via paterna, tudo homens. Suspiro no fim, e digo: "Ainda bem que nasci mulher". Olha-me sem me ver, pergunta-me quantas vezes já fui operada e desfio outro rosário. Escreve, escreve, enche a ficha branca de texto corrido, distraída de mim, que observo o gabinete, distraída dela. Estão caixas de fichas de doentes dentro de um armário de portas de vidro, de A-D, de E-H, de I-L, e uma outra, em maiúsculas, MARIAS. Digo-lhe da coincidência de ser irmã do pediatra dos meus filhos, abre muito os olhos, mas, impassível, pergunta: "Então, conhece o meu irmão?". Fala tão baixo que eu julgo que se lembrou da minha irmã, e respondo: "Sim, do seu outro consultório". Ela deve achar-me louca, quando corrige, "Não, o meu irmão...". 
Saio com a certeza que vou parar à caixa das Marias, cheia de sorte por ter nascido mulher.


11/04/2017

Isto é como se, de repente [qual me oferecessem flores, qual quê!?], eu ficasse detentora de um super-poder

Tenho comigo uma fotografia do meu cunhado, talvez com oito anos de idade (ou nove, ou dez, o que é que isso interessa?), vestido com umas calças de xadrez e uma camisola de riscas largas, em que não só os padrões gritam my eyes, my eyes!, como também as cores berram umas com as outras. 
Tendo em conta que ele não tem nenhuma fotografia minha de kilt e de meias até aos joelhos — e que aquela vez em que mana e eu usámos saias azul-cinzento, cravejadas de barquinhos, com blusas de riscas, não conta, até porque ele não sabe, mas vocês sim —, sinto que tenho um novo poder, embora não saiba bem qual, sobre ele, de cada vez que me fizer ficar nervosa. 
(Qual chantagem, qual carapuça, lá vêm os juristas de serviço.)


Gosto cada vez mais da Rua Cor-de-rosa

Isso faz de mim uma blogger faishionerer? 
Faz.

Fazei zoom nos gatos e no beija-flor. São belíssimos

(Muito à vista a falta de gás para elaborar textos?)

09/04/2017

A hierarquia da ciclovia

Agora que frequento uma ínfima parcela do que é uma ciclovia, apercebo-me de realidades. Aquele tapete vermelho foi feito a pensar nos ciclistas.
Pronto, hoje acordei assim, reencarnada em LP. La-Pa-lis-se.
Acontece que aos ciclistas assiste uma soberania sobre a cena, que dá o que pensar a pessoas como eu, que se limitam a calcorreá-la como se daquela de Los Angeles se tratasse, com a única diferença de que não vamos burlescamente despidas nem perigosamente calçadas.
Já me havia dado conta de que os ciclistas mal toleram os corredores que, convenhamos, dentro das cidades simplesmente não têm onde praticar a sua actividade se não for ali. Ou alguém acha possível que se possa correr convenientemente na calçada portuguesa, que é um desafio para os saltos altos tornozelos? Com pessoas com vários ritmos, idades e credos, carros estacionados, empata-[preencham vocês] e lesmas a passar a todo o momento? 
Ele não são todos, mas há muito quem se escarranche na bicla, se coloque na ciclovia, e se adone dela como se, de facto, ela fosse um exclusivo qualquer, lavrado no cartório da sua imaginação. E é, não deixando de ser, sim senhores. De si e de todos os companheiros de pista, desde que alçados sobre duas rodas que não tenham motor acoplado. No entanto, a atitude de enfado, a impaciência e até repulsa que alguns manifestam por quem mais ocupa um cantinho da pista (parecendo que enfrentam multidões!), fazendo alguns questão de praticar o quase-cicloatropelamento (crime que inventaram e que há-de chegar ao Código Penal, so help us God), é que é de assinalar e louvar. 
Com isto, nasceu também, de parto natural, a soberania dos corredores sobre os caminhantes. Ora bem, mas foram eles que me incentivaram a mim, e a tantos como eu, a começar a correr dar uns sprints umas corridinhas! Vejo passar um, e, se é dos tais que me ultrapassa já danado (porque posso estar a obrigá-lo a contornar a minha imensa figura e a perder um cagagésimo de segundo lá na m. da aplicação dele), já só me apetece correr atrás, alcançá-lo, ultrapassá-lo e travar de repente, catrapum.  
Pronto, tudo isto, no fundo, se resume a um boneco.


08/04/2017

A pessoa pratica agora walk-walk-run-walk-walk-run-walk-walk......................................

Não inventei nada, imprimi-lhe foi outra cadência. O run-walk-run existe há muito, a pessoa só o (des)dinamizou. 

Arranquei-me da cama e depois de casa, pouco passava das dez da madrugada, já toda dopada de cafeína para a veia, ala. 
Hoje ia determinada a correr uns metros, para além da caminhada, e fi-lo. Assim: ora agora corre duzentos metros e não te deixes estafar (senão paras e comes uma sande de coiratos impregnada em chantili ou vais esbornegar-te num Mc desta vida), ora agora andas quinhentos até teres outra vez essa fúria de fugir do sofá e da trash tv que te faz tão bem à alma e tão mal aos glúteos. E assim sucessivamente. 
A música é fundamental nestes percursos. Como nada na minha vida pode ser mainstream, possuo um aparelho de som que já terá uma cópia no Museu de Arte Antiga, denominado mp3, e uns auriculares de que só funciona o esquerdo, sofrendo o direito de intermitências e ou gaguez. Por acaso, devia isolar-me melhor do mundo, para não ouvir nem ver (devia ir vendada) certas e determinadas coisas que só atrapalham à imensa concentração de que uma atleta carece: um maluquinho à janela de um primeiro andar, a mandar-me beijinhos com a mão, e depois, uns metros adiante, um jardineiro de muito boas cores àquela hora (do sol, que mais?), interrompendo o meu raciocínio com um enfático bom dia!. Ora, eu temo jardineiros. Diz que quem matou foi o mordomo, mas eu aposto sempre no jardineiro. 
Reparai, então, na minha ingénua, porém bem intencionada playlist, completamente em modo aleatório: 
- Dei-me início ao som de Locomotion. (Sim, Locomotion, no original, Little Eva.) Que melhor melodia para iniciar uma boa marcha do que Locomotion? 
- Já em pleno esforço de corrida, Suburbia. (Sim, Suburbia, Pet Shop Boys.) Que melhor melodia para incentivar a continuação da coisa, Let's take a ride and run with the dogs tonight
- E, numa das partes de caminhada, Walk in the park (Sim, Walk in the park, Beach House)? 
- Então e marchar para casa ao som de Come on Eileen (sim, Come on Eileen, Dexys Midnight Runners, nem de propósito)?
(Sou tão 80's.)
(Também tenho para lá umas quantas porcarias que adoro ouvir, e gostos não se discutem. Juro que quando passou esta tive ganas de parar e kudurar um nico a marcha-corridinha, oi-oi-oi.)
Em resumo, correu bem — literalmente. 

07/04/2017

Quatro anos

Só agora me lembrei que este coiso e eu fazemos quatro anos de existência. Vamos lá a ver se aguentamos, no mínimo, até às bodas de madeira.



Objectivo biquíni - Dias 3, 4 e 5 et ad infinitum et magis ultra

Pus-me nos cascos, meti-me nas tamanquinhas e desatei a andar, como naqueles milagres. (Foi o meu milagre de Natal, só que atrasado. Ou antecipado, huquéres?)
Não gosto de correr — não sei se já disse mais de mil e seiscentas vezes —, e gosto de comer. Entendo que preciso de me mexer, o ginásio preenche-me cada vez menos (e chateia-me ir lá todos os dias), os dias estão belíssimos, toca mas é para a rua, dia sim, dia não. Nos nãos, lá vou malhar como um Comando. O meu plano de treino é para brutos, mas eu também nunca disse que sou meiga.

É isto tudo x 2, fora a elíptica e o remo.
É a doer, e para doer.
Dói-me tudo.

Também não gosto de andar. Levar uma hora e meia para fazer cinco quilómetros é um desespero para uma impaciente como eu. Estou a ponderar alternar corrida com marcha. Não gosto de nenhuma, mas, desta forma, avio as duas mais depressa e não se fala mais nisso. 

Estou a beber o dobro ou o triplo da água que bebia antes, o que, para mim, significa entrar em pré-afogamento e por pouco não chamar o nadador-salvador (num registo spé-tia, Salvadoooor!). Por outro lado, tripliquei também, não o saldo da minha tia em Marrocos, mas a quantidade de vezes que vou à casa-de-banho por dia. Estou sempre aflitinha. Apertadinha, sabem? Isto assim não pode continuar — literalmente: ontem só parei a caminhada porque já não aguentava mais do esfíncter, embora as pernas ainda dessem para mais uns largos quilómetros metros. Tenho que passar a ir de fralda, como o Donald (aquele pato, não esse que tem a fralda na tola), ou então algalio-me. Não me admiro que os maratonistas façam pernas abaixo, porque eu, por um décimo do percurso e a andar, apetece-me fazer o mesmo. 
(Tenho um Caminho para fazer este ano, se estou neste preparo ao fim de cinco quilómetros, serão dezasseis idas à casa-de-banho/árvores/atrás de uma moita/tacho/tupperware/copo de bebida vazio?)
Bom, não interessa. 
Interessa que eu ainda não:
1. Subi à balança — sei perfeitamente que Roma e Pavia não se fizeram num dia, quanto mais um monumento;
2. Comi uma única amêndoa — afasta de mim esse cálice, pai, senão eu é para a desgraça e emborracho-me;
3. Desisti quando todas as minhas vozes me gritam Não aguento mais! — há um sargento dentro de mim [not literally, hey] que me grita ainda mais alto Maricas! 
4. Parei quando vem aquela tontura do esforço vais-morrer!
5. Morri — acho.


06/04/2017

Apetece-me comemorar um dia nacional com o respeitoso e devido atraso

E, como não sei fazê-la, desta vez divido o texto para parecer que é o que não é.


Estava ali uma rosa de pano,  
castanha e linda, a rosa tombada.
Era falsa, por não ser verdadeira,
e ali jazia à má sorte no passeio.
Nem as pedras da calçada a choravam,
nem o pó da terra nela se ficava,
nem a sujidade a abandonava.
Peguei-lhe com cautelas,
sem espinhos, ela,
sem dor,
não a cheirei por sabê-la inodora,
não a quis para mim, por senti-la ilusória,
não acreditei nela, por vê-la castanha,
pois castanha não é rosa nenhuma sendo genuína.
Mas qui-la minha, sem a querer absolutamente,
dei-lhe casa, fiz-lhe lar.
E, amorosamente, finquei-a num vaso de pedras sem calçada,
descalçadas, descalças.
Falsas.


05/04/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 14

Ou tu?
Onze da noite, tocam-me à campainha e vou atender. Do outro lado da porta, visiono, através do óculo, a vizinha de cima, aflitinha. 
(Por cima mora um casal sem filhos, com idades próximas da minha. Ele é um desportista ferrenho, joga ténis e tem muita vaidade na sua aparência. [No entanto, enche-me a varanda de beatas.] Quando vem de jogar, raquete na mão e calções curtos e vincados, todo ele é salamaleques e meneios, primorosamente educado, dando passagem, partilhando o elevador, desejando boa tarde com precisão cirúrgica. Sempre que o vejo passar naquele preparo, atraso o passo e, subitamente, interesso-me pelas árvores, pelos cães, por qualquer coisa no tablier. Ela é uma figura apagada, há-de ter sido bonita, de olhos claros, magra e grisalha, descuidada e triste. Uma vez por outra, ouvem-se gritos lá em cima. Só ele grita. Também se ouvem saltos altos a bater no soalho, mas ela não usa saltos. Há qualquer coisa de Norman Bates dentro da minha cabeça — ou em cima? — que me inquieta um niquinho.)
Abro a porta e diz-me ela que tem um gatinho à porta de casa, que não sabe de quem é, que já lhe deu de comer, mas ele não se cala e andam, ela e o marido, desesperados a bater a todas as portas do prédio (que são nada menos do que trinta e sete), a ver se encontram o dono. 
Eu só olho para trás, chamo Molly!, a tonta não me aparece e lá vou escadas acima, O gato é uma gata. É branca?; Sim, branquinha; Mas tem malhas castanhas?; Sim, manchinhas. [Tudo em inhos, pequenininhos, tanto sufixinho para uma gorda daquelas que parece uma leoa atravessada de pantera branca. Vá, eu não disse isto.]
E lá vou dar com a fugitiva, que me foge casa adentro do Norman vizinho, e eu atrás dela, Bates Motel adentro. Aparentemente, ele já tem montada uma comissão de inquérito com staff e comités de investigação: está ao telemóvel, ouço-o dizer Ah, bom, parece que encontrámos o dono [mas esta gente tem algum problema com os géneros?] do gato [aloha!], vou desligar para poder falar com o dono [hey, man, subsiste alguma dúvida para além da minha saia?], já te ligo. 
Pego na fugitiva, entre o envergonhada quando ouço Ela está aqui há, pelo menos, meia-hora (e faço mentalmente as contas para hora e meia), o aliviada por ela estar bem, o ciumenta por ela estar tão bem e o frustrada porque ela é uma peste e bem podia ir viver para outro lar, que isto de ter arranhões novos todas as semanas (e já foi todos os dias) também enfraquece o sistema imunitário (e o amor). Era a brincar, esta última. Nós odiamo-nos, mas eu encho-a de beijos de cada vez que ela não está a ferrar-me o dente. 


04/04/2017

Sempre Mulher, eu e elas


Cá estou para, num registo muito blogger, relatar a minha participação na Corrida Sempre Mulher:
Aos primeiros cinquenta metros da caminhada, já me arrependia de ter envergado uma legging preta, pois que o sol me sovava violentamente o pernil, e isso era coisa para aleijar. Mas, ao som de "Because I'm happy", que estereofonava no ponto de partida, lá segui, levemente frustrada pelo facto de não haver um tiro de partida que troasse pelos céus dos Restauradores, profundamente conformada por ele também não ter sido disparado para as atletas da corrida. Afinal, tratava-se de uma corrida amigável, como aqueles jogos de futebol, cá agora tiros.
Ainda assim, foi em modo fortemente atleta que dei início à caminhada da minha vida. Provavelmente, já terei feito outras maiores, mas não (ainda) com o significado desta. O cancro da mama já me levou gente, alguém insubstituível para os meus filhos, e eu não quero que me leve mais ninguém, nem a ninguém mais.
O ambiente da caminhada é de festa e alegria, transversal a mulheres de todas as idades, pelo menos até aos setenta e muitos, desde os poucos meses (muitos carrinhos de bebé), algumas ainda com o cabelinho curto, algumas com o lencinho, algumas com a peruca, mas todas com a mesma força de que só assim, juntas, venceremos o monstro. Muitos homens e rapazes, uma ou outra cadeira de rodas, cães também, mas todos com a t-shirt da união, muito ruído de vozes e gargalhadas, nem um único palavrão ao longo de todo o percurso, nem a palavra tenebrosa que nos moveu a todos para ali, nem um ai. E éramos mesmo dez mil. A avenida ficou pintada de cor-de-rosa até perder de vista, que se perde ao longo de um quilómetro.
Enquanto se sobe a Avenida da Liberdade, acompanha-se bem o ritmo da multidão, mas uma vez na Fontes Pereira de Melo, e depois na Avenida da República, já só apetece acelerar. Se, por um lado, não me atrevo a pensar em participar na corrida — pelo menos sem antes treinar bem —, por outro, a caminhada é uma pasmaceira a partir de meio. Vou sugerir à organização uma competição intermédia para preguiçosas e impacientes como eu: a da corridinha.
Mesmo assim, atingi o tempo record (porque nunca tinha participado em nenhuma) de uma hora, dezanove minutos e cinquenta e seis segundos.


Na verdade, foi um nico menos, mas tive que parar, ligar chico-smart, ligar a câmara, disparar, enfim, nesse procedimento todo posso ter perdido cerca de nove segundos.
Dei por bem empregue aquele tempo, resta-me agora competir com o meu próprio resultado, numa próxima, e atingir os meus mínimos olímpicos. Além disso, vim de lá com uma cor linda.
(Nota mental: equacionar uma caminhada destas aos domingos de manhã, em substituição de uma ida à praia. Chumbo por chumbo, bronzeia na mesma...)

03/04/2017

And that awkward moment # 23

em que entras no supermercado, é-te distribuído um saco para ajuda à Cruz Vermelha, perguntas à senhora, de uma simpatia que só dá vontade de lhe dar logo beijinhos, o que é que está a fazer mais falta, ela te responde "Coisas para bebés", e parece que te ligaram um chip bebés-bebés-bebés, lá marchas para o corredor dos bebés, enches o saco — fragilíssimo e pequeníssimo, por sinal — até romper (true, true), [tanta coisa para se armar em boazinha e vir para aqui dizer que dá aos pobres e aos desvalidos], fazes as tuas compras, para teu lar, nas quais se inclui uma palete de doze rolos de papel higiénico, passas tudo na caixa expresso-rápida-saiam-me-da-frente, sais feliz, porém carregada como uma mula, numa mão a malita, a palete de papel higiénico e o saco para a Cruz Vermelha, na outra o sacão com as tuas compras, diriges-te hesitante, derivados aos pesos e volumes, à senhora, e ela estende-te os braços para te ajudar, dizes que É o que está no braço esquerdo [Reconhece que foste tu quem a induziu em erro!], ela recolhe o saco da dádiva, coloca-o no carrinho onde estão alguns mais, e depois pousa as mãos na tua palete?
Este é, precisamente, o momento em que tens que dizer:
- O papel higiénico é lá para casa, que estamos a precisar muito.
E fazes uma cara a condizer.
...
...
Tipo essa.


01/04/2017

Mentira do dia

Abril, águas mil.

Ó-ó.

(Este post levou-me cerca de 5 segundos a escrever. Depois queixo-me.)