21/09/2017

The girl next door # 12

Desta vez, o mesmo tabuleiro que já visitou a minha casa uma vez, veio cheio de uvas pretas. Existe uma possibilidade de serem a minha fruta favorita [e, como sou uma líder nata e inata, uma opinion maker, uma it (old) girl, é capaz de me aparecer já aqui uma multidão a dizer que "também a minha", mas é que não: ninguém gosta de uvas pretas como eu, eu quero ser única, irrepetível e ímpar nas minhas coisinhas]. Vá-se lá perceber como é que a vizinha adivinhou, ou então ele há mesmo coincidências, e, com a firme intenção de agradecer, eis que — apesar de querer ser aquelas coisas todas que disse agora, sou também altamente previsível — o devolvo com as mesmas bolachas da outra vez, só que com outro formato. 


Lembrei-me que a vizinha tem cães, e achei a ideia gira. Não sei se são dois cães ou duas cadelas, ou uma cadela e um cão, ou tudo junto, ou nada disso, mas considerei que aquela cena do azul e rosa também se podia aplicar aos animais, e só não quero é ferir susceptibilidades. 
(Se não gostar, pode sempre atirar-lhes os ossos. Literalmente.)

20/09/2017

Na senda de "Sou só eu?" # 8

que, quando vou a algum lado em que pressuponho que vou demorar, mas não posso, mas não quero, mas não devo, mas não nada, antes de sair, não faço chichi, bebo uma boa garrafada de água para encher ainda mais a bexiga e calço uns sapatos apertados?
Errr...
É para ir e vir mais depressa.

(Se virem uma senhora de idade aos pulinhos e a fazer uma estranha dança na rua, já sabem.)

Está bem, já percebi que, desta vez, sou mesmo só eu. 
Passo.

19/09/2017

Momentinho louro # 4

Telefona-me o responsável por uma das empresas que contactei, com vista à remodelação de uma casa-de-banho e do soalho todo cá do lar. 
(Por acaso, está a ser uma experiência irrepetível: das quatro que abordei, só para começar, duas já me mandaram mail a declinar, que é aquela manifestação de vontade operada pelas pessoas singulares e colectivas quando não lhes apetece. Uma, porque a minha obra não se enquadra nos parâmetros de grandes remodelações gerais lá deles — tipo Querido, encolhi o orçamento familiar? —, a outra foi um simplesmente não, não aceitamos a tua obra.) (Directamente para a categoria só-a-mim-não-me-saem-empregos-destes.)
Digo-lhe o que pretendo, em traços muito gerais, que os concretos pretendo traçar ao vivo, assim que ele me visite. Falamos mais especificamente da casa-de-banho, e, lá para o final da conversa, ele pergunta-me: Onde é que ela fica?
[Vamos fazer uma pausa.]
Preciso de explicar que não percebo nada de obras. 
...
Sei lá, podia ser importante a localização da casa-de-banho, imaginem que era ao lado da cozinha e isso interferia positivamente com o trânsito dos baldes de cimento.
...
E cenas de obras. Pás, e assim. 
...
E que, entre uma pergunta e uma resposta, via telemóvel, entre dois estranhos, decorre o quê? Um nico de segundo. 
Também não percebo nada de cérebro humano.
...
Não sei em quanto tempo se processa um raciocínio qualquer, quanto mais um raciocínio lógico. Sei que respondi assim
...
Olhe, o senhor entra, segue em frente, percorre um pequeno corredor com cerca de três metros, e encontra uma porta à sua direita, perpendicular a outras duas portas, onde ficam os quartos. É essa porta à direita...
[suspiro.]
Chiu.
Posso ter tido medo que o homem se perdesse e não conseguisse atinar com a porta da casa-de-banho a intervencionar, como eles dizem


18/09/2017

procura

Já lá não encontras nada, não é?
E ela fez que sim com a cabeça, os olhos vivos subitamente opacos da tristeza da perda. Que não, que não ia à missa por alma, nunca mais foi capaz de encontrar a amiga, que lhe está nas outras coisas todas da memória e do coração, mas não ali.
Também eu, procuro naquele lugar o que não encontro, mas vou sempre. 
Talvez se procurasse melhor, talvez se fosse mais vezes, ou talvez se desistisse, não saísse, como saio, com a renovada certeza de que acabou. Não localizo onde, nem quando, nem como, sei apenas que um dia — ou terá sido aos poucos, em vários dias —, perdi, e essa perda acompanha-me e leva-me lá uma e outra vez, e assim será enquanto continuar, mesmo sabendo, muito antes de ali entrar, o que não vou encontrar.
Também aquele pequeno animal, também ela, faz parte da minha procura. Vejo-a e sinto, por instantes, que reencontrei outra perda das minhas e que não recuperarei jamais. Ainda assim, pego-lhe, toco-lhe, sinto-lhe o calor do pequeno corpo, cheiro-a, quero-lhe ser próxima, desassossego-lhe o sono — sofregando por um amor que não voltará a ser. E, no entanto, mesmo sabendo que não, sei que está lá, e sei-o ali. Algures, eterno, também ele nas outras coisas todas da memória e do coração.




17/09/2017

Cheguei | Cheguei chegando, bagunçando a zorra toda | E que se dane, eu quero mais é que se exploda | Porque ninguém vai estragar meu dia

Começar o dia a ouvir isto. E a dançar isto.
Bom domingo, que eu também vou lutar por isso. Porque ninguém vai estragar meu dia. 🎶

 

Ai, é tão blogger da minha parte! Não é?
Parece assim o meu, um daqueles blogs da boa onda e motivação e auto-ajuda e coaching e cenas. Eu acho, pelo menos.

16/09/2017

Vinte e três, meu amor

E eu aqui sem palavras para o dia que é nosso, que me ofereceste tu naquele dia tão bonito.
Chegaste-me mansinha e pequenina, sequer me trouxeste um enjoo, uma náusea, um desejo, uma gula para contar. Transbordaste-me de alegria e bem-aventurança, mostrando-me o significado do amor eterno, da felicidade plena, da angústia da perda — que achava eu já conhecer, até esse dia em que soube que tu eras tu, e que vinhas para me ensinar tudo o que eu ainda não sabia da vida, que era exactamente tudo. Inauguraste-me o corpo, com essa tua maneira de estar nesta vida, tão delicada e sábia, alojada junto ao meu coração descompassado de ânsias de te saber bem, de te proteger, de te abraçar, como ainda hoje. Ensinaste-me a ser mãe (nem eu imaginava que era isto tudo), mostraste-me como cuidar de ti, consolaste-me todos os enganos e premiaste-me todas as conquistas, com o teu sorriso cândido e gargalhadinhas vindas de dentro, cheia de vida para me dares, muita mais do que eu te dei a ti. Ensinaste-me a ensinar-te a falar, a andar, a comer sozinha, depois a ler. Fizeste de mim uma mulher maior, e muito mais pequena por perceber a minha minúscula dimensão, perto do ser maravilhoso que, ainda hoje não sei como, fui eu que fiz.
Adoro-te, bichinha.


15/09/2017

LB também vê debates políticos na televisão

Eram três pares de olhos azuis. (Quatro, se contarmos com os do sapo.) Era um sapo. Era o terminal 3 do aeroporto numa testa. Era uma zebra. Era uma boneca insuflável a perder o ar, toda ela apitos e esganiços. Era um fóssil. Eram dois queixos numa cabeça. Era uma perua, com a hipófise hiperbólica e tudo. 
Não sei o que disseram, mas sei o que não disseram.
Avenida da República, blablabla. 
zzzzzzz...




14/09/2017

Quando tudo te grita 'Não saias de casa!' # 4

A pessoa humana predispôs-se a deslocar-se do ponto A ao ponto B, que era a Rua do Salitre. 
Tinha uma ideia vá que vaga de onde é que a dita ficava, mas, para ter a certeza e acertar nela à primeira aquando da abordagem, fui estudar. Mr. Google Maps confirmou que era para o Rato, e, sem roer a corda nem as unhas, foi assim que para lá me dirigi. Estava muito bem parada no semáforo, já no acima referido Largo, quando me assaltou à mão armada uma daquelas dúvidas típicas de quem está a fazer tudo bem mas não está habituado a isso: o Rato é uma rotunda, uma praça em rotunda, um intrincado cruzamento (a sério, senhores autarcas, quanto tabaco faltou meterem nisso antes de esboçarem os desenhos?), uma anedota arquitectónica ou um pedaço de mau caminho que nada tem do bom que a expressão encerra?
Sabia que tinha que fazer um ângulo de cento e oitenta graus (com o carro), mas avistava vários sentidos obrigatórios, e nenhum me parecia indicar aquele que eu queria tomar. Com cerca de escassos décimos de segundo para decidir o que fazer, pedi ajuda à GP-essa. No vosso caso, não sei, mas, no meu, trata-se de uma senhora de voz grave, com uma estranha dicção — estala-lhe saliva seca na garganta nas consoantes, coitada —, que chama "áquinta" à A5, e outros miminhos semelhantes. De dentro da caixa onde está amarrada, mandou-me virar à esquerda, e eu virei pela Av. Álvares Cabral acima. Ralhou-me então, "Recalcular a rota", assim, no infinito verbal, como que imperativo categórico, até parece que me toca a mim recalculá-la (então não devia dizer antes "Recalculando a rota"?), disse-me que invertesse lá para os lados do Jardim da Estrela, e eu obedeci. Alguns semáforos depois, mandou-me virar à direita e digamos que pensei que tinha chegado ao meu destino, e só faltava procurar lugar para Rosinha naquela rua em que aposto o meu braço direito em como não passa um carro de bombeiros. Afinal, não: por não ter digitado o número da porta pela qual pretendia entrar, dei comigo não sei quantos quarteirões abaixo, que a rua é estreita, mas é comprida, como eu já fui um dia. 
Fui até à Baixa, no fundo. Dei uma volta, passando pela Av. Liberdade, o que não foi nada libertador, pela Praça da Alegria, hahaha, digitei lá à senhora da dicção esquisita o número da porta que queria alcançar, fui ao Príncipe Real, isto realmente, desci por ali, virei acolari, andei por onde não faço ideia, sempre a obedecer à voz dos estalinhos, e cheguei. 
Pus Rosinha num lugar que não era bem um lugar, mas paguei o papelinho do coiso. 
Lá fui à minha vida, depois levei uma seca de um senhor que não se calava, que veio acompanhar-me à porta e me fez pensar que iria atrás de mim para casa, caso eu fosse a pé, disse-lhe que estava com pressa porque tinha o carro mal estacionado, e ele sugeriu-me ir buscá-lo para o estacionar logo ali onde estava a arengar-me o juízo, provavelmente para continuar a serrar presunto (dele, que eu cá não tenho disso), até eu apodrecer, pura e dura.
[Cada carraça.]
Hahaha para ele também, e para a minha vida, que é isto.


13/09/2017

Aquele discurso feminista por que todos — eu incluída — esperávamos

Tudo é suportável num homem. Enfim, há uma coisa (incorpórea) que não se aguenta.
É suportável que ele seja teimoso como uma mula, porque diz que um teimoso nunca teima sozinho. Isto inclui a fraca memória para ditos e feitos de que circunstancialmente se desmemoria, contra a memória de paquiderme que qualquer mulher tem para datas, locais, pessoas, indumentárias, até mesmo expressões faciais e entoações de voz. Não sei mesmo como é que a prova testemunhal não está confinada apenas às mulheres.
É suportável que ele conjugue os verbos partir e estragar sempre com o pronome oblíquo -seIsto partiu-se — e nunca Eu parti isto.
É suportável que ele conheça mil caminhos alternativos à óbvia linha recta que lhe apontamos para chegar do ponto A ao ponto B, se perca num deles e jamais pergunte a um estranho indicações para voltar ao eixo.
É suportável que ele fique à morte cada vez que espirra (e vê mosquitos brilhantes no ar, e estoiram-lhe os tímpanos, e a cabeça explode, e sente palpitações pré-enfarte, e as pernas falham-lhe, e sua).
É suportável que ele seja previsível, e que, se conjugarmos o estímulo A com o estímulo B, consigamos o resultado X, como aquilo de juntar dois fios eléctricos e ah, fazer-se luz.
É suportável que ele se ache graça, já tenha percebido que as mulheres preferem os que as fazem rir, e esteja algures numa destas categorias: i. O que tem graça e não sabe; ii. O que tem graça e sabe; iii. O que não tem graça e não sabe e insiste; iv. O que não tem graça e sabe e insiste (porque ainda não percebeu toda a dimensão do conceito de palhaço); v. O que não tem graça e sabe e não insiste (abençoado).
É (até) suportável que ele seja um mentiroso descarado, sobretudo quando se enaltece. Que mal vem daí ao mundo?
É suportável que ele tenha a melhor mãe do mundo.
É suportável que a ex seja a tal (e que nunca cheguemos a perceber como é que ela lhe escapou. Ingrata.) (Nem como é que ela engordou e descaiu daquela maneira, mas ele continua a suspirar por ela com dezoito anos, fresca e seca.)
É suportável que aquele lugar de estacionamento que nós indicamos, à sombra e sem espinhas, não seja o melhor para o seu amado espadalhão de 1999, e aquele outro, em cima da lama, à tangente de uma árvore e com um pombal de pigeons com desinteria mesmo por cima seja, esse sim, o lugar perfeito.
É suportável a neura pelas derrotas do clube, pelo patrão que é um cão, até mesmo pelo cão que não toma banho, pelo banho que não querem tomar. 
É suportável até a vaidade física, o espelho, a barba lisinha, a depilação, as sobrancelhas acertadas, a tatuagem, a roupa desnecessariamente reveladora, o andar gingão, o cabelo ridículo. 
Mas a vaidade intelectual, senhores, essa é que já é insuportável e imperdoável. 
Pior que um intelectual vaidoso, é um vaidoso intelectual, cheio de proa e pose, debitando sabedoria e cultura a cada frase.
Nós, mulheres, precisamos de um niquinho de futilidade, que nos deixem ser mulheres em paz.
Falo por todas.
Ó pá, deixem-nos (se não puderem amar-nos cá com os nossos defeitos todos), lindas e maravilhosas.


11/09/2017

Fui comer e trataram-me como uma menina

Outro dia fui jantar.
Calhou-me na rifa e pelo caminho a Hamburgueria Barrosã, que tem só os melhores hambúrgueres desta cidade e um serviço de excelência. 
(E não, ninguém me paga para isto.)
Os senhores que servem à mesa sabem servir à mesa, o que já não acontece — e repito antes de dizer — em lado nenhum. Desde indicarem a mesa, apontando discretamente para a cadeira onde eu me "deveria" sentar (em primeiro lugar, visto que era a única senhora), que é, como sabem, a cadeira que fica virada de frente para a porta, até terem o meu guardanapo em forma de flor (e o dele de barco), passando por me perguntarem o pedido em primeiro, até me servirem também primeiro, acabando no facto de a chávena do meu café ser cor-de-rosa, olhem, senti-me uma princesa, uma rainha, uma menina, uma mulher, uma senhora, enfim. 


E a carne é absolutamente deliciosa, confeccionada com primor, acabada com preocupação pelo cliente. A pergunta "Bem, médio ou mal passado?", com resposta "Pode vir quase cru", foi respeitada ao rigor, e lá dei uma de primitiva, que, vá-se lá perceber porquê, se a carne vier em sangue até me sabe melhor. Se dependesse de mim, nunca teríamos chegado sequer ao Paleolítico. E também admito não ser grande coisa como crítica gastronómica, pois basta estar com fome para que qualquer sola de sapato barrada a Tulicreme me pareça uma iguaria. Àquela pergunta "Se só pudesses comer uma coisa para o resto da tua vida, o que é que escolhias?", fico sempre a titubear hesitações, "caju", "amendoins", "leitão da Mealhada", "uvas pretas", "dióspiros", e não saímos disto. 
Mas esta carne, apesar de eu adorar vegetariano e peixe, e tudo — na verdade, não há nada de que não goste, excepção feita a fígados, sobretudo maus fígados, mas lá está, até isso, barrado a Tulicreme... —, é a carninha da minha infância, aquela a que minhas papilas se acostumaram, e não há como os sabores da dita. (Eu sou daquela geração do bife de vaca com batatas fritas e ovo a cavalo, e há coisas que nunca mudam.) Deliciosa (já disse?). 
(Ai, já ia outra vez.)

Não é suposto serem fotografias de alta qualidade. Eu não sou fotógrafa. Deixem-me.

09/09/2017

A bomba


Está a ser uma experiência como outra qualquer ter a máquina da louça avariada.
Sou uma cobaia. 
Por acaso, a máquina lembrou-se de lhe dar a travadinha cheia de louça lavada. Isto não é assim tão linear nem irrelevante, tendo em conta que as máquinas da roupa, quando lha dá, é cheias: cheias de roupa, cheias de espuma, cheias de água, que uma pessoa vê-se e deseja-se ardentemente para separar as águas (literalmente), e retirar a roupa — quando ela não encrava o botão da porta —, evitando inundar o chão, evitando fazer uma festa-surpresa da espuma em pleno lar (o que se revela desde logo impossível, e vai de montar na esfregona, qual bruxa das águas, e deixar alagar até ao infinito e mais além).
Agarrada ao manual de instruções, fui por ele esclarecida que aquele sinal vermelho e luminoso com o desenho de uma torneira significa que a bomba está entupida. Vai de procurar a entrada da bomba e — oh, surpresa! — o desenho não correspondia mas é que em nada a todas as tampas do interior da máquina, excluídas que estavam as do exterior. (As do exterior foram excluídas antes de meter todo o torso dentro dela, uma vez que nem sequer existiam.) (Excluí também a da entrada do sal, que essa conheço eu de ginjeira, de tanto salgá-la quando ela se põe insossa, a sonsa.) Retirei a tampa do filtro de rede, metendo as mãos profundamente enluvadas na água que provinha do esgoto (hum, que smell...), e não era essa. Depois pareceu-me que podia ser uma outra, redonda, que ali estava com ar de quem não tem nada para fazer, mas sequer consegui retirá-la, porque devia estar num dia não. (Ela, não eu.)
Bom, desisti. Chamei o técnico.
A entrada da bomba era debaixo da máquina. Teria que ter feito a bicha capotar, e não é que nem me ocorreu? Mas diz que o problema não é da bomba, ao contrário do que diz o manual, a internet, o meu instinto, e só falta mesmo estar lá escrito, em vez da torneira luminosa, tens a bomba entupida
O diabo que a carregue homem vem cá buscá-la para a semana. Depois estamos mais uns dias sem ela. 
Heh, que importa? Lavamos louça à mão. Cada um lava o seu prato e pronto.
Errr... 
E pronto. Vamos acreditar que vai ser assim. 
Por acaso, já pensei em meter a louça toda na máquina da roupa e ligá-la a 800 rotações por minuto, a ver se sai já seca e tudo. 
Não foi nada que não tivesse pensado ao contrário, quando aqui há meses avariou a máquina da louça: estendia as roupas muito esticadinhas nos tabuleiros, as meias e as cuecas no coiso dos talheres, e zás.
Chiu.



08/09/2017

Agora parece que sinto um certo apego pelas questões fracturantes

Aqui do local onde me encontro, com o mar aos pés e o sol na cabeça, eis que me meditabundo por sobre temas que, de outra forma, não fora o contexto estival, não meditabundaria. São os fenómenos que surgem anualmente, que pegam moda e ninguém (me) sabe explicar porquê. São eles três:
1. As mega-bóias em forma de flamingo. Hoje vi uma à venda por € 73,50. Não sei se me expliquei bem, se calhar ponho o extenso: setenta e três euros e cinquenta cêntimos. Pondero encomendar meia dúzia e avisar em casa que para o ano não vamos de férias porque não há dinheiro. Assim, a nu e cru e seco;
2. Os vendedores de bolas de Berlim, que vendem agora "bola com Nutella". Porquê? Quem é que lhes paga para isto? Por que é que a bola não está recheada, simplesmente, com chocolate? Isto atormenta-me, porque não sei se, para o ano, não passam a chamar "bola com banha de porco e ovo liofilizado" às bolas com creme. Deviam ser proibidos os eufemismos neste sector. Aliás, por mim, os vendedores deveriam apregoar o número exacto de calorias que uma bola tem, e avisar aos gritos que engordam. Honestidade acima de tudo;
3. As partes de baixo dos biquínis desta saison: quem diabos se lembrou de descer às profundezas da quinta subcave e ir buscar as cuecas da avó e as trouxe para a praia? Que fenómeno foi o deste ano, que a garotada entendeu tapar a barriga (que não tem), o umbigo, toda a pele até às costelas, repuxando aquilo até prender nas miudezas e exibindo o nalguedo todo? E ganharem juízo, destapando para cima o que falta tapar em baixo?

Por acaso, ainda me tira o sono mais um assunto, mas não sei se o exponho hoje.
...
...
[tamborilando]
...
Está bem, já que insistem: o que é aquilo de haver nadadores na praia e todos, sem excepção, se chamarem Salvador? Eu acho spé chique e spé crido, mas não há Bernardos, Fredericos, Tomááás?

07/09/2017

Hoje lembrei-me de ti, Pirata!



É uma chatice morar num bairro associal

Basta andar umas centenas de metros e, logo ao lado do meu bairro, existe um outro bairro — social — em que as passadeiras, especialmente junto das escolas, são elevadas. Isto serve para evitar que as pessoas sejam atropeladas. Ah.
Há também bairros, mais ou menos periféricos, onde as passadeiras são quase tão elevadas quanto os passeios, as ciclovias estão correctamente cuidadas, há aparelhos de ginástica e espaços verdes a perder de vista. São ainda sobredotados de pavilhões gimnodesportivos, que servem a comunidade escolar, campos de futebol imaculadamente relvados, passeios sem falhas no empedrado, nem cocó de cão paralelo-sim-paralelo-não,
[não têm cães? Apanham os cocós? Mas todos? Há alguma coisa que me escape em relação à cultura de apanhar merdum do chão?]
dizia eu, estradas devidamente alcatroadas, isto é, não abrem valas até ao centro da Terra quando chove, não "sofrem" com o desgaste dos pesados, as rachaduras do calor, a elevação das raízes das árvores, e por tudo e mais alguma coisa (tudo, menos a péssima construção ou o uso de materiais de má qualidade). E os espaços verdes lembram a Casa na Pradaria. [Não sei quanto ao cocó, Laura Ingalls jamais se pronunciou.]
Os munícipes que lá moram pagam mais impostos do que eu? Os fregueses daquelas Juntas pagam mais taxas do que eu? É que eu também queria passadeiras-muro à frente das escolas do meu bairro, passeios bonitos, uma ciclovia bem tratada e separada da estrada, um multidesportivo, jardins cuidados. E não parecer a Lady Di nos campos minados de Angola, de cada vez que ponho o pé (os dois, na verdade) no passeio. 
Em resumo: posso ainda não saber em quem vou votar, mas já sei em quem, com certeza, não vou votar. É um direito que me assiste.

06/09/2017

Aquela cadeirinha rosa e azul

Na última década do século passado, isto já noutro milénio também, pus no Mundo quatro pessoas. 
Sentava-os numa cadeirinha (auto; de transporte; espreguiçadeira) cuja forra — rosa, de riscas brancas — ficou encardida e depois surrada de tanto ser lavada pelo uso das duas primeiras. Quando chegou a terceira, forrei a forra com um forro cor-de-rosa escuro.


No ano seguinte, veio ele. Aquele forro da forra só tinha um ano e meio. Mas eu, teimosa e sexista, forrei-a de novo. De azul. 


Quando ele começou a deslocar-se — rebolando, arrastando-se, gatinhando, andando (por esta ordem) — existia em casa um quarto de brinquedos, em que mais de três quartos deles eram Barbies, casinhas e também mobiliário em miniatura, ou "à escala" (não só uma tábua de passar a ferro, mas também um pequeno escorrega onde dormi belas sestas enquanto grávida. Don't ask). Havia uma única bola, de pano, e alguns brinquedos de encaixe. Apesar daquela oferta toda, jamais o vi dirigir-se a uma das bonecas. Um desinteresse e um desprezo totais e genuínos, uma vez que, se o "problema" fosse aprendizagem e fenómenos de imitação, mais depressa compactuaria com as brincadeiras das irmãs do que brincaria sozinho.
[Então e se havia Barbies bonitas na minha casa, desde a Barbie do Escalpe (quase todas) à Barbie Decapitada (praticamente todas), à Barbie nua (rigorosamente todas), à Barbie Despenteada (basicamente, todas), com aqueles cabelos de ninho, que nem um rato com dois dedos de testa ali faria o seu.]
Só mais tarde é que começaram a aparecer os martelos e outro tipo de brinquedos "destinados a rapazes". Um dia, demos-lhe um tractor de plástico, que ele pedalou furiosamente por cima de toda a folha e soalho, até ao dia em que lhe desmontou o pedal, e nunca mais a geringonça andou para a frente nem para trás. Mas também nunca chorou uma lágrima por esse motivo, contra o vale que acontecia cada vez, de todas as vezes, que um pescoço das bonecas da Mattel se quebrava em dois.

[A sério, Mattel, vejam lá isso dos pescoços das loiras, que aquilo mais parece um truque para venderem mais bonecas.]


05/09/2017

É tão blogger da minha parte # 13

Taquei o olho gordo em cima desta imagem e quis tudo, que eu sou dessas que não podem ver nada.

Saber Viver, Setembro 2017
Enfim, não tudo-tudi-tudo. Quando li na legenda que o colete cinzento é um vestido, desisti da ideia. Tenho má experiência com vestidos de malha canelada: muito pesados, muito quentes, muito deformantes da silhueta. Enfim, posso sempre procurar... um colete cinzento. Também dispenso a menina.
Mas o camiseiro, mas os brincos, foi uma questão de desejo carnal, ou canibal, ou animal, ainda não decidi.
Se, quanto aos brincos, foi fácil, e já cá cantam dependurados pelas orelhas, quanto ao camiseiro tem sido uma saga para o possuir.
A revista só indicava a existência de uma Uterqüe*: a das Amoreiras. Lá o ser humano se despencou para as ditas, porém nas próprias só existiam os tamanhos S e L, e, adivinhem, a pessoa veste o M, como tooooooda a gente. Ainda experimentei o L, mas toda eu era tenda de campismo ou, se preferirem, pára-quedas com cabeça e braços, pelo que pedi um M para uma loja mais próxima de mim, já que acabara de tomar conhecimento que elas existem um pouco por todo o lado. Passados dias — coisa de quê? Quatro —, e como não me telefonassem e a capacidade para não ter o camiseiro comigo diminuísse hora a hora, desloquei-me. Ai, que não, que ainda não tinha chegado porque vinha do Porto, e parece que o entregador vem a pé. Que está bem, que espero mais uns dias, mas, à cautela, experimentei o S, e toda eu era um colete de forças com cabeça e braços à mostra. Capaz de asfixiar com aquilo, bom para autoflagelação, ou assim. Passou-se isto meia hora, venho na volta e toca o coiso. Atendo e diz-me uma voz assim para mim: "Senhora dona [Linda Blue], fala da Uterqüe*, é só para avisar a senhora que a sua saia de riscas já chegou".
Portanto, continuo à espera, pois já passaram vários dias — cerca de outros quatro, quem sabe — sobre este episódio traumático e ainda não me telefonaram a avisar que as minhas calças de bolas já lá estão, palhaços.

*Ninguém me paga para me calar.

03/09/2017

super mercado

Passaram por mim invisíveis, e ainda agora não sei como é que os vi, se mais ninguém, mas sei que os vi. Davam um ao outro o braço, o mesmo cuja mão arrastava um cesto de rodinhas, ainda vazio, e, com a outra, empurravam um carrinho de bebé, numa cadência de comboio cuja locomotiva, perdida e sem carvão, se encontra algures ali pelo meio, mas não certamente à frente. Semi-deitado, um rapazinho de cerca de dois anos dormia. Só os vi por estarmos num supermercado, eles serem tão idosos e a criança dormir tão profundamente — apesar da luz, apesar do som, apesar das hesitações no percurso, apesar de já não ter idade para dormir assim em condições assim. Depois reencontrei-os na caixa, o meu carro cheio de primeiras necessidades para um batalhão que as consumirá em poucos dias, o cesto deles leve, apesar do peso. E foi quando reparei que a ela lhe saía a aba de uma fralda pelo cós das calças legging pretas, tão velhas quanto ela, poídas e furadas numa das pernas. Ele tinha vestida uma camisa de xadrez sobre as calças de ganga, cuja fralda podia bem esconder igualmente essa outra fralda. A criança continuava a dormir daquela maneira desinocente que nunca deveria ser a do sono de um anjo. Não olhei para o conteúdo do cesto deles por pudor e cobardia, mas, essencialmente, porque tinha o coração despedaçado naquele momento.

#aindavoupararaostesourinhosdasautarquicas # 2

Decidam vocês.
Está foleiro?
Pois está, mas eu também nunca disse que era para ficar xik, phyno ou ileganth.



01/09/2017

#aindavoupararaostesourinhosdasautarquicas

Primeiro draft do meu header novo.
Sei que pronto, é só o primeiro.


Todas as imagens abafadas da nettinha, excepção feita ao fundo (pic do fundo actual, metida num daqueles filtros tipo centrifugadora) e àquela actriz de Hollywood a sair da linha do horizonte (que fotografei ao vivo, visto que mora na minha rua).

31/08/2017

17, meu amor

Estavas a contar-me uma anedota, ou uma história com graça, porque me fazes rir e sabes que eu me rio sempre e tão facilmente de te ver rir, os olhos tão lindos marejados e a voz a enrouquecer de gozo, depois desmancho-me toda e marejo eu os meus na rouquidão das gargalhadas, e disseste
Agora esqueci-me da parte mais engraçada da história.
Tão eu, meu filho. Tão eu. Tão meu filho.
Isso acontece-me recorrentemente. É tão boa a piada, como se nos fizesse cócegas enquanto a contamos, mas depois deixa de importar por que nos rimos, é indiferente o remate que lhe dá sentido, precisamente aquele que nos escapa da memória, os outros especados, à espera de uma conclusão lógica ou cómica, e nós naquela perdição, 
Espera lá, como é que era?
Pode ser por isso que me rio tanto das tuas histórias com graça, por as ouvir exactamente como se fosse eu a contá-las, ou por gostar tanto de ti.
Já rimos juntos há dezassete anos. Mais nove meses.
Juntos.


30/08/2017

And that awkward moment # 39

em que vais ali a passar acompanhada, e surge uma ela, que tu não conheces de lado algum, nem nunca viste mais gorda, quanto mais mais magra, que se vos dirige enfatica e entusiasticamente, vinda lá dos confins de um restaurante, ainda de tabuleiro na mão e avental no regaço, espeta dois beijos nele, dois beijos em ti [vá, perdoas, porque o conhece a ele e essa ordem de factores permite-lhe ganhar tempo para serem apresentadas uma à outra], toda ela arfante, luminosa de calor, cheiro a óleo de fritar num belo cabelo louro de ondas cerradas preso num rabo de cavalo selvagem, moldura de olhos âmbar, aquela cor que ninguém tem, e o brilho deles, a pele tisnada de tanto sol e ralações de Inverno, a boca crispada num desabafo profundo, a desbobinar o filme da parte mais ou menos bonita da sua vida num imprevisto relâmpago, que o Paulo — que ambos conhecemos — é o homem da sua vida, que gosta dele desde a faculdade, depois casou, depois enviuvou, depois reencontrou-o e percebeu que ele é que é para sempre, que deixou de lhe atender o telefone, que não lhe responde às mensagens, que viveu com ele três anos e agora é como se não a conhecesse,
— e faz pausa diante da nossa incredulidade e balbucios, e depois larga a bomba —,
Mas o que é que ele quer? Eu até pensei em suicidar-me!
Nós não passamos do monossílabo, de escancarar bocas e olhos e que sim com as cabeças, mais dois beijinhos a cada um e até sempre.

Vamos lá a ver, qualquer um de nós tem dias em que acha que a vida é uma merda. Uma visita ao Alcoitão e passava-nos muita cena.
Mas a sério, tolerância zero para o povo que ameaça e publicita e alardeia. Se querem fazê-la, façam-na, mas calem-se. Ou, em alternativa, ide voluntariar-vos para o IPO, que isso vos passa tudo. 


28/08/2017

Completamente a perder a paciência para isto

penso dedicar-me, nos próximos minutos horas dias semanas meses anos tempos, à elaboração de um header.
Sem inspiração.
Com expiração. 

27/08/2017

Vocês não sei

mas eu vejo polícias por todo o lado. Polícia Municipal, P.S.P., e ontem também Polícia de Intervenção. Lisboa menina e moça, armada até aos dentes. Era suposto sentir-me segura.

26/08/2017

Odioga

[Odiei o ioga]
(Vá lá, não me obriguem a ir pesquisar considerações de género, O ioga ou A ioga, nem de variações em ré menor, Ioga ou Yoga, que eu sou uma ignorante assumida e feliz com isso, e não tarda começo a fazer associações de ideias com iogurtes e aquela marca que, se não aproveitou o nome, então é porque, afinal, ele há coincidências, e sorry ó MRP.)



Porque mantenho alguma verticalidade nisto tudo, quis ir a uma — nem que fosse a última —, aula de dança com o professor do ginásio que estou em vias de abandonar. Experimentei uma aula no novo, e, se decidisse puramente pela aula em si, ficava no antigo. É tudo uma questão de swing: ele tem, ela (instrutora no novo) não tem. Um destes dias explico isto.
Pela segunda vez consecutiva desde que foi de férias, o bom do mestre fez-se substituir por uma "colega", e eu, temendo outra experiência nefanda, enfiei pela sala ao lado, onde se instruía ioga. 
Achava eu que ioga era só a pessoa descalçar-se, sentar-se no chão de pernas entrelaçadas, abrir os braços com os deditos polegar e indicador unidos em arco, e vai de meditar de olhos fechados. (Não que me apetecesse muito, sobretudo em alternativa a dançar, mas estava mesmo a precisar de relaxar de ser eu, pelo que me pareceu giro experimentar.) E até foi assim, nos primeiros dez minutos. 
Depois desse (não!) aquecimento, começaram os exercícios de equilíbrio, aqueles que parecem fáceis à vista do sofá: pé no chão com o outro no ar, de olhos fechados (ainda gemi que tenho o pé chato, só para justificar a aparente cadela com que não me encontrava); pé no chão, faz o avião, de olhos fechados (esta, vá lá que ainda foi possível, embora tenha ali havido uma altura em que me pareceu que ia aterrar de cockpit no soalho); acocora, joelhos afastados, sem usar as mãos no chão, de olhos fechados (hahaha, sem usar as mãos no chão...); as duas mãos no chão, cotovelo no abdómen, levanta as duas pernas no ar (nem perguntei se era de olhos fechados, pois não ergui um único pé do solo, quanto mais as duas pernas); pino de cabeça ou arado, de olhos fechados (fiz o arado, já não faço o pino de cabeça há demasiadas semanas meses anos décadas para arriscar finar-me ali do pescoço e não conseguir explicar em casa por que é que tinham que passar a mudar-me as fraldas e a dar-me as papinhas à boca todos os dias para o resto dos meus). Isto, só para exemplo. 
Ou seja, ioga é meditar + prática de exercícios de extrema violência sem qualquer espécie de aquecimento. 
Disse "até amanhã" à professora, mas, na verdade, mentalmente foi um "até nunca". O-di-ei.



23/08/2017

Borboletas na barriga

Era um corpo nu e abandonado, aquele que se encontrava de costas voltadas para mim. Pálido, flácido, grumoso, há muito perdidas as formas femininas: anca quadrada, nádegas achatadas, ausência de cintura, pregas de pele em excesso na linha do soutien, pernas de contorno desalinhado. Avaliei-a para sessenta anos. Entrevia-lhe o peito descaído, a curvatura dos ombros desolada. Um ligeiro virar de cabeça permitiu-me vislumbrar-lhe parte do rosto, que desmentia o conjunto e revelava talvez quarenta anos. Na maior das várias barrigas dependuradas, surgiu então a tatuagem lisa, leve, linda, de uma borboleta. Havia qualquer coisa de muito belo num corpo descuidado, mas não desistente, numa barriga triste, apesar de resistente, onde ainda paira — e quem sabe que voos fará —, pelo menos, uma borboleta.

22/08/2017

Eu tenho problemas com tudo # 27

Ponham-se outra vez no meu lugar.
De vez em quando, a vida coloca-me nestas encruzilhadas, a mim, que nunca topei lá muito bem com o Y. 
Neste momento, gimnasticamente falando, estou como aquelas pessoas que chegam à fronteira entre dois países, colocam um pé num e o outro noutro, e tiram um retrato não sei para quê: estou inscrita em dois ginásios, não interessa como, embora possa adiantar que um dia acordei assim: biginásia. 
O que me prende, actualmente, ao mais antigo, é a dança. Neste momento, há uma única aula por semana, o que é pouco (especialmente quando, como na semana passada, o professor se faz substituir por uma chavaleca que julga que está no Farwest e passa cinquenta minutos, que afinal foram sessenta, a dar gritos de cowboy, aos pulos, e a sugerir "Improvisem!", ou "Quero que dêem murros no ar, como se fosse a alguém que detestam, que isto agora é uma dança combat" — tudo isto em vez de dançar. E eu já não tenho idade para aturar pitas tontas).
Ora, o novo tem sete — sete! — aulas semanais. 
Não querendo ser a Judas Iscariotes dos ginásios, das manicures e dos cabeleireiros, mas também não tendo rigorosamente apetite nenhum para andar a pagar a dobrar, tão pouco ter que fazer uma elástica ginástica mental e automobilística para conseguir frequentar os dois, põe-se-me agora o problema, gizado nos seguintes moldes: vou experimentar as aulas de dança deste outro e depois tomo uma decisão.
[Estarei a empurrar  o problema com a barriga, aquela mesma que uma pessoa humana vai ali abater (se pudesse, a tiros) a abdominais? Sim, estou.]
Se gostar mais do novo, logo se vêem as capacidades que o primeiro tem para me segurar ali, pasito a pasito. Se não, é que é o caraças.

21/08/2017

Ela fala tanto # 18

e faz tão pouco. É o que parece.
Agora encontra-se de férias, quem sabe a banhos. 
Eu entretenho as minhas horas não vagas a fazer máquinas de roupa diárias várias, um tambor com capacidade para sete quilos, vinte e um metros de corda sempre cheios, dezenas de molas, mais de metade para dobrar directamente, a restante para passar a ferro. Entre o lava-estende-recolhe-separa-dobra, esvaem-se-me as forças para passar, sobretudo camisas e lençóis de (cinco) cama(s). [Por sorte, dois de nós dormimos na mesma; se não, seriam seis.] Socorro(!)-me da mesma empresa de engomadoria que me vale nestas horas difíceis, e que me vende um pacote de sessenta peças por um balúrdio, mas eu estou capaz de dar um rim para me livrar daquele cesto, quanto mais uns míseros milhares de cêntimos. Arrebanho o mais urgente (quase tudo), rapidamente somo cinquenta peças e sigo para a empresa salvadora, a uns metros de casa. Pouso o pesadíssimo em cima do balcão e toda eu sou água desmicelar, vulgo sudação. E desabafo o que, efectivamente, me vai na alma:
- A roupa é o maior stress de qualquer dona de casa. Entre o lava, estende, recolhe, separa, dobra e passa, há um processo que nos desgasta e derrota. Estou tão cansada que, agora que aqui cheguei, a única coisa que era capaz de me dar alguma paz, era passar essa roupa toda a ferro. — Porque, não sei se já aqui disse alguma vez, para mim, passar a ferro é uma terapia ocupacional, um rage turn off, uma entrada em zen. Porém, não posso ter mais nada para fazer, e isso é coisa que quase nunca acontece.
Ainda me parece que ela faz tão pouco?
Olhem, eu não lhe dou o seu devido valor.
E ninguém me dá a mim o meu. 

É preciso tão pouco para me fazer feliz # 10

20/08/2017

Ai-fostes também não me tem em grande conta # 3

Corrige-me constantemente a conjunção e para o verbo ser, no presente do indicativo, terceira pessoa do singular. As minhas frases passam a ter outro sabor, outra cor, outra luz, outro som. Por exemplo, se escrever "O amarelo e o azul", ele corrige para "O amarelo é o azul". É bonito, em termos gráficos, para além de me fazer passar por analfabeta.

[Ontem ainda ma fez mais graciosa: em resposta a um comentário cá do buraco, substituiu cada vez menos por cada vês menos. É isso, não vejo nada antes de enviar/publicar.]

(Lágrimas de sangre.)

19/08/2017

Na senda de "Sou só eu?" # 7

a quem foi pedido, como "recordação das tuas férias, que é sempre o que eu peço a toda a gente: um íman para o meu frigorífico", que fui até criteriosa e escolhi, de entre dezenas, um alusivo, alegórico, e o menos parolo possível, mas que respeitasse a vieille tendance da pessoa em questão, que lho entreguei num minúsculo embrulhinho, pode-se dizer que feliz da vida (o pacote e eu própria), que já estranhei o facto de ela não se lembrar do pedido e também de não se surpreender com a efectiva resposta a ele [serei assim tão (agradavelmente) previsível?], que estive com ela por bem uma hora e meia, e, durante esse tempo, sequer mencionou a oferta, quanto mais desembrulhá-la, e isso me entristeceu um nico?

E agora, que passaram três dias sobre o "assunto", que ela podia ter mandado mensagem e não o fez, cada vez que penso nisso, fico mais um nico chateada, contrariada, surpreendida?
E que, qual agraciada-laureada, já preparei o discurso de não-agradecimento? "Chegaste a abrir a lembrança que te trouxe de férias? É que, como não disseste nada, pensei que nem tinhas desembrulhado".
Antes lacónica e cabra do que a parva de serviço, lá diz o povo. Ai, não diz? Digo eu, então. E eu sou O povo, como o outro era l'État. Pelo menos, cá no meu perímetro (cefálico). C'est moi.


18/08/2017

Foi tão blogger da parte dela

A loja apertadinha, eu no expositor de biquínis e fatos-de-banho, a fazer tempo, aquele conceito de espera que marca o compasso, enquanto aguardava por quem esperei, efectivamente, nove meses.
Trazia com ela um gigantesco trólei rosa-shock, chocando com a vista, onde berravam letras brancas e maiúsculas, "KEEP CALM AND GO SHOPPING", toda ela nervos e impaciência ao balcão, enquanto pagava. O carro de compras shopping chocante chocou com as minhas pernas quando pretendeu ir-se dali, e nem um sussurrado pedido de desculpas, antes um estalido com a saliva, pois que contratempo encontrar um obstáculo, ainda por cima humano, a tão prática e ligeira viatura sem motor. Fiquei a vê-la afastar-se, calças alapadas a alguns quilinhos a mais, cabelo lisíssimo a prancha, fita de cor matchi com o carro, laço no topo, e imaginei que iria, com certeza, a correr para o portátil, abrir o blog fashionerer e debitar conselhos de beleza e savoir faire a quem pudesse estar do outro lado. Pele branca sem sol, podia ter deixado uma nuvem negra sobre mim, mas ainda é preciso muito mais do que uma estranha sem noção para que o fenómeno se dê.
Um piso abaixo, minutos depois, dada a informação que me solicitou, o dedo negro de outra desconhecida, reconhecida - e só talvez por isso - percorria-me na vertical de alto a baixo, e da boca de ébano saía "Lucky you". Podia ter deixado uma nuvem branca sobre mim, mas foi um sol que derreteu a outra, sem deixar marcas do choque.


17/08/2017

Agora sim, o Mundo está dividido em duas metades

A dos que — como, obviamente, eu — sentiram o abalo, e a dos que não. 
Sugiro que nos tatuemos, ou — para aqueles que temem a dor, o sangue, a agulha, o definitivo —, mandemos imprimir t-shirts com a frase que nos distingue de todo o resto.


16/08/2017

And that awkward moment # 38

em que te cai o queixo aos pés e já não o consegues içar por forma a que se reúna com o maxilar superior?

Sais do mar ao teu melhor estilo, cabelos escorrendo sal e água gelada purificadora, um céu azul de doer, a praia com areal a perder de vista, ainda por cima pouco populosa para o dia que era, um feriado a meio de Agosto, numa qualquer praia dos arrabaldes desta capital europeia, calor do bom que não queima mas dá cor (assim uma entaladelazinha em termos culinários, vá), e te aparece no campo de visão a visão de uma mulher que conheces, mas não localizas logo. Ela vem de mamaçal à vela, aquilo do topless, e está com um dos braços a rodear o ombro de outra mulher, ambas íntimas assim uma da outra. 
E então, faz-se-te luz e não só reconheces a das mamas de fora, como também a localizas no espaço e no tempo.


E elas abraçam-se e beijam-se mutuamente os respectivos pescoços.


Então, tu passas a uma distância razoável, a suficiente para não interromperes o enlevo sexo-amoroso que as enrola, mas bastante para que consigas confirmar que ela é ela.

E é então quando reconheces a outra. 


[E, antes que me caiam aqui os homofriends todos (vinde, vinde, que tem até chicotinho), faço já o disclaimer que acredito no amor, que considero que cada um leva onde mais lhe dá gozo, que todos temos direito a ser felizes, que ninguém tem nada a ver com isso, and beca.]

Chocada? Não.
Não com isso que estais a pensar.
Mas minha incredulidade, se é que me é permitido explaná-la, advém de alguns factos a latere.
1. O facto de uma ser patroa da outra, logo a outra ser empregada de uma;
2. O facto de uma alardear a sua heterossexualidade como quem hasteia uma bandeira;
3. Uma ser a pessoa mais alpinista social, mais aspirante a thia, mais preocupada com a aparência, mais focada no bom gosto, na distinção, num certo apuramento artístico (apesar de le resvalar o pronome lhe constantemente e de errar intermitentemente na terminação de alguns verbos), e a outra ser a antítese física de tudo o que uma pessoa assim quer num homem, quanto mais noutra mulher. (E — oh, desculpem! — eu sou uma anormal animal, que entende que as relações amorosas passam por qualquer coisa de muito físico: no pica, no affair.);
4. As carradas de celulite, como bem observou minha sis;
5. Tudo nelas, aquilo da bota com a perdigota.

Vim-me embora no momento em que a uma tirou o top do biquíni dela e desatou a correr pela praia atrás do homem das bolas, um tal de Zuca, que apregoa as suas bolas em rima. Mulher bonita não vai pagar, mas também não vai levar. 

Se a minha vida não dava um filme de David Lynch, então também não sei para o que é que dava.


15/08/2017

Beijinho bom

para a pessoa que me desejou bom feriado às 10 da noite.
[Mete mais tabaco nisso.]

14/08/2017

The girl next door # 11

Isto também podia chamar-se And that awkward moment, mas foi tão micro que nem merece o título. Ou então, Eu tenho problemas com doidos, por tudo. Ou, em alternativa, As lágrimas amargas de Petra Von Kant, sei lá porquê.

Tenho-lhes aturado tudo, só porque moramos sob o mesmo tecto. Mais valia morarmos sobre.
No meu andar, porém atrás de outra porta, moram mãe (viúva) e duas filhas adultas. Sempre todas vestidas de negro, não falam, não respondem, sequer dialogam umas com as outras na rua, marcham, lentas e pastelonas, em fila indiana, não acendem as luzes do prédio, movem-se pela sombra, que não fazem, pois serão, elas próprias, sombras de si mesmas. Mas eu não desisto de entabular.
Coincidimos no hall dos elevadores, ela tinha a porta aberta e assomava-se de lá um gato. E disse eu assim:
- Ohhh, que bonita. É uma gata?
- Não, é um menino.


Ora, vamos lá a ver: não foi isso que eu perguntei. Não é que eu tenha alguma coisa contra chamar menino ou menina aos animais. Mas, quando perguntei se era uma gata, queria saber se era uma fêmea de gato. Mal comparando, esta numenclatura está para mim como a esposa está para a mulher. Quando ouço alguém falar-me da sua esposa [alerta parolo], também não lhe respondo a sua mulher, sob pena de ofender superiormente os pergaminhos do esposo. No fundo, albardo o burro à vontade do dono. Se eu perguntei É uma gata?, e ela me respondeu Não, é um menino, com a mesma legitimidade e razão de lógica poderia ter respondido Não, é uma vaca. Ou então, Não, é um boi.
Compreendem?
Eu também não. Principalmente porque depois faço associações mais ou menos (in)felizes.

José Eduardo Agualusa
[Eu sei que já postei esta história. Tende lá paciência, que eu também tenho que ter.]

13/08/2017

amigos

Sentámo-nos à mesma mesa, e ali fiquei a vê-lo, demasiado gordo, os olhos a saltarem para fora das órbitas, a dar a refeição à boca do amigo, preso a uma cadeira de rodas há mais de vinte anos. Garfada atrás de garfada de uma pizza cheia de cebola, Agora vais beber cerveja, e o Gonçalo — assim se chama o amigo dele —, já incapaz de emitir qualquer som, de sorriso fácil e quase constante em vez de palavras, que sim, que sim com a cabeça, devia ser Dá cá a cerveja
Estamos todos na fase em que se instalam as mazelas da passagem do tempo: rugas, papos, e também maleitas chatas, umas piores, outras assim-assim. É agora que uma má genética, conjugada com não melhores hábitos, dá mostras das suas irreversíveis capacidades destrutivas. Assim lhe calhou na má sorte uma afecção da tiróide, que, de entre outras "coisas", faz com que os globos oculares se tornem proeminentes e ameacem sair do encaixe da caveira a todo o momento. E só não literalmente porque se submeteu há pouco a uma cirurgia, que, segundo lhe profeciou o médico, há-de reverter o processo. Para já, não estão à vista alterações. Continua a comer desalmadamente, ele que nunca foi magro, mas seria o mesmo homem com menos quarenta e cinco quilos. Também nunca foi bonito, mas fazia sucesso entre as raparigas, atencioso e pinga-amores que era. Namorou duas mãos cheias delas, casou com uma das mais bonitas que algum dia vi.
Falamos de Verão, levamos a conversa até à praia, enterramos as palavras, como pés, na areia. Lembro-me de dizer que, ao pino do calor, a areia não está a menos de cinquenta graus, o que faz com que seja insuportável andar sobre ela sem calçado. É então que ele, que apenas responde ao "assunto" areia quente, diz esta coisa extraordinária: 
- Quando o Gonçalo ainda estava de muletas, eu levava-o às costas, preso pelos braços nos meus ombros, até à praia. Deve ser verdade o que tu dizes, porque houve um dia em que, naquele percurso, ia a sentir os pés mais quentes do que o costume, e, quando o pousei na toalha, é que vi que tinha ficado sem pele nas duas plantas dos pés. 
Ficaram então tão bonitos, os olhos dele, iluminados com as cores da amizade feita amor — mesmo assim, saídos das órbitas, mesmo naquela cara de corpo gordíssimo. 

11/08/2017

Ai-fostes também não me tem em grande conta # 2

Quis publicar uma imagem ilustrativa [alerta redundância] do meu post anterior. Porém, Ai-fostes, acometido de uma má net, derivados de estar demasiado próximo do mar [se esse conceito existisse], não mo permitiu. O quartel-general onde estava instalado o router do pólo onde me acampei era demasiado longe [e cem metros pode ser um conceito interpretável como demasiado longe] para que me deslocasse, metesse pic condicente e voltasse para a boa barraca, pelo que só hoje, regressada e ressabiada, com cara de fim de férias, aqui a publico.
Sem filtros, como tudo em mim.
Já não se trata de uma tentativa de meter nojo, pois que até a mim mesma, ao contemplá-la, agora, a esta distância [duzentos e oitenta e cinco quilómetros, vírgula — após vírgula simbólica — três, pode considerar-se demasiado longe] e sob este prisma (pesadíssimo), a imagem mete nojo, e inveja, e drama, e já saudades, e só coisas feias — não fora ela tão linda.


Diz que Não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe. O povo é quem mais ordenha. 
E amanhã é outro dia, lá dizia a outra dos ventos. 
Adeus, que agora vou ali pôr-me em posição fetal e encher-me de baba até me passar a fase da raiva.
[A ver se agora alguém aqui vem desejar-me "Boas não-férias".]


09/08/2017

Queria fartar-me disto

Do bebé que chora ao meio-dia, e depois à uma, e também às quatro, gritando a plenos pulmões, escancarando alvéolos ao vento, denunciando a superior ignorância dos pais;
Da mulher que descobre ao léu e à vela o busto feio e comido pelas horas dos dias e mastigado pela vida;
Da filha da mesma mulher, que, quando ambas decidiram meter-se numa praia sossegada, de gentes silenciosas que só pedem para ouvir o estrondoso silêncio do mar, e até mesmo do vento, resolve fazer uma chamada de telemóvel e regressa à origem da qual nunca (deveria ter) saí(do)u, e brama termos cheios de asteriscos na linguagem das pessoas que a rodeiam;
Da família que veio de muito longe, na furgoneta, alugou três colmos que se ladeiam, eles de barba, óculos de sol, tatuagens e depilações hipster suburbano, alguns com panças incriminadoras, elas de excessivamente reduzidos biquínis e nuances sobre cabelo amarelo sobre raíz preta, as crianças obesas a responder por Enzo. E William;
Dos guarda-sóis publicitários, oferecidos pelo dono do café central lá da vila, em não sendo, eles próprios, o dono do café central lá da vila;
Do senhor encarregado da cobrança dos colmos, que entendeu dirigir-se a mim como se eu fosse uma catraia que lhe acha um piadão.
Queria fartar-me disto. Mas tenho escassas quarenta e oito horas para gozar o acordar com o mar azul e verde a vinte metros do olhar, mas, egoistamente, estou pronta para dar a vida para que se transformem em quarenta e oito anos.


08/08/2017

And that awkward moment # 37

[sim, ultimamente, a minha vida está pejada destes momentos, quiçá porque a awkward sou eu.]

Estávamos distribuídos por três quartos, dois lado a lado, o terceiro frente ao nosso. Deu-se que fui à recepção do hotel sozinha, e definitivamente ou, pelo menos, provavelmente, serei pessoa que deve evitar andar desacompanhada em determinadas circunstâncias. [Eu vivo sempre no mundo da lua, tenho alma de artista, sou um génio sonhador e romântica.]
Subi pelo elevador, dirigi-me para o quarto, bati à porta (se tudo não seria muito mais simples nesta minha existência terrena se tivesse levado o cartão? Seria, mas, por outro lado, a esta hora, não estaria aqui a desabafar cenas), e ele não abriu. Foi então que vi um homem a bater à porta do quarto das minhas filhas. Isto, eram umas 11 da madrugada. Entre o revoltada e o surpresa, entabulei, solícita, porém:
- Este es l'habitación de mis hijas.
- Estás equivocada, no es.
- Ustede  está equivocado. San mis hijas que están aí dentro.
- No, es una signora con una criança, y están me esperando.
- Mis hijas, lo garanto.
- Entonces, abre tu la puerta.
- Mas no tengo la tarjeta...
E nisto, bato à porta daquele quarto e, como ninguém me respondesse, esclareci o cidadão espanhol:
- Se fueran a tomar el desayuno.
Ele olhava-me com aquela incredulidade com que se olha um louco que, todavia, não tem cara de louco. Acho.
Entretanto, impaciente, mas não desesperada, convicta, mas não baralhada, resolvi angariar reforços, batendo à porta do meu quarto com mais força, clamando por cônjuge. Foi quando ouvi a água do duche a correr. Mas nem assim desarmei:
- Tu não me digas que te puseste a tomar banho a esta hora!?
Responde-me então uma voz feminina lá de dentro, do meu quarto.
E não é que nem me ocorreu que o homem podia ter arranjado outra, que até já estivesse a tomar duche, enquanto o diabo esfrega um olho (haha, esta expressão neste contexto!), ou enquanto eu ia e voltava da recepção, três pisos abaixo dali?
Caiu-me a ficha, como diz o povo. Acabou o jogo, desliguei da corrente. Algo de muito errado estava a acontecer. Ou o espanhol ou eu, encontrávamo-nos, desencontrados, numa realidade paralela.
Encostada à parede do corredor, olhei o número do quarto, que devia ser 315.
"215".
Num longo e disfarçadíssimo suspiro, baixei a cabeça, agora sim, confusa, surpresa, envergonhada, fechei os olhos um brevíssimo segundo, e, confirmando as suspeitas do homem, soltei uma sonora gargalhada, exclamando:
- Hah, enganei-me no andar!
E saí a correr, corredor afora.


07/08/2017

And that awkward moment # 36

em que acordas bem disposta, diz que esta vida são dois dias, o Carnaval são três, e as férias duram a soma dos dois, vezes dois, e mais um nico, e há que aproveitar tudo como se, efectivamente, não houvesse amanhã, até porque pode mesmo não haver. Arrastas a varina havaiana pela passadeira de estacas, toda tu és sol e vida e boa onda, maior e melhor do que as que os teus olhos têm diante. Tagarelas como uma criança excitada, como se carregasses baldes e pás que te construirão sonhos reais e tão efémeros como quaisquer outros. À tua frente segue, molengo, um grupo de três indiferenciados, enquanto tu, em terra de gentes que castanhola e matraca inigualavelmente, papagueias como um nativo. É o momento em que os três, sincronizados, estacam e abrem alas, um verdadeiro caminho livre, para que passes, os ultrapasses, e, enfim, se livrem de ti, incapazes, impotentes para te mandarem calar.
Chatos.

06/08/2017

Estou em vias de deixar de ser amiga dos animais

Sou atacada por piolhos do calor, quando estou na praia. Penso que é do meu protector solar, factor 50 - que eu sou morena, mas não sou parva e o tempo corre contra mim, e não quero esbarrar-me de frente com ele, e os UVA e os UVB também existem, independentemente do tom da pele, e era haver UVC e UVD, ou todo o alfabeto até UVZ, e eu também levava com eles -, mas estou acompanhada por quem usa o mesmo creme, e os bichos estão nem aí para outra que não eu; penso que é da cor do fato de banho, mas não estou de amarelo, nem de branco - que, conforme cientificamente comprovado por tentativa-erro, são as cores que mais atraem bicharada -, e, mesmo quando estou de vermelho - cor que os repele, facto que comprovei pelo mesmo método que concluiu aquele do branco e do amarelo -, não me largam o pé (nem a perna, nem a outra perna, nem milímetro de pele meu), mas os outros podem enrolar-se num lençol de cama, que os piolhos nem os vêem; penso que é por estar molhada e os animais gostarem de exponenciar o seu colesterol através da ingestão de sal, mas, lá está, só me dão dentadas a mim?; penso que sou uma comichosa e só eu sinto as mordeduras, hipótese mais plausível das apresentadas até ao momento, pois está tudo na santa paz, a ler ou a conversar, enquanto eu me açoito e assassino carinhosamente micro-pontos negros; penso, finalmente, no meu sangue raro, sem rhesus, e ah!, faz-se-me luz: sou o único elemento, desta enorme família que construí, que tem RH negativo, e parece que a piolhada gosta é desse. Isso, ou então sou maluca, e aqueles pontinhos pretos que me trincam as peles de dez em dez segundos são só fruto da minha imaginação torturada pelo sol. 

05/08/2017

And that awkward moment # 35

em que la camarera bate à porta do teu quarto, 3 e picos da tarde, e, não obtendo resposta e ou abertura de porta em cerca de cinco segundos, mete o cartão na ranhura e entra, apanhando-te em cheio en bañador, e profere a seguinte castelhana: "Ai, perdon. Quieres algo para el minibar?". E só te ocorrem alarvidades em portuñol, todas elas começadas por "Já que interrompeste"?
Mas, como faço um esforço épico para ser uma senhora, respondi "Nadia, gracias", em vez de:
1. Um preservativo xxl, cariño. Me los gustan frescos, que hacer?
2. Un Calippo, mas no de fresa. Trame de cola, en tu homenage;
3. Un rollito de papel higiénico, que me sabe bien el frescor despues de la defecación;
4. Uns pañuelos para la higiene nasal, que mis monos san muy duros;
5. Una botellita de semancol, por favor.
Tantas ideias boas, para uma única resposta socio-politicamente correcta. Ser uma senhora, seja lá o que isso for, não está ao alcance de todas.


04/08/2017

Eu, que tenho a mania que sou original, e diferente, e única

chego ao pequeno-almoço comunitário, onde a oferta é tão variada que se pode começar o dia a beber ou comer quase tudo (champanhe, a sério?) (entremeada frita, mesmo?), escolho no primeiro dia um sumo de tomate, um iogurte de côco, um pão com sementes de papoila (antevendo verdejantes e rubros campos delas, florescendo, selvagens, no meu intestino), e, como se não bastasse a estrambólica escolha, que a mais ninguém vi em toda a sala, no dia seguinte há todos os sumos (cinco variedades), menos o de tomate, há todos os iogurtes (seis sabores), menos o de côco, há todos os pães (sete diferentes), menos o das minhas florinhas carmim. Tudo esgotado.
Serei uma líder, uma opinion maker, e desconheço-o?
Tenho que experimentar meter no tabuleiro um salpicão, com uma flute cheia até cá acima e uma taça de gojis com ovos mexidos.

03/08/2017

Laser para melhor lazer

Um altar a quem inventou a depilação a laser. Sinto necessidade de beijar pés, só por conta desta liberdade proporcionada não sei por quem. (Vá, e se eu não vou googlar, façam-me a fineza de também não o fazerem por mim.)
Nunca como agora me senti um homem, e está a ser bom: é vestir os trajes de banho e ala que se faz tarde para o charco, livre de preocupações menores (ou nem tanto) com pilosidades indesejadas. Longe vão os tempos de cavernícula, em que, à porta de casa ou já no areal, se me atravessava um pêlo no olhar - qual cisco, quase me fazendo chorar -, e isso era assunto bastante para dobrar as tormentas por horas, enquanto durasse a permanência, já que um único pêlo, esquecido/ignorado pela lâmina/máquina/pinça/cera, tresmalhado do grupo a que pertencia, escapado à morte a que condenara os irmãozinhos, era coisa para me arrasar os nervos e o dia de veraneio. Quanto mais vários pêlos. Um tufo. So-cor-ro, nem me quero lembrar. E depois, aquela sombra do pelinho nascituro, a saga do pêlo encravado, a frequência com que era preciso dedicar-me à transformação de mãe Eva em Gisele Bündchen, toda essa contratempice acabou, graças ao Senhor Laser.
No entanto, e por acaso, isto sem qualquer base científica - como tudo o que profiro para aqui -, acho que a depilação a laser só foi inventada no momento em que os homens começaram a arrancar os pêlos deles. Foi certamente em homenagem (não mulheragem, vêem?) a eles que surgiu o ditado 'A necessidade faz o engenho'. Isto que disse agora e o que vou dizer a seguir, enquadra-se no meu sector machista, ou sei lá se apenas controverso: nós, mulheres, somos dotadas de um espírito de sacrifício e abnegação, que nos levaria a suportar mais não sei quantos séculos de tortura depilatória, até, na melhor das hipóteses libertárias, criarmos um no shave qualquer e regressarmos à peluda origem. Aliás, não fora os homens terem começado a viver sozinhos e a sentir necessidade de preparar as suas refeições, e o micro-ondas estaria por inventar, e nós estaríamos de barrigas coladas a um fogão (a carvão.) (A pedras friccionadas.) Ou agarradas a um tanque de roupa. Ou a bater claras em castelo com um garfo. Tudo por causa do tal espírito.


02/08/2017

É preciso tão pouco para me fazer feliz # 9

Estar longe dela e, vá, no estrangeiro, e, mesmo assim, encontrar uma pequena referência que nem na própria algum dia vi à venda.


Apesar de, logo no dia seguinte, ir dar com isto, no exacto lugar onde pus os pés. (Que grande lata.)
Ainda diz a outra que "Não há coincidências".
Que las hay.
[Quando chegar a Lisboa, vou procurar uma lata de Lepe. Mas já me contento com uma de Huelva.]


01/08/2017

Estou nas miras

Há muitos anos, éramos nós duas petizas, e estávamos hospedadas num hotel com os nossos pais. Ali se encontrava também uma família, com uma constituição em tudo semelhante à nossa: pais e duas filhas. No entanto, eram espanhóis.
Não sei se é verdade que as crianças têm uma linguagem universal através da qual se entendem, mas sei que travámos amizade com as duas hermanas d'el pays hermano, mesmo sem pescarmos nada do que elas diziam, sequer um jaquinzinho. E elas devolviam-nos exactamente na mesma moeda, apesar de, na altura, usarem pesetas e nós escudos. E apesar de termos fronteiras.
Não sabendo sequer os nomes delas, mas tendo percebido que, ao mínimo chamamento de "Mira!", elas olhavam, assumimos então que Mira era o nome próprio das nossas amigas de Verão, ainda que fossem irmãs. Tão-pouco estranhámos o facto de elas se chamarem Mira uma à outra. E era "Mira!" para trás e "Mira!" para a frente, com sucesso garantido.
Até que um dia, ao avisarmos o nosso pai de que íamos brincar com "as miras", e questionadas por ele sobre qual era o nome das meninas, foi diante das nossas respostas - "Mira"; "E Mira" -, que ficámos a saber que apenas tínhamos aprendido, e estado todos aqueles dias a usar e abusar do imperativo do verbo olhar.
Pergunto-me se as espanholitas não disseram aos pais que nós nos chamávamos "Olha e Olha". Mas nunca mais deixei de referir-me às mulheres espanholas como "as miras".

31/07/2017

#parecesasvelhotas

Desculpem. Sei que estou a aproveitar-me de uma ideia, mas não me apetece ser um dos elos de uma corrente. Pelo menos, desta vez. E não vou linkar. Desculpem.
Mas é que estava aqui a ler estes posts, de certa forma revivalistas, até certo ponto saudosistas, e lembrei-me da cena que foi a compra de uns ténis para mim, aqui há uns meses, poucos, em que me acompanhava a minha filha mais nova, e, perante a minha indecisão entre uns Nike cinzentos e uns Nike com a onda cor-de-rosa, me esclareceu,
Ó mãe, tu já não tens dez anos.
E o que tem mais piada é que eu pensei,
Isso julgas tu.
E também, 
Olha, tenho. Multipliquei-os pelas vezes que me apeteceu, e, se calhar por isso, tenho-os, intactos.
Não podia explicar-lhe ali, nem em lugar nenhum, que os Nike dos meus catorze anos - não dez, é certo - eram brancos e tinham a onda azul ou vermelha. Ou então, andávamos de John Smith, que foram os pais dos All Stars que elas agora usam e julgam que só apareceram quando elas os calçaram.
Acontece que ainda agora comprei uma fita para pôr no meu cabelo quando venho do mar, que o faz de ondas espetadas e pouco pacíficas como as do Pacífico, e também sei que podia ter escolhido preta, lisa, como uma faixa de luto, um fumo, mas gostei mais de uma cor-de-rosa com cornucópias, e foi essa que escolhi. Então ela disse-me,
Ó mãe, tu já não tens doze anos.
Isso julgas tu.
Curioso como cresci dois anos aos olhos dela em poucos meses.
Não podia explicar-lhe ali, nem em lado nenhum, que, lá pelos catorze anos, nós usávamos bandanas americanos na cabeça, cheios de cornucópias, e pode ser por isso que eu vou gostar sempre daquele padrão, mais do que de preto, nos cabelos.
Depois dos ténis com a onda cor-de-rosa, já comprei outro par, todo em preto. Nesse dia, devo ter-me apercebido que já não tenho dez anos. Nem doze. Se calhar, nem catorze.
As filhas cuidam muito das mães, para que elas não façam figuras tristes. Os filhos cuidam para que as mães nunca fiquem tristes. Ou tenham medo.
Outro dia estava a atravessar uma avenida à noite e entre faixas havia um alçapão de respiração do metro, com uma grelha que me fez medo pisar e olhar lá para baixo ao mesmo tempo. Então, ele pôs o braço em cima dos meus ombros, disse-me aquilo com a voz que só ele tem, de olhos enormes e lindos, e atravessámos assim, eu sem medo de nada.
Já ninguém tem catorze anos, quanto mais dez ou doze.

Hoje vou explicar por que é que tenho tanta resistência a ler livros de pessoas crescidas

Conseguem sempre escrever pior do que eu.



corrimões  
in A rapariga de antes, JP Delaney

30/07/2017

Há sempre gente com um sentido de humor (ou de oportunidade) mais retorcido do que o nosso # 2



Ainda estou a tentar perceber por que é que ele me enviou isto com a legenda: "Já encomendei um para o teu carro, para colocar no lugar do condutor".

29/07/2017

Ó meu rico tio, que má hora para morrer! # 3

Existe uma relação próxima entre o meu trabalho e a morte de tios por afinidade. Eu sou o Ramsey, com a única diferença de que não marco golos. Mal me surge um trabalho novo, eis que flop. Vá, calma, não é preciso virem para aqui dar sentimentos, que, por muita pena que eu tenha, estas são aquelas situações a que vulgarmente se chamam "a lei da vida", num suspiro, à porta dos velórios.
[Nós, tias, temos sempre imensos tios, e é natural que, se não nos nascem novos, pelo menos nos faleça um de vez em quando.]
Desta vez, acho que me portei bem. Cheguei, abracei quem me pareceu que estava mais enlutado, disse "Meus sentimentos" e fiquei quietinha. Apresentaram-me uma mulher com ar de 25 anos, garantiram-me que tem para lá de 30, alvitrei 31, esclareceram-me que são 39, e eu fiz a fineza de a deixar passar à frente na porta, com um "Primeiro os mais velhos". Fora isso e o facto de a ter feito soltar uma gargalhada num local menos próprio para o fazer, tudo impecável. 
Mandaram-me entrar para uma sala com a configuração de uma capela, estive ali um bocadinho calada e quieta, só a ver os sapatos das outras, e depois disseram-me para sair, que eles ainda tinham mais uma cremação a seguir, e estavam atrasados. Saí e estive mais uns dez minutos a conversar do lado de fora, como nos casamentos, e, como não saiu dali nenhum par de jarras noivos, presumi que já podia ir-me embora. Por mais que me garantissem a posteriori que havia um caixão na sala onde estive sossegada, que foi reconduzido para uma porta, ou seja, a última que atravessava, quase não acreditei, não fora ser pessoa de confiança que mo afiançou. Eu não vi nada. Só sapatos.
Achei tudo muito clean. Quero uma coisa assim para mim, quando me tocar a vez.
E não, o meu humor não é nada negro, isto não é sequer humor: são factos. É a lei da vida.
Vou mas é de férias, o trabalho pode esperar. A vida é que não.

27/07/2017

Complicado embarque

Eu, a fazer malas [embora ainda mentalmente, pois faltam largos três dias para que me vá daqui]:

Não chega bem a duas semanas, tenho que tentar levar pouca roupa, para não atafulhar a bagageira, que não é lá muito grande, e não me posso esquecer que não vou sozinha, também há outros cinco a levar cenas.
Vou levar este vestido. E este. Este também tem que ir, não vá dar-se o caso de estar muito calor. E este, sempre tem um ar mais apresentável. Também tenho que levar calças. Às vezes fazem falta. Pode estar frio. Levo as de ganga e outras menos informais. As pretas. Ou as brancas. Também devia levar as vermelhas (que tenho há dez anos, já engordei, já emagreci, já voltei a engordar, e elas sempre a servirem-me, sem uma pinga de elastano), por uma questão de coerência. 
Levo t-shirts que dêem para a praia e para a rua. Mas eu uso pouco t-shirts. Levo tops, então. Mas pode não me apetecer andar sempre descascada, chegar-me o frio aos ombros, e precisar de agasalho. Levo mas é t-shirts e tops. E uma sweatshirt, não vá dar-se o caso. Uma, não, duas: levo uma que dê para a praia, para aqueles dias em que não se está bem em lado nenhum. (Tenho uma gira, rosa fluorescente, até em dias de nevoeiro fico localizável.)
Vou levar um biquíni para cada dia, para não ter que andar lá a lavá-los à mão. Levo também o triquíni e o fato-de-banho, não vá dar-me o recato e o mulheredo estar todo de burquíni. Detesto sentir-me o Wally, ainda mais em trajos menores. 
Levo roupa de praia também em número suficiente para poder mudar todos os dias. Coisas práticas, leves e que caibam num cantinho da mala. 
Tenho que levar a toalha, senão não tenho onde me deitar. (Já fui à praia sem toalha e nem me quero lembrar.) Devia mas era levar duas, que a minha toalha, ao fim de quatro dias, parece uma pedra. Levo duas.
Vou levar as sandálias bege, que são mais cómodas, embora iguaizinhas às cinzentas. Levo também as cinzentas, porque as bege não dão com tudo. Também tenho que levar as Havaianas, que me servem para a praia, a piscina, como sapatos de quarto e, com jeitinho, num jantar de gala [hah, sou tão cómica.] (Por falar nisso, não esquecer de meter o vestido preto na mala. Hum, o preto é demasiado híbrido, também dá para a praia se me der o dia da drama queen e me apetecer ir de negro vestida para o areal. Combina lindamente com os meus óculos de sol.) Levo também as minhas Fly, que dão para tudo e nunca me saltam dos pés por causa daquela fivela. (A fivela faz-me alergia, não esquecer de levar as pomadas e os adesivos.) Preciso ainda de uns ténis, porque já sei que me dá a doida de estar parada e depois ninguém me atura. (Levar também calções e tops e meias e sutiãs de desporto em quantidade suficiente para o número de vezes que acho que me vai dar a filoxera.)
Cuecas. Não esquecer de levar cuecas. Um par para cada dia pode ser pouco. Nunca se sabe. E sutiãs, os que couberem na mala. É mais higiénico mudar muito do que mudar pouco.
E pijamas. Levo três, que eu não me aguento uma semana inteira com o mesmo.
Tenho que levar um casaco. Levo o blusão de ganga. (Qual levo? O novo ou o velho, que é mais giro [mas está a romper-se todo por fora das costuras]? Se calhar, levo os dois, e depois lá decido qual visto). Também devia levar um casaco de malha, que às vezes arrefece e venta nos sítios. Levo o preto, que dá com tudo. Espera, mas depois fico muito negra se puser um vestido preto. Levo também o vermelho. Mas então, fica mal com as sandálias bege. Levo o azul e o branco. Frio é que eu não passo. E já sei que as miúdas se esquecem dos delas e então empresto os meus. É melhor levar quatro casacos, sendo assim. Cinco, para poder escolher entre as duas cores que sobrarem. 
Ainda me falta a mala da cosmética. Que canseira.