22/07/2017

And that awkward moment # 34

em que estás a fazer uma compra na Ticketline, escolhes os lugares na piltra do costume preenches aquela balhanada toda à mão — nome, morada, telefone, medidas de busto, cintura e ancas, alcunha do vizinho — clicas "comprar" e o coiso ainda te quer impingir mais um seguro para os bilhetes, mas estás segura de que vais mesmo ao espectáculo e negas-te a mais uma despesa inútil, para isso não ias para a piltra escolhes o meio de pagamento entre três disponíveis — Paypal, cartão de crédito e MEO Wallet —, e aquilo borrega. Ligas para o apoio ao cliente, para finalizares a tua compra, e atende-te uma gravação, que te manda ligar para o 1820. Lá chegada, a menina que atende também deve estar cheia de calor, que chuta logo para o colega, e surge então ele, francamente contrariado. [E aquela sensação de ter interrompido alguma coisa?] Começas por lhe perguntar se a fila A é mais perto do palco ou da parede, e ele responde assim: "O alfabeto começa por A, portanto A é o princípio." Vá que isto te azeda um nico. No entanto, e apenas porque te encontras num momento zen e não acreditas no quanto a Humanidade consegue ser mal educada, lá lhe contas ao que vais, e ele abre a página da Ticketline. Confirma o que tu já sabes, que os lugares escolhidos estão indisponíveis, embora não pagos, e pede-te os dados todos, para preencher ele aquilo que tu já preencheste. Quando chega ao fim, o sistema encrava, e pede-te que repitas tudo. Repetes, com a paciência a esvair-se-te pelos poros a uma velocidade catastrófica, nomeadamente porque ele não entende a diferença entre um B e um D (e tens que dizer a bela expressão bê-de-bola N vezes). Ei-lo chegado à finalização da compra, quando te pede o mail (user) do Paypal. Perguntas então se, a seguir, te vai pedir a password, e ele diz que sim.
...
...
[Respiras fundo.]
...
...
- Mas é óbvio que eu não lhe vou dar a password da minha conta Paypal.
- Assim, não consigo fazer o pagamento pela senhora.
- Vou tentar explicar-lhe que o Paypal é um meio de pagamento online, e, por isso mesmo, naturalmente que não lhe forneço o acesso a esse meio.
- A senhora é que sabe se confia ou não.
- É claro que não confio. Diga-me só: para que é que serve o serviço?
- O serviço serve para apoiar o cliente, mas, se o cliente não colabora, não é possível dar esse apoio. 


Nem que me faltem as pernas

Ando numa fase em que não me apetece ginásio, treinos, esforços físicos, cansaço, suor e essas cenas. Pode ser do calor, pode ser porque o que havia a fazer já está feito (ou não) — este é o meu corpo de Verão, e será o de Outono e por aí adiante —, ou até pode ser preguiça, velhice, cabeça furada, ou sei lá que mais razões há para a balda ao exercício.
Há dois meses a esta parte que descobri a Zumba. As aulas de dança com a Sofia acabaram por falta de quórum, muitas vezes éramos oito, seis, aconteceu uma em que éramos só duas. Tive pena, mas não morri, tão pouco parei de dançar. Se há actividade física que me preenche é a dança. Nem nadar, nem andar/correr, nem andar de bicicleta, nem as modalidades todas que já experimentei (body pump, bunda, localizada, stretch, step, TRX, Pilates), nada vezes nada suplanta a dança na minha vida. 
A minha prestação, nas primeiras aulas com o André, foi uma piada daquelas tão sem graça que só dão vontade de chorar. Entrei para uma turma que já conhecia as coreografias quase tão bem como ele, mas nunca pensei em desistir. Já sei como é que funcionam estas coisas, que tudo leva o seu tempo, e a memória, a coordenação e o equilíbrio treinam-se, e treinam-se com muita teimosia e com muita alegria. 
Ainda estou péssima, a precisar de repetir vezes sem conta os esquemas todos, mas já não tão péssima como no início, em que até no aquecimento me enganava. 
E tive a grande sorte de me esbarrar de frente com o Grande Mestre da Zumba, que, de alguma maneira, se não lembra, por terem estilos totalmente diferentes, pelo menos compensa bem a falta que as aulas do David me fizeram durante anos.
(Também está a ser divertido passar os dias a cantar mentalmente Me enamoré, Despacito, 24 K Magic... pronto, eu sei. Chiu.)

21/07/2017

É preciso tão pouco para me fazer feliz # 8

Descobri um programa online, daqueles de artes gráficas e bonecada, que me tem feito as delícias, e é bem capaz de ser o que me vai proporcionar o próximo header, que será de todos os que já tive (exceptuando o primeiro) o mais porreta. 
Como sou assim e não guardo nada só para mim, hoje decidi divulgá-lo: Lunapic.
Este grande querido tem uma função que substitui em tudo o chato do Photoshop, com aquela cena das camadas sobre (e, por conseguinte, sob) camadas, que, quando uma pessoa humana está prestes a fazer um brilharete, é o momento em que ele resolve encravar e esmerdar o trabalho todo até ali executado: o fundo transparente. 
Imaginem: têm uma fotografia — idealmente de um ser vivo ou mesmo de um objecto — da qual não gostam do fundo, ou que querem ver recortada, para colocar noutro fundo. (Sim, é possível colarem-se a abraçar a Sofia Vergara.) O ideal é o fundo ser liso, para melhores resultados. Mas também é possível recortar uma foto com fundo em imagens, o que eu até explico como fazer, se me pedirem com jeitinho. 


Pega-se na pic da Sofia e mete-se lá no separador "transparent background", tantas quantas as vezes que for necessário para que ela apareça rodeada de quadradinhos.


Depois o bom e facílimo de utilizar Photoscape faz o resto.
Vamos supor que queremos pô-la dentro de um barquinho de papel azul, já que a imagem está cortada um pouco abaixo da cintura. É colá-la lá.



As possibilidades são inúmeras. E tem também aquela vertente de se fazer o que se quiser com uma fotografia, sem aquela cena do BeFunky, que às tantas nos tenta obrigar a pagar para aceder aos modelos mais giros.

Eu em Lego

Eu em Frida Kahlo

Eu em chita
Fico sempre beneficiada nestas nuances.
Até pareço uma blogger.



20/07/2017

And that awkward moment # 33

em que te liga um Marco, identificando-se como pertencendo à tua operadora de internet, te chama dona Maria — e não te dá tempo para lhe explicares (porque, apesar de não seres mãe dele, ele vai sempre a tempo de aprender, e tu não duras sempre) que não se chama dona Maria a ninguém, nem tão pouco senhora Maria, quanto muito senhora dona Maria, e isto abstraindo dos títulos académicos, que ele não sabe nem sonha, mas até podia perguntar, se não estivesse tão preocupado em chamar-te dona Maria, e seguir o guião lá dele, que há-de conter esses erros todos (porque quem o escreveu há-de ser outro Fábio semelhante), e, já agora que aqui estamos, só lhe é "permitido", segundo as "regras", chamar-te senhora dona Maria e não te apelidar convenientemente, porque tu és fêmea, caso contrário teria que lhe acrescentar o sobrenome, senhor Mário [Apelido], e nunca, por nunca, senhor dom (true-true, já ouviste assim pronunciado) [e vamos lá acabar esta frase intercalar, que já vai maior do que o texto] —, te pergunta se estás satisfeita com o serviço, respondes um pouco convicto, e, por isso, pouco convincente, "Estou...", logo de seguida questiona-te se tens alguma coisa a acrescentar quanto à qualidade do serviço, tu respondes "Tenho: as gravações da televisão desaparecem sem chegarem a ser visionadas, não é possível gravar programas que já foram exibidos, a internet vai abaixo uma vez por outra, e...", e, antes que continues a desfiar o teu rosário de amarguras, o tal Marco pergunta: "A senhora [dona Maria?] reportou essa situação aos meus colegas?" [pois que nunca poderia ter sido a um Marco destes que o tal reporte teria sido feito, porque obviamente a tal situação já estaria resolvida], e, perante a tua afirmativa, vai o Marco e responde-te assim: Pois, mas essa situação das gravações e de a internet ir abaixo não era suposto acontecer. Mais alguma coisa em que lhe possa ser útil, dona Maria?

[Foste-me inútil, senhor dom Marco-não-sei-das-quantas.]
[Não, espera: foste-me útil para me fazer perder dois minutos da minha vida.]
[Espero que estes dois minutos sejam contabilizados no Juízo Final, juntamente com o tempo de permanência em bichas, salas de espera e a aturar chatos.]



19/07/2017

Passei as últimas vinte e quatro horas da minha vida à sombra de uma bananeira, a digitar números

Estou à beira de um esgotamento nervoso.
[Há hipérboles, metáforas e mentiras deslavadas no título e nesta última frase, dramática aproximação da realidade.]
Já copiei a agenda toda para meu novo telemóvel, que se mantém mouro. Encontrei muitas pessoas, outras perdi acho que espero que para sempre. 
Não sei se também é assim com vosotros, mas, a mim, a purga triagem dá-me para:
1. Banir uns quantos contactos, por haver até cerca de 10% de hipóteses de voltarmos a falar algum dia na vida deles e ou minha. E, convenhamos, 10% não valem o esforço de estar ali a passar à pata, feita pata, números com 9 dígitos, todos desconexos uns dos outros, com a única garantia (salva uma honrosa excepção) de começarem por 9;
2. Copiar uns quantos contactos, apesar de haver 0,5% de hipóteses de voltarmos a falar algum dia na vida deles e ou minha. Servem estes para prevenir que, caso lhes dê a travadinha de me ligarem, eu estar alerta e:
         a) Não atender;
       b) Esperar cinco, seis, sete toques, consoante o grau de má vontade que tenho em estabelecer qualquer tipo de contacto, seja a que pretexto for. (Ex-chefe, por exemplo.) Terei, então, tempo para:
                I - Atender;
                II - Não atender;
                III - A pessoa desmelgar.
3. Não copiar duas boas dezenas de contactos, inúteis (Apoio TMN? Praia Kontiki? Rui dos toldos? SOS Náufragos?) ou dispensáveis: aquelas pessoas com quem há 0,5% de hipóteses de voltar a falar algum dia na vida deles e ou minha, mas que, se me ligarem, tranquilamente:
          a) Atendo;
          b) Simulo uma gravação automática;
          c) Faço voz de ladrão e digo que roubei o telemóvel a uma mulher belíssima.
4. Copiar milhares de contactos, de pessoas que me são queridas e com as quais falo todos os dias, mas que, e apesar disso, não sei os seus números de cor, e, ainda que soubesse, copiaria na mesma, porque, como todas as pessoas com perturbações desta ordem, julgo que incluí-las na minha agenda é uma grande homenagem que lhes faço, com o contraponto de uma grande honra que elas, mesmo sem saber, sentem por dela constar.

(Confuso? Experimentem copiar centenas de números em cerca de umas horas e depois falamos.)

18/07/2017

iPhostes

Aí vai disto para a enorme superfície, em busca de alguém que me pudesse fornecer ajuda naquilo do coiso. A Phone House* eclipsou-se dali, ou então eu não a procurei nos bolsos. Entrei na Worten Mobile*, mas a senhora que me atendeu disse que não me podia cortar o cartão para o tamanho nano, pois arriscava-se a cortar-me o chip. Não é que eu me importasse, mas lá me esbandeei para outras bandas.
Fui para a ZON*, mas estava quase na bicha quando me lembrei que cá no lar nós somos NOS*, passe o quase pleonasmo.
Na NOS*, a senhora disse-me que não me podia fornecer um cartão novo, porque eu não sou a titular do pacote. (Isso julga ela. Esse e o meu nariz, são meus de propriedade plena.) Questionei, incrédula, qual a motivação da política da empresa, uma vez que o número me pertence. Disse que não sabia. Insisti que queria perceber. Alvitrou que podia ser porque já tiveram chatices com clientes que vão levantar um cartão novo para o esposo, em situações de casais desavindos, e depois ele fica com o telemóvel bloqueado. Assim, tal e qual: para o esposo (...) e depois ele fica com o telemóvel bloqueado. Parece que só as mulheres têm caco para fazer uma partida dessas. Somos grandes, nem que seja para a patifaria.
Desbloqueou-me ela a situação quando contra-argumentei que a inversa também se pode dar: o titular do pacote ir buscar o cartão da esposa e depois ela fica com o telemóvel bloqueado.
Aconselhou-me a meter os contactos todos na cloud. E depois dizem uma coisa destas a uma senhora da minha idade e acham que nos chega uma mensagem ao cérebro que não seja a literal: com o céu que cobre hoje Lisboa, mandava aquilo tudo lá para a nuvem que ela sugeriu e depois via-me desgraçada para provocar a trovoada que mos devolvesse para o telefone novo. Cá quieta.
Avisou-me então que, caso não o fizesse, ficaria sem agenda. Parece que o procedimento a rasga em niquinhos.
- Olhe, até me dá jeito. Metade dos que lá estão vão já fora: "Este nunca lhe telefono"; "Este não sei quem é"; "Este já morreu"; "Este já devia ter morrido".
Ela riu-se, mas pode ter sido dos nervos.

Tenaz argumentação de LB - 2; Frágil argumentação da loja de telefones - 0

* NMPPI


17/07/2017

LB proporciona une petite enquête aos seus fiéis

Olá, queridos,

Tenho a anunciar que já sou proprietária de gozo pleno de um iPhone. O gozo maior tem sido dele, pois o possuí há três dias e ainda não o pus a meu uso e bel-prazer. Razões várias se desprendem deste impasse, de entre as quais uma pena imensa (de pavão) de largar chico-smart. Mas, e principalmente, assiste-me uma total e absurda incapacidade para lidar com o bicho novo. Acreditem que até para o ligar e ele iluminar o ecrã, tive que espiar como é que uma das minhas crianças fazia com o dela. De resto, o monstrinho tem jazido na caixa que o transportou para casa, pois cada vez que a abro, fico ainda mais fora de pé. Diz lá dentro, num papelinho, que devo ler primeiro o manual de instruções. Ora, o dito não consta da caixa. Talvez tenha que instalar uma app, que, por sua vez, me explique como, tipo, telefonar com o telefone. Mas, para tanto, tenho que o ligar e chegar ao sítio que diz "instalar apps". Acho eu. Há pouco quis meter-lhe o cartão sim e ele fez que não. Tive que ir à nettinha ver como é que se inseria o plástico, e lá dizia que tenho que espetar um clip naquele buraquinho minúsculo. Eu espetei, mas não aconteceu nada. De modos que vou daqui para a loja, a ver se alguém me faz o jeitinho de me pôr o coiso a funcionar. 

Bom, mas não era a isso que eu aqui vinha. 
Urge arranjar um nome para a máquina. Todos os meus objectos pessoais — ou quase todos, prontos — têm nome. (Para se distinguirem uns dos outros.)
Ora:
Ai- fone;
Ai-Lindo;
Ai-fome [Ele tem uma maçã meio comida atrás];
Ai-Eva;
Outro.
(Isto só lá vai se for a votos.)

Gradecida.

14/07/2017

Também sou só eu?

Que, cada vez que vejo este cartaz, num relance leio pela Nossa Senhora?

Escuso de dizer que fui eu que coloquei o halo?
Não sei se é do lettering cinzento, se é da pressa com que leio, se é do facto de terem posto o pronome possessivo com maiúsculas, se é analfabetismo puro da minha parte, ou se a agência sabe muito bem o que está a fazer.
(A candidata do PSD até fica um bocadinho diabólica, ali ao lado, a rir-se toda.)

13/07/2017

Eu tenho problemas com médicos # 27

Voltei ao dentista dos olhos bonitos. Agora que penso nisso, não sei se alguma vez lhe vi os dentes, já que ele usa máscara de cirurgião. Em compensação, ele conhece-me os vinte e oito de ginjeira. Hoje meteu-me cá a agulha eléctrica, o drone da outra vez, alicates vários, estruturas metálicas para me manter a boca aberta, e, a certa altura, meteu-me a cabeça numa betoneira. Sei isto, porque, apesar de ter metade da cabeça anestesiada, toda a minha caixa craniana gozou de alta vibração. A estagiária dele também meteu para cá coisas, desde o espelho, a algodões, a compressas, ao aspirador. Ela é exímia em tentar asfixiar as pessoas humanas com aquilo, pois noto-a francamente empenhada em aspirar-me as amígdalas. Trava-se-me uma luta interior (Engulo o aspirador?  Deixo-a sufocar-me, por uma questão de cerimónia? Puxo pelo cabo e enfio-lho na boca dela? Grito que me estão a sufocar, ó da guarda?) e exterior, que é uma constante preocupação em empurrar aquilo com a língua, numa óbvia manifestação, da minha parte, do instinto da sobrevivência. Acho que ele deu pela minha agonia, pois me perguntou se estava tudo bem, no exacto momento em que eu tinha quinze ou vinte aparelhos e ortodontices dentro da boca. Respondi como pude: "Hudo hem, has hehasiadas hoisas hentro ha hoca".
Não sei a quantos dentes ele me substituiu as pratas, mas acho que foi a vários. (Tive em tempos um dentista que devia ter complexos de professor frustrado, chumbava que era uma delícia.)
Gostei tanto que lhe pedi que me substituísse também as pratas que ainda tenho (e é uma de cada lado, o que me obriga a ir lá mais duas vezes), e, se quisesse, as porcelanas mais antigas.
Isto, como tudo na minha ainda tão breve vida, é uma novela por episódios. 


A minha vida dava um filme de David Lynch

Isto de um ser humano ir à praia sozinho tem muito o que se lhe diga. Homens e mulheres gritam à minha volta que têm bolas. Deixo-os passar até deixar de os ouvir e até que a fome me roa. Surge então no firmamento um rapaz que tem um tabuleiro pendurado ao pescoço onde se lê "Bolos da Linha". Chamo-o, mas, afinal, ele é como os outros: só tem bolas. Acho-as tão chiques que compro uma a preço pornográfico, sem um pestanejar nem um bater de pestanas. 
Estão todos determinados a não me deixarem envelhecer a pele nem a engordar em paz. Vem também ter comigo um vendedor de bugigangas, que quer vender-me uma pulseira para o pé, em prata da Índia. Explico-lhe que sou alérgica a toda a prata, exceptuando a de lei (portuguesa), e, mesmo essa... [e era o que me faltava, mais peso nos pés, logo a mim, que carrego o peso do Mundo.]
Descubro as vantagens de ter uma toalha redonda: posso ir rodando em direcção ao sol (como aquele grande maluco do Ícaro). Ou será contra o sol? Que importa, verifico que pareço um par de ponteiros, pois é para a direita que me movo. 
Suspeito que vim parar a um aeródromo: passam aviões comerciais, aviões comerciantes, avionetas e um helicóptero. Também há pombos, mas gaivotas nem sombra. 
E não há sombra, sem sombra de dúvidas.

Na senda de "Sou só eu?" # 6

1. Que fico a contar em decrescente, os segundos de 5-4-3-2-1, para "pular anúncio", no Youtube, já com o cursor em cima do botão, para zás, em milissegundos, clicar, pulando?

2. Que não sei de quem se trata Eva Ekiblad e por que diachos o Google comemora o seu 293.º aniversário?
[A senhora ainda está viva?]
(Vá, não vale ir ao Google — precisamente —, para me explicar quem é Eva, essa quase tricentenária senhora. Isso, eu também posso fazer.)

3. Que faço apostas comigo mesma em como vou ser capaz de levar a couvette do gelo, cheia de água, da torneira até ao congelador, e nunca-por-nunca deixo de entornar o equivalente a duas goladas, por mais cuidado e ou vagar que utilize?

4. Que, quando calço umas sandálias com motivo cobra, já não sou capaz de pôr um discreto lencinho motivo leopardo, por me sentir um zoo, ou uma zebra, ou sei lá o quê?

5. Que fico melhor em fotografias desfocadas? 
(Haja miopia neste mundo.)

6. Que não posso beber um copo de água a seguir a comer meloa, sem que me fique a boca a saber a aguarrás?
(Nunca bebi aguarrás, mas deve ser ao que sabe.)

7. Que tenho um rímel (máscara de pestanas) tão bom, que mas estende a ponto de não poder abrir demasiado os olhos, pois sujo as sobrancelhas?

8. Que falo numa pessoa que não vejo há dois anos e ela, no máximo vinte e quatro horas depois, se cruza comigo na rua?

9. Que escrevo posts que parecem aquelas curiosidades de merdinha das Selecções do Reader's Digest?

10. Que — por falar nisso — me vejo aflita para me livrar de vendedores das Selecções e outras pragas semelhantes, porque sou demasiado bem educada e também porque ninguém me ensinou a dizer NÃO, e levo determinadas situações até ao limite do insuportável, só para não ser má-feia-cruel-mal-educada-bruta-antipática-[digam vocês]?



12/07/2017

And that awkward moment # 32

em que estás na praia, a apanhar belos banhos de marisol, e talvez o neurónio sobrevivo já esteja a entrar em combustão espontânea, pois agarras o pequeno espelho que tens na bolsinha, que tem um lado que reflecte a tua imagem em tamanho real (?), e outro que a reflecte aumentada (?) cinco vezes, e pensas assim: "Eu sou deste tamanho ou deste?".
Complexo de Narciso ou de Alice?


A paixão cresce todos os dias, mas tenho medo do casamento

iPhone SE
(imagem da nettinha)
Perante a constante ameaça, por parte de chico-smart, de dizer adeus à vida e à felicidade da nossa relação, ando em prospecções de mercado há cerca de dias. Fui esbarrar-me de frente com este pequeno querido, e deu-se-me um coup de foudre com ele, que me pareceu recíproco no momento em que o toquei: é lindo e leve e cabe na minha pequena mão. (Eu ainda sou do tempo em que os telemóveis não pareciam eReaders nem Tablets.) Estou mesmo a ponto de já lhe andar a arranjar nome, talvez indecisa entre ai-fone e ai-Lindo. 
Conheço-lhe algumas desvantagens, nomeadamente a da actualização de softwares que a Apple faz, à revelia do cliente, o que desactualiza o desgraçado e esmerda um bocado a vidinha ao utilizador. 
Conheço-lhe também as vantagens (tudi-tudi-tudo), designadamente ser lindo (já disse?), leve (ainda não disse?), caber na minha pequena mão (isto, acho que já disse), e ter uma câmara supimpa. 
Ah, e acho que também faz chamadas telefónicas. E até recebe.

Preciso de opiniões, tipo agora. Não está fácil não o ter.

11/07/2017

Uma boa acção por dia, nem sabes o bem transtorno que te fazia

Chego ao metro e quero carregar o meu bilhete. Vou para uma zona onde o estacionamento é uma anedota daquelas de que ninguém se ri, nem mesmo eu, que sou uma fácil da piada fácil, passe o pleonasmo. A máquina tem mil ranhuras, uma para moedas, outra para notas, outra para o cartão MB, outra para o passe/bilhete, outra para receber o talão + troco + bilhete, no caso de comprarmos um novo (e que está sempre cheia de lixo, vulgo talões de carregamento de metade da população que já por ali passou naquele dia, que é um desassossego para descortinarmos qual é o nosso. Regra geral, apanho todos, e depois vou, durante a viagem, a decidir qual é o meu). Porque nada na minha vida pode ser simples nem à primeira tentativa (sou mesmo adepta do método tentativa-erro), pretendo meter o bilhete na ranhura do MB. Ali encontro um cartão esquecido, que retiro, e procedo ao carregamento, já através da ranhura certa. 
Vou entregar o cartão encontrado ao balcão das informações.
E o meu bilhete recusa-se a dar-me entrada na cancela automática.

~

Estou parada em segunda fila, junto a um parque de estacionamento, e ouço um muito fraco apito descontínuo, que reconheço de uma buzina. Procuro com o olhar se é algum dos carros que estou a bloquear, e verifico que não é. Apercebo-me que está um rapaz, já entre o aflito e o furioso, a apitar, com intenção de chamar o dono do carro que bloqueia o dele e mais dois. Avanço um pouco e pergunto se quer que buzine por ele, uma vez que a buzina dele [é ridícula] mal se ouve. Pede-me que sim, que o faça, e eu colo a mão no volante até ficarmos (ele, eu e quem passa) doidos. De repente, apercebo-me que o carro dele sai, se ele fizer uma pequena manobra em diagonal ao passeio, e sugiro-lhe que o faça. Que não, que O meu carro não arranca com a chave, só pega de empurrão. Ponho-me a pensar que, sendo assim, com ou sem a manobra que lhe propus fazer, ele terá sempre que empurrar (no caso, puxar de marcha-atrás) o carro, para o tirar dali. 
Parece-me que ele quer que eu empurre o carro dele, enquanto ele o conduz para o motor pegar, mas não me ofereço. 
O condutor do outro carro chega, ele trava-se de razões com o homem, e eu saio de mansinho, sem sequer um Obrigadinho, pá.

~

Espero a minha vez para comprar uma (única) alface. Tenho grilos em casa, e eu própria também não vivo sem. Apercebo-me que, atrás de mim, está uma senhora com um bebé ao colo. Dou-lhe a minha vez, apesar de a minha compra demorar previsivelmente cerca de segundos. 
E ela pede.
Uma alface folha de carvalho. [Sempre a aprender, nem sabia que se chamava isso às alfaces lisas ou francesas. Tanto nome para um só legume. E eu que só quero uma frisada ou portuguesa, ou, às tantas, folha de castanheiro-da-Índia.]
...
Um chuchu
...
Cinco cenouras
...
Um nabo
...
Um pedaço de abóbora
...
Tomate cherry
...
And counting. E eu de gesso. 


10/07/2017

Sinto-me tão crescida

Não me sai da cabeça que estive numa feira de quinquilharia e lixo que os outros já não querem ter em casa na avenida da Liberdade, vi à venda duas caixas com bonecos da minha Heidi — Caixa 1: Heidi com o fato da montanha + avô + Pedro; Caixa 2: Heidi com o fato da cidade + Clarinha (na cadeira de rodas e tudo!) + Menina Rottenmeier) —, e não comprei. Nem sequer perguntei o preço. Resisti até ao limite do insuportável. Também me envergonhei um bocado. E não tinha aonde pôr a bonecada. Mas estou a chorar lágrimas de sangre desde ontem. Mentalmente, estou em posição fetal, até recuperar disto.

Por outro lado, parece que houve um incêndio lá para os lados de Loures. A minha rua, equidistantíssima desse lugar, esteve umas horas com fumo, cheiro a queimado e fuligem. E a mim só me ocorre isto:


Ela fala tanto # 17

O mal de fazer o que quer que seja antes de injectar cafeína para a veia dá nisto: cortei umas calças de ganga a níveis inadmissíveis para poder frequentar a rua sem que cerca de 67,3% da população — sendo que, desses, 97,6% são mulheres —, fique em modo catatónico a olhar para os meus tornozelos, naqueles precisos segundos em que nos cruzamos uns com os outros. 
Tinha as calças já vestidas e achei-as extremamente compridas. Montei a máquina de costura, medi as calças sem as tirar, e vá que não tentei metê-las à máquina ainda vestidas. A minha medição deu 64 centímetros de comprimento para cada calça (uma vez que a descafeína não me retirou a lógica de fazer as duas do mesmo tamanho). Cortei, cosi a bainha de modo a ficar com a costura amarela da ganga na ponta, e vesti-as. Constatei, horrorizada, que tinham ficado com uns admiráveis quatro centímetros acima do osso do tornozelo, o que me levou a uma rápida matemática, ou então a uma epifania: isto quer dizer que, dos meus 168 centímetros, 68 (x 2) são pernas. (E não, não meço um metro do gancho à cabeça, não posso esquecer-me que tenho pés.)

~

Voltei da rua com outras calças iguais, cometi o disparate de lhe contar que fui à Primark* pedir que me lessem a etiqueta das calças, para poder comprar umas iguais, e que a funcionária me esclareceu que as calças eram da Bershka*, número 36. (Estou sempre no sítio errado à hora errada, o que faz de mim uma séria candidata ao acontecimento estúpido.)
(Não, isto não foi tudo para dizer que visto o 36 de calças, pois nem é bem verdade. São calças com tanto elastano que até aquela Margarida as vestiria sem dificuldades.)

~

A minha Tatiana está magríssima, perdeu dez quilos, passou de 64 para 56 quilos.


[Pensava que só tinhas chumbado a Português.]
Outro dia também quis vestir umas calças 36, mas não conseguiu, porque não lhe serviam, teve que pedir o número acima.
[Pensava que ela estava magríssima. Devo ter percebido mal.]
É que ela tem o rabo maior do que o meu.


[Espera. Pára tudo. Vamos começar a medir rabos. O teu é gigante. O da tua Tatiana é maior do que o teu. Eu enfiei o meu numas 36, cheias de elastano, é verdade, da Bershka**. A tua Tatiana enfiou o dela numas 38 e tu, por conseguinte, dizes-me agora que vestes o...
...
...
... 36?]


[Se não chegaste a chumbar a Matemática, chumbo-te eu agora.]
[E a Lógica também vais chumbada. Adeus.]


* NMPPI
** Um dia ainda dedico um post à FDP do nome desta loja, à p. da grafia dele e às diversas formas como pode ser pronunciado. 

09/07/2017

The Devil next door

E é precisamente ela, que é enfermeira, casada com um médico (of course), e que moram no último andar do prédio, que responde na reunião de condomínio à pertinente observação do cônjuge da pessoa, de que uma cadeira de rodas não cabe no nosso elevador, coisa comum de parte comum, que, se as pessoas precisam de subir e descer com uma cadeira de rodas, o melhor é mandarem instalar uma cadeira elevatória mecânica, daquelas que sobem as escadas com a pessoa lá sentada
E eu, que sou uma pessoa má, e a vejo mais velha, mais perra e mais marreca todos os dias, fiquei secretamente a pensar cá para com o meu fecho éclair que pode ser que não lhe tarde o dia em que tenha que subir e descer sentada numa coisa dessas, escadas acima e escadas abaixo, para e desde o sexto andar em que mora, até ao rés-do-chão. E, quem sabe, com sorte, a mecânica da coisa se engana ou avaria e atinge velocidades supersónicas com ela lá sentada. Na descida, que dá mais pica. 

07/07/2017

The girl next door # 10

Com vizinhas destas, quem precisa de amigas?
Sou ou não sou tão fofis? Apetece-me dar-me beijinhos e tudo.


A quase famosa devolução do tabuleiro.
(São só quatro bolachas porque eles são só quatro lá em casa, e a pessoa preserva a linha dos outros e a sua própria carteira.)

Eu tenho problemas com tudo # 26

Foi só a segunda vez, em toda a minha já não tarda extensa vida de condutora, que fui vítima de uma operação STOP, levada a cabo por um senhor agente autoritário.
(Também já nos aconteceu, embora não comigo ao volante, sermos mandados parar, para verificarem se não se tratava de transporte ilegal de jovens, porque estávamos na Zambujeira do Mar na altura do festival, mas lá explicámos que eram todos nossos e eles acreditaram.) (Ah, porque eram.) (E são.) (Meus amores.)
Manda parar o carro da frente, e eu mesmo a ver que me safava, que o senhor legal optava pelo um-sim-um-não, ou o um-dó-li-tá, e então eu era o "não" ou o "livre-está", mas é que não: manda-me parar a mim também. Assomou-se ao vidro de Rosinha e mandou o outro seguir. Pronto, já sabia. É tudo uma questão de Murphy. 
(Ainda hoje não percebo como é que o Bryan Adams não me chamou a mim ao palco do Rock in Rio — e já ando a remoer isto desde 2012 — para cantar com ele qualquer uma, até podia ser aquela do cavalo, e preferiu antes uma Vanessa, que se via a léguas que tinha umas olheiras de guaxinim, coisa que eu, pelo menos nessa noite, que me lembre, não tinha.)
Acerca-se-me de Rosinha e, antes mesmo de me solicitar os documentos e o seguro, bate-me continência. Isso, aquele gesto que os militares praticam, elevando o braço e dando com os quatro dedos oponíveis na testa (deles), batendo também com um pé no outro que, por sua vez, fica quieto no chão. É toda uma coreografia que deve requerer muito treino para que não aconteça, pelo menos, no momento em que se tem um Cornetto na mão que faz de pala. Por acaso, ponderei bater-lhe (continência) também, mas a verdade é que estava sentada, os dois pezinhos ainda nos pedais, e podia não sair um gesto perceptível como, lá está, uma continência. Assim, contive-me. 
Só isto, por ora.


06/07/2017

And that awkward moment # 31

em que te vês na rua, por motivos só teus, que interessam para aqui zero, com trinta adesivos espalhados pelas duas pernas, de vestido vestida? E, se há coisa que tens que defender com unhas de gelinho e dentes que ainda são todos teus, é a tua imagem (mental também). 
Ali mesmo a dois passos, tens uma Stefanel* e uma Lanidor*, mas algo sem explicação (avareza) te leva a enfiar na loja do chinês, a apenas um passo. Precisas de qualquer coisa que te tape as pernas. Macacão de calças, fora de questão. [Por mais em forma e ou magra (hah, tits) que esteja, eis-me uma orangatanga]; vestido até aos pés - fora de questão. [Fica só a faltar a Djali e o Quasimodo para compor o cenário]; umas calças são a solução certa, mas, para tanto, há que comprar qualquer coisa para cima. [Calças por baixo do vestido, só se comprar também um chapéu de palha, e saia para a avenida a cantar Oliveiras, oliveiras, ao longe são olivais. Ai, és tão Linda!]
No provador, decides-te por duas peças lisas, uma vez que a sandália que trazes calçada é em imitação da cobra [com O] e não conjuga com a calça floral (segundo sugestão que mal ouves entretanto). [E eu lá sou mulher de usar a calça floral? Sinceramente.]
Depois dá-te a preguiça, aquele pecado capital, para te despires e voltares a vestir e ainda ir pagar, e depois teres que voltar a despir o vestido e vestir as duas peças acabadas de adquirir. (Não sei se estão a acompanhar.) Diriges-te então ao balcão com os dois alarmes pregados na roupa que tens vestida, e sugeres que tos tirem assim mesmo. No entanto, o removedor magnético para os retirar é uma peça afixada sobre o balcão. Perante o espanto e alguma relutância da funcionária, insistes que te sejam retirados mesmo assim, tão teimosa quanto preguiçosa, mas, convenhamos, com um louvável sentido prático. Se, quanto ao top, é fácil reclinares-te e zás, soltá-lo, já quanto às calças, que tinham o alarme aposto na parte traseira do cós — logo, na tua parte traseira —, a retirada dele obrigou-te a uma manobra, vá, que só possível derivados à elasticidade que tens vindo a adquirir ao longo das décadas, à força e empenho de tantas horas a dares o coiro (mas não o cabelo) no ginásio. E ainda tens que ouvir:
- Vaidadji, ámiga...?
Mas não perdes a pose, e esclareces:
- Necessidade, amiga.
(Porque só mesmo em estado de necessidade é que a verdadeira blogger sai para as avenidas vestida com umas jeggins azuis e um top esvoaçante, mas isso eu não podia explicar-lhe.)
(E eram tão justas que o relevo dos pensos se notava perfeitamente.)


*NMPPI


04/07/2017

The girl next door # 9



Acordo pela manhãzinha, ainda alta madrugada, assaltada à mão armada por dúvidas. Descartes era um menino, perto disto. 
Assim como tenho vizinhos que me riscam um carro novo — embora o facto de ser novo seja aqui totalmente irrelevante —, tenho também outros que me dão comida. (Às tantas, tenho um ar enfezadinho e nem me apercebo disso.)
Outro dia veio cá uma vizinha bater à minha porta para me entregar um tabuleiro destes frutos. Estava bastante mais cheio, mas o povo cá do casebre tem comido, de modos que já só apresento uma amostra. 
Encontro-me agora num impasse, chegada que é a hora de devolver o tabuleiro, uma vez que já passaram uns dias sobre a oferta: quero agradecer-lhe, mas não sei construir a frase. Não sei ao certo se isto são ameixas amarelas, abrunhos, rainhas-cláudias ou magnórios. Quero dizer assim: "Ester, venho devolver-te o tabuleiro e quero agradecer-te os [poing], que eram deliciosos". 
Estou a pensar em várias soluções, mas nenhuma me parece perfeita:
1. Digo uma frase em que não se perceba bem a parte do nome do fruto: "Ester, venho devolver-te o tabuleiro e quero agradecer-te os ameibrunhrainhagnórios, que eram deliciosos";
2. Digo uma frase em que não diga o nome do fruto: "Ester, venho devolver-te o tabuleiro e quero agradecer-te aquelas frutas, que eram deliciosas";
3. Digo uma frase em que nem sequer falo do fruto: "Ester, venho devolver-te o tabuleiro";
4. Digo uma frase em que atiro com um daqueles nomes ao calhas e o pior que pode acontecer é ela corrigir. Ou então ignorar;
5. Meto-me no Google;
6. Meto-me nas tamanquinhas e vou à mercearia chamar pelos conhecimentos do senhor Joaquim;
7. Meto-me nas tamanquinhas e vou à mercearia comprar quantidade igual dos mesmos frutos e vou oferecer à vizinha;
8. Não devolvo o tabuleiro;
9. Mando-lhe o tabuleiro pelo correio, uma vez que sei a morada dela;
10. Faço uma compota com os frutos e vou oferecer à vizinha, como prova da minha gratidão, dizendo: "Ester, venho devolver-te a gentileza, por isso fiz compota com os ameibrunhrainhagnórios que me ofereceste, aqui a tens". 

03/07/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 16

A parva meteu-se dentro de um saco de plástico, que foi roubar ao esquecimento de alguém que usou o último rolo de papel higiénico. Parecia que estava dentro de uma bolha. Por mais que remirasse o saco, não vi por onde entrava o ar, embora ela permanecesse tranquila lá dentro. Aparentemente, a zona da abertura havia ficado toda debaixo do corpo da bicha. Depois percebi que havia um pequeno buraco na parte superior do saco, por onde ela veio a enfiar a cabeça. Pareceu-me que não conseguia sair sem ajuda, pelo que dei um puxãozinho na ponta do saco, e ela saiu como se de um parto natural se tratasse (ela, o nascituro em ritual de passagem para recém-nascido; o saco, a mãe dela; eu, a parteira. Calham-me sempre os papeis chatos, ainda bem que não fui para teatro, era capaz de ter que fazer de Quasimodo). Pôs-se, então, em posição de sentinela ao saco, seu novo território sagrado e inviolável. Mas, em vez de me agradecer esta oitava vida que lhe proporcionei, ronronando-me, roçando-se-me, ou sendo um gato normal (ignorando-me), brindou-me com uma unhada na perna, pois há-de ter pensado (?) que eu lho ia roubar. [Queres ver que para me meter lá dentro também?]

Embora ninguém me pague para isto, urge uma explicação acerca do papel higiénico acima ilustrado. Trata-se de Pampilar Compact, a última das maravilhas inventada para o efeito, pois cada rolo consegue a gigantesca proeza de durar umas valentes vinte e quatro horas numa casa de seis pessoas com intestinos e bexigas normais.


Ela fala tanto # 16

Durante o fim-de-semana trocámos miminhos através de sms, cadeia despoletada por mim, pois que me surgiu a dúvida sobre o seu mapa de férias, e digamos que preciso de me organizar: também terei as minhas, preciso de limpezas grandes de Verão, cá o lar vai para obras em breve, e etecetera. Ora, não lhe disse nada disto, mas ela sabe que, chegado o bom tempo, é também tempo bom para lavar, arejar, limpar e arrumar. Fiquei a saber que [oh!] as férias de madame La Sandra começam no próximo [tão próximo!] dia 17. Vá que paniquei, mas também, e mais uma vez, não disse nada. Ainda estarei em Lisboa mais duas semanas, enquanto ela descansa, e isto faça chuva ou faça sol, tenha ou não que, também eu, trabalhar. 
Hoje apareceu-me com as pontas do cabelo pintadas de verde [vá lá...] e a coxear. Parecendo que não, ambas as coisas têm a sua correlação, quanto mais não seja pelo grau de irritação que conseguem provocar-me, logo a uma segunda-feira de manhã, que é, como sabem, o pior horário da semana (ex aequo com o final da tarde de domingo). [Qualquer dia, tatua-se.] [Se é que não se tatuou já, mas não está à minha vista.] [Qualquer dia, tatuo-me eu.] [Puxa, será que umas estrelinhas no interior do pulso, à artista de Hollywood, ficariam muito Zona J?]
Mais uma vez, não disse nada. Resolvi ignorar tanto o verde como a coxa. As clubites e a chantagem emocional também andam ex aequo entre si para me atirar para os pináculos da irritabilidade. 
Cansada da minha indiferença — que creio que interpretará como burrice da boa —, fez que encontrou uma ceninha invisível no chão, para poder baixar-se e apanhá-la de lá à minha frente. Apoiando uma mão na parede, semi curvou-se para, com a outra mão, apanhar do chão ótever. E gemeu. E eu muda. Até que lhe saiu tudo:
- Tenho aqui uma dor, mal me posso mexer, dói-me tudo até cá acima [rolling eyes], isto foi ontem, a tirar o carrinho das compras do carro, dei um jeito às costas, que fiquei assim parada na rua [e exemplificou], parecia uma velha, até disse à minha irmã, "Ai, ó Tânia, já não consigo sair desta posição" [mas parece que conseguiu], a ver se hoje vou à SAP tomar uma daquelas injecções que tratam tudo e amanhã já devo estar um bocadinho melhor.
Depois fui para o supermercado, trouxe o equivalente a vinte quilos de compras [true-true, só em leite foram 16 litros], e é óbvio que alombei com tudo até à cozinha, não fosse ela ter que tomar duas injecções em vez de uma só, lá na SAP. 

[E sim, baixa-me a fascizóide quando me lembro que ela vai laurear a pevide no dia 17, mas não lhe faltará o ordenado por inteiro, nem o subsídio, enquanto aqui a pessoa humana fica a substituí-la a custo zero.]
[Spinning eyes. Ou melhor, este — :(]

02/07/2017

Capitã da areia

As praias parecem todas iguais, e são mesmo, naqueles pequenos pormenores do mar de areia, do mar eterno, do mar de gentes. 
Na praia da minha infância há muitas eu. Nem preciso de olhar para trás, para me ver com três anos de idade, o cabelo apanhado daquela mesma maneira, o calçãozinho pequenino, igual ao que vejo naquela menina, as casinhas pequenas — eu não construía castelos, moldava casinhas que se desfaziam igualmente —, os bolinhos feitos com forminhas de estrela do mar e de peixinho, numa desenfreada pastelaria que até achei boa ideia vender um dia a compradores invisíveis. Sem grande esforço, também me vejo aos catorze, aos dezasseis, já mulher, já enorme — eu sentia-me enorme, de repente com a altura com que fiquei para sempre —, fato de banho inteiro, cabelo comprido, e eu feliz a ir para o mar, e eu feliz a vir do mar, e eu feliz cheia de sol, a brincar com areia seca entre os dedos, já ela não se me moldava em bolos nem em casinhas de telhado insustentável. Vejo outras eu que já fui, os filhos pequenos pela mão, corpos paridores há pouco, a forma que tarda em regressar, e, mas também, o mar, o sol, a areia, outros castelos — ninguém constrói casinhas na areia —, que são os mesmos que eu ali deixei há anos.
Um dia, sei que vou ver-me hoje, exactamente como estou e como sou: igual. E serei eu na mesma, à mesma e a mesma, construída, rodeada de casinhas, naquela mesma areia.

30/06/2017

pílula da felicidade

A cadeira de rodas dela impedia a minha saída da loja onde se toma café, se compram revistas e jornais, se joga a sorte maldita de nunca se acertar nos números certos, mas hoje era dia de fezada (prima demasiado afastada da fé), e tinha que jogar os dados para criar a infinitésima possibilidade. 
Parei diante dela, que fez tenção de recuar a cadeira para eu passar, e pedi que não o fizesse, pois podia esperar, mesmo não podendo. Uma cara muito negra, muito linda, rasgou-me um sorriso brilhante de pérolas brancas, e pediu para o balcão, logo ali, uma pastilha elástica. 
De morango, especificou. E ele, que podia ter aproveitado o meu braço estendido, cometeu a delicadeza de sair de detrás do balcão para lhe ir entregar a grande e doce encomenda à mesma mão que segurava a pequena e fria moeda. Rejeitando o pagamento, sorriu de volta ao sorriso ainda não desfeito dela que eu entendi meu — quem sabe nunca se desfaz —, e disse 
Não levas nada
e eu entendi que não levava mesmo nada, para o tanto que ali deixava. Foi o instinto — não sei qual deles —, ou foi uma força qualquer que me empurrou para o balcão, para pedir, exactamente, uma pastilha de morango. Paguei-a então com moeda metálica, por ali não deixar nada. 
Já na rua, toda cheia de sol, ouvi-lhe no mesmo sorriso,
Desculpe...
Ora, de quê? 
Se levo tanto. 
Deus, ou outra força qualquer, permita que não ganhe o prémio do jogo esta semana. 


29/06/2017

Não sei se concordo com estas mensagens, mas também, eu sou tão esquisita...


E está uma pessoa no Hospital da Luz, entretida à espera, primeiro de ser admitida, depois de ser chamada, e aquele ecrã das senhas de vez, pim-pim-pim, desconheço como é que se trabalha num local assim e não se chega ao fim do dia com os nervos em frangalhos, devia mesmo ser considerada uma profissão de alto risco, ou desgaste rápido, ou alto desgaste, ou então de desgaste risco, ora se eu só lá estive uma hora da minha vida e é isto, que direi. Assim, de repente, do nada, o mesmo ecrã passa pequenos filmes publicitários, aquilo dos spots, e surge-me aos estupefactos olhos o da Mustela*, logo a minha Mustela, que eu tanto amo e me cheira sempre a bebé meu, a anunciar a sua gama, o leite corporal para bebé, o bebé praticamente nu a ser massajado com o creminho, depois o bebé está efectivamente nu e é uma menina, se não me falha a memória, logo a seguir vem o grande plano da genitália da criança, com a desculpa de se passar ali o tal creme, e a cena dura segundos a mais (dois, três), e, quando todos (?) pensamos que aquilo não pode ir mais longe, então não é que vai?, e ainda há umas mãos cuidadosas que vão espalhar pomada da fralda ali mesmo, onde já havia passado o creme, e são mais dois ou três, ou lá quanto tempo dura a dita operação, de um close up do pipi (que escusado será dizer que é) de uma menina.

Doentes, utentes e outros passeantes do Hospital da Luz: nenhum de vós é pedófilo, verdade?

* Ninguém me paga para me calar. E ainda que pagasse.

Post interdito a machos # 3

As verdades são para serem ditas.
Isto não pode ficar assim.

Hoje vimos aqui falar de sutiãs, aquela peça. Já não é a primeira vez que o fazemos cá no espaço cultural, pelo que já não dói tanto. Lembro-me até de uma vez ter escrito um sentido trecho acerca de dois dos meus sutiãs — um branco e um preto —, que se reproduziram e brotaram no Mundo um terceiro elemento, rigorosamente igual ao branco (Mendel e suas leis têm destas idiossincrasias, não podia o filho ter vindo cinzento?), milagre reprodutor que ainda hoje não resolvi dentro da minha cabeça ou sequer da minha gaveta. 
Ora, acontece que esses dois — que passaram a três — fornicadores, eram fabricados pela Triumph*. E foram caríssimos. Há para aí uma década, custaram 25 paca cada um. (Eu já devo ter sido rica e não me lembro.) A cena de não vestir sutiã preto sob roupa branca nem vice-versa, obriga-me a esta dualidade constante, seja qual for o modelo que adopte. Este ora em discussão, era cai-cai e, como a grande maioria dos sutiãs desse tipo, tornou-se, com o passar dos tempos, um pequeno inferno que cai e cai e puxa as meninas para baixo (como se elas precisassem de desculpas para o fazer, a Natureza é exímia nessas merdinhas), para além de terem uma banda de silicone que se agarrava à pele e a mim me punha numa suadeira de dar dó por um lado, e repugnância pelo outro. O desconforto era tanto que já evitava blusinhas de alças e tops sem alça nenhuma. 
Ora, acontece também que este ano se usa tudo sem mangas, sem ombros, com alças fininhas, ou sem alças. E eu lá sou mulher para andar a exibir a alça do sustentório mamário, ou para aguentar a alça de silicone, que se rebenta, que se solta, que se agarra daquela maneira? (Sim, podeis gozar, sou alérgica ao latex também.) E fui descobrir na Primark** o belo e excelente e único e óptimo sutiã cai-cai, que dá pelo nome de Multiway (porque traz alças, que se podem colocar em paralelo ou cruzado), e custa 7 euros. Eu repito: sete euros. Aquilo põe-se e nunca mais sai do lugar — nem ele, nem as petizas —, ainda que uma pessoa corra, mesmo que salte, até que dance a lambada e a estalada. A sério. Nunca tive sutiãs tão bons na minha vida, nem nunca mais quero ter. É que nem apetece tirá-lo para dormir. (E tomara que não caia.)

(Podia ter ilustrado isto com fotografias, pois podia? Era. Mas os meus, não fotografo por razões óbvias. E as fotos que estão na nettinha são tão más, que resolvi fazer assim, desta vez.)

* Ninguém me paga para me calar
** Ninguém me paga para isto

28/06/2017

And that awkward moment # 30

em que entras numa farmácia pela primeira vez (pois que abriu há pouco tempo), deparas-te com um jovem ajudante, e pedes-lhe uma pomada para as nódoas negras?

E ele fixa o olhar em alvo, sorri, desconcertado, e confirma: "Nódoas negras?". E tu que sim. E insistes: "Nódoas negras". Pausa para observares o pânico-apreensão-incredulidade. Só lhe sai "Mas". E depois, "Mas... como?". "Eu tenho nódoas negras...", dizes, com o ar mais natural que encontras (só faltando desatar a assobiar a melodia d'A ponte do Rio Kwai). "É para si?", pergunta o já esbugalhado aprendiz de feiticeiro. "É. Para as minhas pernas". Depois desta revelação, precisas de mais uma pausa de, vá, milissegundos, para apreciar o brain freeze que provocaste — talvez se questionasse intimamente, Chamo a polícia?  | Chamo a carreta do manicómio, e eles que tragam o colete? | Chamo a Segurança Social? | Quem raios tem competência para tomar conta disto? —, e só depois te sentes com à vontade para lhe contar toda a verdade: "Quando vou ao médico picar os derrames, fico com nódoas negras. Preciso de levar Thrombocid, se faz favor".

[Também podia ter dito que pago a um médico para me espontapear, mas, como depois tenho vergonha das marcas, disfarço-as com pomada.]

Trabalhinhos da trabalheira

Isto também pode ser hormonal ou simplesmente uma cena esdrúxula do meu carácter: queixo-me quando não tenho nada para fazer; queixo-me quando os trabalhos são demasiado grandes para mim (em tempo e capacidades subjectivas para o fazer); queixo-me agora, quando tenho um trabalho que é tão pequenino que mal o vejo. Era usá-los, e teria que pôr os óculos. Podia fazê-lo num só dia, mas hoje vou no quarto dia, e ainda nem a meio cheguei. Tudo me chama para fora dele. (Neste tudo, não cabe o blog, conforme se viu ontem.) Tenho sempre que ir ali, ou acoli, ou então descansar (?). (Mas é que me cansa até à exaustão o trabalho pequeno, o pouco trabalho, o nenhum trabalho, que também existe.) Vou, feitas as contas por alto, levar uma semana a fazer aquilo que, normalmente, me levaria umas seis horas bem esgalhadas. E chegarei a sexta-feira magra (iuhu!) e amarela (há autobronzeadores muito bons) de cansaço, porém louca de felicidade por estar a chegar o fim-de-semana.




26/06/2017

And that awkward moment # 29

em que encontras alguém que conheces e localizas no espaço e no tempo imediatamente, que se te dirige com um, "Olá, ´tá boa?", o mais tio possível, eu-sei-lá-quer-levar-um-estalo?, dás dois dos teus beijinhos que não podes nem deves desperdiçar com qualquer um que te apareça assim à frente, e ele te faz uma pergunta que já te deixa meio baralhada, "A sua mãe?", porque nunca a viu ou sequer ouviu falar nela, mas siga, respondes educadamente, com as sinapses todas em fritura branda, "Lá vai andando...", e é então que ele se sai com a segunda pergunta, que desvenda e revela que tu não és tu: "Sempre ficou aqui?". Ora, o aqui é um hospital, e a tua mãe, felizmente, não se encontra hospitalizada, e é essa interrogação, partida dele, que te diz que ele está equivocado. Então, assalta-te a epifania, atiras o jogo ao chão, borrifas para o você-cá-você-lá, e dizes-lhe aquela frase que praticamente uma vida inteira desejaste dizer a alguém:
- Eu não sou quem tu pensas que eu sou.
E ele responde:
- Prazer em ver-te. 


Um castigo de mulher

Sentadinha na esplanada, curtindo a minha saborosa solidão do momento, único e irrepetível, como todos são, vejo-as passar, cada uma com uma trela, cada uma com um cão na outra ponta dela. Cães dóceis, jovens, com um comportamento normal — de cão. Já ouço uma das duas a ralhar — aquele timbre inconfundível de pratos metálicos a baterem uns nos outros, pautados pela palavra "castigo" — há uns segundos, o que me leva embora para todo o sempre um átomo de sossego, de forma absolutamente imperdoável. [Embora, se não fossem estas almas penadas das sombras da vida, eu não tivesse nada para escrever.] [Merci bien, les fantômes.]
Conheço-as a ambas de as ver passar, e de outros tempos também, em que os nossos — meus e delas — filhos coincidiram na mesma escola.
A voz de comando aproxima-se dos meus ouvidos, dirigida ao animal, que segue, irreverente, preso pelo pescoço:
- Estás de castigo. Deita aí já. E só não vais já para casa porque eu estou bem disposta. [Este era o tom, publicamente assumido, da pessoa no seu modo "bem disposta".] Deita!
Não satisfeita, porém, ainda vociferou para o desgraçado do animal da companheira de passeio canino:
- E tu também estás de castigo.
E eu, como eventualmente todas as humanas ali presentes, ficámos, também nós, imediatamente de castigo.

(Estas pessoas são mães.)
(Qual foi o momento em que quiseram ter um animal? Qual foi o momento em que se chatearam de o ter?)
(Diz-me como tratas os animais...)
(Tenho cada vez mais vontade de ter um cão. Só porque não tenho o direito de fazer um animal infeliz — falta de espaço, duas gatas parvas em casa, hiper-responsabilidade para a qual posso não estar preparada, impossibilidade de o levar para todo o lado e o terror de mais uma perda —, é que não tenho. Se não e senão, era já hoje.)

24/06/2017

É preciso tão pouco para me fazer feliz # 7

Há uns tempos não largos (estreitos, portanto), adquiri e, por conseguinte, tornei-me proprietária de pleno direito de duas saias na Benetton*, que, volvidos estes dias todos que passaram sobre o acontecimento, ainda hoje não consegui decidir de qual eu gosto mais, como o outro senhor dos dois amores.




De tal maneira que hoje, aproveitando o ensejo dos saldos/descontos/promoções, ou lá que borlas é que começaram (tudo serve de desculpa para a aquisição de traparia nova, até mesmo quando sabemos a priori que os 30% de hoje são os mesmos 30% de há um mês), lá me fui perder de amores por outras duas, quase iguais, o que, parecendo que não, só denota que:
1. Sou fiel às minhas tendências, apesar do leque;
2. Sou de ideias fixas, teimosias ou apenas convicções (mas sei que são férreas);
3. Sou monótona/previsível/chata cumá potassa;
4. Sei o que quero e já não vou em grupos;
5. Sei o que me fica bem, e é só isso que compro;
6. Tenho a PDM que sei o que me cai bem, posso estar cubicamente enganada, mas sou feliz assim;
7. Tenho um estilo muito pessoal, e honi soit qui mal y pense;
8. A minha moda sou eu que a faço;
9. Daqui a, máximo, cinco anos, vou detestar as minhas quatro lindinhas-Verão-2017;
10. Um dia, vou olhar para as pics de mim com elas vestidas e vou corar de vergonha, apagar as pics, rasgar/queimar/furar os olhos às que estiverem em papel. E depois vou comprar outras quatro. 


*NMPPI

23/06/2017

um copo cheio de amor

Existem refeições em que a comida, por muita que seja à mesa, parece nunca ser suficiente: ou porque alguém não lanchou, ou porque está tudo muito saboroso, ou porque está calor, ou porque as hormonas pedem, ou porque estamos todos cansados e a refeição nos aconchega, ou porque está a ser bom estar à mesa, ou até porque sim. 
Estava "só" eu e todos os filhos que pus no Mundo.
O sumo acabou logo que começou a refeição. Só havia para um copo, ele quis reparti-lo comigo, mas cedi-lho por inteiro, porque mais vale um copo cheio do que apenas meio cheio. (Não se considera a possibilidade de copos meio vazios.)
Era uma refeição de comida vegetariana, comprada fora. 
Uma pediu para ficar com um pouco da dose de tofu que havia de me calhar a mim, uma vez que tinha ficado com pouco e não come seitan. Cedi, dei-lhe a maior parte do "meu" tofu. 
Outra disse que estavam deliciosos os bolinhos [de não sei quê], e eu tinha um no prato. Disse-lhe que ficasse com ele, ela que não, eu que ficasse, ela que não. Então, falou ele:
- A mãe já não vai comer o bolinho, é melhor aceitares.
- Come, sim, não come porquê?
- Porque é mãe. — Disseram os olhos lindos e enormes do meu Henriquinho, que me matam as saudades só de olharem assim para mim. 
Estendeu-me então o copo dele, ainda cheio de sumo e amor, pegou no meu, ainda vazio de líquido, e disse que preferia beber água. 


Juro que isto não é uma provocação clubística

Eu só quero perceber.



22/06/2017

~

É por absoluta incapacidade minha — exclusivamente minha — que hoje — dia 22 de Junho —, sou incapaz de chorar os mortos de alguém, e é por isso que tenho passado o dia a rir, e é por isso que vou acabá-lo não sei como.
Amanhã já posso voltar a chorar os mortos de toda a gente.


Eu tenho problemas com médicos # 26

Fui ao dentista. Vergonhosa mas orgulhosamente, só vou uma vez por ano. Mentira, nem isso. Não preciso, nasci com dentes saudáveis, não há nada a fazer contra esta cruz, nem mastigando pedras, nem mastigando vidro (por acaso, nunca tentei). Desta vez, tinha uma prata — que eu ainda sou do tempo das amálgamas de prata (essas, sim, cheias de mercúrio, poluentes e sabe-se lá que mais outros perigos para a saúde pública em geral e para a do ser humano em particular) — rachada, que o dentista dos olhos bonitos achou por bem consertar, qual escultor, qual pedreiro. Para tanto, teve que me anestesiar a boca do lado esquerdo. O processo não foi minimamente doloroso, não fora o facto de me ter obrigado a ficar de boca aberta durante uma hora, o que me desmoeu o maxilar e por um nico não saí para a rua a parecer uma daquelas bonecas, só me faltavam mesmo os bracinhos no ar. No entanto, tanto o meu lábio superior, como o inferior, ao nível daquele lado, paralisaram a ponto de ter deixado de saber onde andavam, sequer se os tinha, ou se os deixara ir agarrados ao drone. Porque eu sei que foi um drone que ele me meteu boca adentro, e se andou a passear na minha cabeça, brrr-drrr-zrrr-prrr. No final da viagem, sentei-me, valentíssima e anestesiada até ao cerebelo, e desabafei: "Ufffa, ffftô fafffta de fftar calada". Depois levantei-me dali, lamentei não poder sorrir como deve ser (tipo de taxa arreganhada até aos molares — e já não até aos sisos porque já não os possuo), ele disse que não se notava nada (haha, boa piada, deve estar habituado ao povo que sai dali a sorrir só com metade da cara), e vim para a rua fazer figuras tristes (finalmente), porque quis beber água pela minha garrafinha, e, de facto, com meia boca, tal só é possível se também quisermos refrescar o colinho. 

(Por acaso, hoje não me apetecia esta coisa de me rir de mim, mas saiu isto, desculpem lá.)


20/06/2017

Estivemos todos tão perto

Nunca a expressão "calor assassino" me fez tanto sentido. 
A sala, arejada como possível, é o espelho de que algures, não muito longe, as brasas ainda encandescem, as chamas ainda lambem árvores, estradas, casas e, agora, gentes iguais a nós. Perdeu-se, sem deixar rasto, a noção de corrente de ar: não há como fazê-la, o que entra pelas frinchas é um bafo quente e impiedoso, um hálito demoníaco.
Estava aquela senhora velhinha, os olhos azuis numa aflição negra, pregados a pregos nas imagens, a atenção toda presa com ferros, suspensa por cinzas no cinzento do desconhecido, quando a enfermeira lhe chegou ao lado e lhe disse que não podia afligir-se assim. Foi num murmúrio daqueles que saem da alma das mães, que tanto e demasiadas vezes saiu da minha, que a ouvi responder, "Mas ele está lá metido naquele inferno".
Quando saí, debaixo de um céu azul que se fez cinzento como cinzas, olhei-o de olhos baixos e perguntei-Lhe outra vez: "Onde é que estás?".
Duas horas mais tarde, soube da morte do bombeiro e, se soubesse rezar, ter-Lhe-ia pedido que não fosse aquele. Como se aqueloutro não fosse, também ele, o filho muito amado de alguém.

19/06/2017

Remember my name


Recebi um presente bonito da Gina, do Dias duma Grafómana. Não fui a única, segundo aviso da própria, mas fui única no momento do flash, pois foi de mim, enquanto Blue, que ela se lembrou, ao disparar [verbo agressivo, que se aplica no contexto fotográfico, mas que se desenquadra nestas circunstâncias]. 
Blue está um pouco por todo o lado, não sei que moda se fez ou se sou eu que reparo mais, desde que adoptei este nick. 
Blue deveria estar muito por todo o lado. Muito mais do que está.
Hoje é o segundo dia de luto nacional, e faz falta muito mais azul. 

18/06/2017

"as mãos no fogo"

ou de como o alinhamento das notícias no cm continua a ser, ele próprio, uma tragédia

17/06/2017

sobrevivência

Ainda não são 10 da manhã e o termómetro já passou dos trinta há muito. A grande gaiola, contendo talvez duas dezenas de pássaros, está colocada junto à parede de um café, debaixo de um telheiro, mas o sol jorra-lhe adentro por toda a zona frontal. Apesar de tudo, parecem-me felizes. Há periquitos, bicos-de-lacre, canários e uma ave pequena, semelhante à rola (codorniz?), convivendo numa relativa e pacífica harmonia. Há muitos ninhos, muitas fêmeas a chocar, um periquito macho a alimentar duas crias que já estão enormes e têm bem idade para ter juízo. (Há pais que não vêem os filhos crescer.) Num poleiro, dois periquitos macho, ambos azuis, namoram, bonitos.
Reparo que não têm água para beber. O bebedouro está seco e existe uma taça de metal, igualmente vazia, no meio do chão da gaiola. O café abre dentro de minutos, mas, se ninguém se lembrar de ir imediatamente dar água aos animais, certamente morrerão todos, até porque nada me diz há quanto tempo estão sem beber. Tenho comigo uma garrafa de água de um litro e meio, que pode não chegar para um dia de praia de duas pessoas. Então, lembro-me que carrego também a minha inseparável garrafinha de meio litro. Abro uma portinhola e nenhum pássaro tenta a fuga. A minha mão entra na gaiola, puxa a taça, e encho-a de água até acima, ficando com menos de metade da garrafa pequena. Volto a colocar a taça e fico a assistir à alegria da sobrevivência, que também toma conta de mim.

xenoamor

O pai é japonês, a mãe é loira. Falam inglês entre si, língua que, provavelmente, descobriram como veículo de entendimento no topo da Torre de Babel. Ela é a japonesinha mais loira e mais linda que algum dia vi na vida. Calculo-lhe uns seis meses de idade e sei que não costumo errar por muito: já se senta muito bem e vocaliza monossílabos. No entanto, ainda está longe do tamanho e robustez dos oito meses, idade da pré-marcha. Acordo de manhã ao som dos sons dela e isso transporta-me para um tempo de saudades que não mais verei. É madrugada, mas era também de madrugada que os meus seis meses todos chamavam ma-ma. Nunca pesquisei sobre o assunto, pois sempre assumi como verdadeiro que a origem de mamã é mama, assim como de papá é papa. No entanto, para a minha japonesinha loira (que só não roubo porque nunca passaria por minha filha, que fique já aqui claro), cuja língua materna é aquela que os pais encontraram no topo da Torre, o que será ma-ma, que não seja mamma, entendível universalmente como mamã? Os bebés, eles sim, inventaram uma linguagem comum, espécie de esperanto, sem barreiras nem desentendimentos. E isto, com meia dúzia de palavras, mono e bissilábicas.

14/06/2017

É verdade que já não foi a minha primeira vez, mas caramba

Fui à praia. Já tinha ido este ano, mas não conta.
Até ia contente, a estrear um bik — embora, má ideia, branco sobre uma pele que ainda não é bege decente —, o percurso foi na paz, apesar de o estacionamento já ter envolvido algumas batalhas, porque eu acho sempre que o meu carro, assim como eu, não cabe em lado nenhum. Mas isso é problema meu. 
Bandeira amarela, mar de gentes a perder de vista, mas eu, ao contrário do carro — que tem a mania que não cabe em lado nenhum —, arranjo sempre lugar num cantinho qualquer invisível a olho nu, mas que, e talvez por isso, até oferece alguma invisibilidade à (quase) nudez em que me encontro. 
No caminho para o mar, meti o pé numa argola qualquer em forma de buraco, caí de gatas e doeu-me logo o orgulho, que ficou feridíssimo. Um joelho esfolado, sem dor, mas com ardor do mar salgado. (Se fosse o Cristiano Ronaldo, esse mesmo que agora parece querer povoar o Mundo mais do que eu, já estavam a accionar o seguro e a bombar na fisio, e cenas.) O pior foi a posição de rabo para o ar, ou melhor, para o povo. Então não podia ter caído no regresso, virada de frente para a plateia? Não, não podia. Isso era se fosse outra pessoa. 
Água gélida, mas o calor da vergonha ajuda à coragem, e vai de mergulhar. Tinha menos um brinco, quando emergi. Comprei-o em Olhos d'Água, uma localidade que o mais belo que tem é o nome. E também tem mar.
Crianças impacientes, pais desesperados. Uma miúda que quis porque sim jogar à bola nos escassos trinta centímetros que separavam a minha toalha da dos adultos que a acompanhavam. (Nunca percebo muito bem os parentescos de alguns grupos.) Uma outra que levou os pais ao limite, incapaz de lidar com os irmãos, e ainda se pôs aos berros, a chorar (?), porque, imagine-se, o pai a pôs de castigo. (Quieta e calada, deitada na toalha, olha a ofensa, olha a violência sobre a selvagenzinha.) Pus-me a pensar que "eles" dão muito trabalho quando são pequenos, mas nada se compara às guerras de nervos do final da infância e da pré-adolescência, que consegue ser mais requintada do que a própria adolescência. 

Em resumo: estacionamento difícil, bandeira amarela, mar de gente, queda, brinco perdido, ambiente incomodativo.
Cômputo geral: valeu tanto a pena. 


13/06/2017

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 50

Ponham-se no meu lugar.
Faz de conta que foram ao supermercado e compraram um queijo manchego. Chegaram a casa e o queijo não estava no saco das compras. Assumiram imediatamente que: 
1. O queijo caiu ao chão, ainda no supermercado, uma vez que vós não usastes carrinho nem cesto, e levastes as compras nas mãos, qual polvo;
2. O queijo ficou esquecido na plataforma, depois de pago.
Sabeis que não vos apetece voltar lá só por causa de um bocado de queijo.
(Tenho a protestar junto da administração do LIDL, aquela coisa de ter que se pagar parque para compras de valor inferior a vinte euros. Já uma vez tive que comprar uma saca plástica porque a minha conta era uma piada de € 19,94, e vá que os dez cêntimos da saca me pagavam largamente o parqueamento.)  
A cena do parque de estacionamento, do elevador, das filas intermináveis no LIDL, etecetera, é o bastante, assim a priori, para vos demover de lá ir reclamar um queijo esquecido, e, ainda assim, com uma alta probabilidade de ninguém se lembrar e vos mandarem chatear o Camões, ao invés de estarem ali a empatar quem trabalha. 
Olhem, não fui. 
Passou-se um dia. Cheios de coragem, fostes verificar a conta e, realmente, havíeis pago a coisa.
Passaram-se dois dias. Foram dois dias de calor, em que o interior do carro atingiu temperaturas de, vá, quarenta e alguns Celcius. (Então em Fahrenheit, upa, upa.)
O queijo apareceu no chão do carro, quarenta e oito horas volvidas sobre o seu desaparecimento. Um pouco derretido, molinho, mas impecável dentro da embalagem. 
Diz na etiqueta que é curado. E velho. 


Assumindo que está ainda mais curado e obviamente mais velho, a grande questão que se agiganta de per si no momento, é: se fossem vocês, comiam o queijo? E se não fossem?