29/05/2017

Onde passaste tu parte da chuvosa tarde dominical de ontem, LB?

Olhem, nem vos conto.
Havia homens rechonchudos com calças skinny e t-shirts a revelarem as pancinhas e as man boobs. E outros de calções de banho, pólo da feira e téne.
Havia mulheres cujas borregas transbordavam dos sutiãs. Algumas, tatuadas.
Havia crianças com sapatos de fivela e uma flor na ponta, os pezinhos espremidos por meias de renda branca.
Havia avós com mini shorts de ganga e chinelo raso tipo Havaiana.
Havia avôs muita porreiros que se ajoelhavam no chão para ficarem ao nível das netas e já não conseguiam reerguer-se. [Opção de vida? Dores articulares? Karma? Praga minha?]
Era um sarau, e isto é o que acontece quando a professora não dá só aulas na cidade, mas também se estica para a periferia.
Isto é o que acontece quando a pessoa sai daquilo a que o povo chama zona de conforto, que é o núcleo da civilização. 
Depois apanhei uma molha monumental e passou-me tudo. 

28/05/2017

Eu tenho problemas com médicos # 25

Eu ainda era do tempo em que os médicos exerciam Medicina.
Venho para dizer mal. Venho para deitar fora, purgar, drenar, expelir coisas más que há em mim. Devo estar na fase da raiva.
Vou contar uma longa história, que não interessa para aqui se na primeira, na segunda, na terceira ou em que pessoa do singular, de tão singular que ela é.

Fui criada a respeitar a profissão de médico como a todas as outras, mas mais ainda por ter vários na família, e, no limite (da gestação), por ter saído de dentro de uma. Naquele tempo, os médicos olhavam para um doente, faziam-lhe umas perguntas, observavam com olho clínico (literalmente), auscultavam, mandavam tossir, respirar fundo, palpavam, e simplesmente diziam o que o doente tinha, receitando de seguida. Não tinham tecnologia de ponta nas pontas dos dedos, nem internet que lhes valesse, apenas muita sabedoria acumulada e um especial dom, que era o de ter os olhos nas pontas dos dedos: encontravam, pelo tacto, o busílis da questão no corpo dos seus doentes. Claro que também havia quem corresse vários médicos até lhe ser feito um diagnóstico. Mas eram, geralmente, casos raros, casos no início dos sintomas, casos demasiado graves para que se pudesse alvitrar uma hipótese sem certezas sobre ela. Uma das minhas avós já tinha sido consultada por dois ou três médicos que não atinavam com a doença de que ela sofria, até que bastou a um pedir-lhe que caminhasse para lá e depois para cá, nos escassos metros da sala do consultório, para lhe fazer o diagnóstico. Era um professor da faculdade, no tempo em que para se chegar ao doutoramento e à cátedra não se pagava dois anos de propina a uma faculdade. Acediam os melhores dos melhores — por mérito, trabalho, dedicação e valor.

Agora é diferente. Uma pessoa cai de gaiato numa urgência hospitalar, onde lhe são feitos exames e análises e perguntas, primeiro na triagem, pelo enfermeiro, depois por um médico não especialista que, por sua vez, encaminha para o especialista que ele entende — e que, oh, surpresa!, não tem a especialidade ideal para aquele caso. Paga a urgência, paga exames e análises. Marca consulta com o médico indicado na urgência, vai à consulta, mas oh, que bonito!, o médico não se sente capaz de fazer um diagnóstico taxativo, sem antes mandar fazer mais exames, mais análises, preferencialmente dentro do mesmo hospital. Paga consulta e lá vai disto, faz exames, faz análises, paga exames, paga análises. Volta à consulta, e oh, inesperado!, o médico não faz diagnóstico nenhum, porque suspeita que aquilo não é do foro dele, e então manda para outro colega, de outra especialidade. Paga consulta, e marca consulta para a tal outra sumidade. Amarga uma hora e meia de espera na sala para que sua altíssima digníssima especialista declare que não pode fazer um diagnóstico diferenciado (diante de uma ressonância magnética), porque é necessário consultar outro especialista, ainda mais especializado, dentro do mesmo hospital, que, após exame ainda mais detalhado, com certeza (sem certezas) fará um diagnóstico decisivo. (Ao que parece, não andaram na mesma faculdade, não tiraram a mesma especialidade.) (Por exemplo, já não há ortopedistas que nos conheçam os ossos um a um: agora há o especialista do joelho e, dentro dessa especialidade, o especialistíssimo do menisco. Assim como já não há neurologistas que nos conheçam o sistema nervoso dos pés para a cabeça: há o especialista da tontura e do desmaio, há o especialista do tique nervoso na pálpebra esquerda. E só esse nos pode valer.) De tão agarrada ao computador que fui encontrar a dita senhora, quase posso jurar que a vi, enquanto murmurava "hum-hum", a consultar o Google. Podia bem ter ficado em casa (ela também), que teria sido mais em conta e não teria perdido duas horas e meia da minha preciosa vida. 
Até ao diagnóstico, e enquanto não, anda uma família inteira com o credo nas mãos e o coração na boca, porque uns senhores resolveram brincar aos médicos (ou aos comerciantes, decidam-se) sem nos terem perguntado se também queríamos participar no recreio, com um intuito qualquer, que deve passar por encher os cofres do hospital que, por sua vez, lhes paga um ordenado de miséria. 
O que é que está mal nesta história? 
Tudo. (Designadamente a minha cabeça.)

26/05/2017

Ambrósio, [hoje] apetece-me algo [diferente]/

Posso muito bem ter enlouquecido de cançassu

Desde que a cor das unhas mudara que sabia que se iniciaria ali o processo de transmutação. A seguir arrancaria o cheiro do perfume do pescoço, o tom do cabelo voaria para além da linha do horizonte, o riso dobrado quebraria num som opaco. Apanhou todas as migalhas de si que ainda sobravam e meteu-as no bolso para dar mais tarde aos cães. Engoliu inteiras três tâmaras de saudades, à força de oito lágrimas e meia, sufocou até à dor da alma quando a sentiu expirar, olhou para trás e viu-os, meteóricos, desaparecerem como sabão no chão da tristeza. Trancou a porta maior do coração com um estrondo fininho e deixou-se sugar pelo Mundo, com ele partido.

25/05/2017

Vou amar este homem para sempre # 2

Perdoem-me os que o podem fazer, forçada a esta ausência forçada [metida no buraco mais escuro de um trabalho que não acaba, mas ao qual vejo a luz ao fundo], mas sempre com meus môres no pensamento, e com ganas de partilhar o que de melhor ouço nos coisos. 

23/05/2017

Desamor

Ouço o choro daquele bebé e ainda me distraio a interpretá-lo. É vício, é hábito, é treino que nunca perdi. Está aborrecido, cansado, com frio. O ar condicionado está ligado, mas arrefece as extremidades de um menino — presumo que é um menino pela cor com que está vestido — de pouco mais de um mês. A mãe, muito jovem, muito linda, gordinha e loura, abana-o no colo à medida que ele solta gritinhos, e ele solta gritinhos à medida que ela o abana, numa dança que parece não ter outro fim que não seja o do aborrecimento mútuo. Ao lado, o pai, ausente, e o filho mais velho de ambos, distante. Os cerca de oito anos e a sanduiche que tem na mão não lhe permitem mais senão manter-se fora daquela sala de espera, que até eu, que já multipliquei por tantos os meus oito anos.
A mãe tenta o leite, tenta a chucha, tenta virar o colo impaciente, mas o choro não cessa. Abstenho-me, obviamente, de lançar mão de ajuda. Quem sou eu senão alguém que criou bebés há demasiado tempo para saber de que choram eles?; e por pudor; e porque as crianças precisam de chorar; e porque as mães também. Assisto, assim, impávida e pouco serena, ao pedido da mãe ao indiferente pai, que lhe passe um toalhete. Ele entrega-lhe uma embalagem inteira, ela já não dispõe de mais mãos livres para retirar apenas uma, desespera-se de solidão, chama-lhe parvo e ele explode numa raiva muda entre dentes, "Chata, porra! Tu és uma chata, caneco". 
Saem os quatro quando são chamados para a consulta de um deles, passa diante de mim o que foi um dia um casal, e pergunto-me há quanto tempo é que aquelas duas pessoas se amaram, a ponto de porem outras duas no Mundo.


22/05/2017

Em repeat


Ela fala tanto # 14

Aparece-me mais tarde, esbaforida e sonora, necessitada de desabafar como um balão cheio de hélio preso por um fio, e desata. Confirma que chumbou no exame de Código da Estrada, que foi fazer juntamente com a filha e o cunhado, que já conduz há anos sem carta e lá foi pela quarta vez. [E eu que sei, e eu que sei, cruzo-me com eles todos os dias...]. A filha muito nervosa, ai, Tatiana, tu acalma-te, mas ela a ter um ataque de ansiedade, o ar a faltar-lhe [porra, pá, só eu não tenho ataques chiques, à frente de toda a gente], e eu, inconveniente, depois de me ter dito que a filha também chumbou, pergunto se estava nervosa antes ou depois do exame, pois que antes, não se conseguia acalmar, ai, ó Tatiana, tem calma, filha, e ela lá se acalmou quando começou o exame. 
- Acho que o que me tramou foi aquela da cedência de passagem numa rotunda.
E dou comigo a pensar, "Olha o azar, chumbar por uma. Mas a fasquia tem que ser posta em algum lado, se não fosse na quarta errada, era na quinta, e haveria sempre quem chumbasse". 
- Errei cinco, e a minha Tatiana também.


[O cunhado passou, conseguiu errar apenas em três questões.]

21/05/2017

Agora já sou uma blogger a sério # 3

Cá suei mais uma camisola. A máquina da roupa também não pára. 

eu sei que já mostrei a cara, mas não me apetece todos os dias, tá?

Começou logo bem, aquando do levantamento do kit. Acerco-me do guichet e pergunta-me a menina o primeiro e último nome. Digo-lhos, de vulgares que são, e ela encontra mais não sei quantas homónimas. Pergunta-me ano de nascimento, encontra 95 contemporâneas. Pergunta mês, mais não sei quantas. Pede-me o dia e, mesmo assim, encontra outra — homónima, nascida exactamente no mesmo dia que eu. Qual é a probabilidade de isto acontecer, qual é? Comigo, 100%. 
Depois, começar, começar, foi pelas 10 da madrugada de hoje, quando dei por mim a correr para o autocarro que transportava as atletas para a partida, a 5 quilómetros da meta. Deixei Rosinha no parque da Fundação Champalimaud, porque tenho a PDM e o parque é limpinho e grandioso. Lá chegadas, fomos despejadas para cima de mais milhares de femedo que corre contra qualquer coisa que o valha. Na verdade, nós, mulheres, corremos contra muros vários todos os dias, não apenas nestes alegóricos. (Hoje não sei que dia é, mas fui na mesma.)
Também somos distratadas e descompreendidas. Só isso explica que nos tenham afinfado, logo à partida, com o Emanuel em cima de uma daquelas pontes de atravessamento a cantar "Nós pimba", imediatamente a seguir a termos passado a barreira de uns mocetões musculadíssimos que nos estavam a borrifar de protector solar, mas eu cá fugi-lhes, por já ter posto em casa, e mais gordurosa era capaz de deslizar até à meta, e depois era desclassificada por doping ou o genital.
Estranha corrida esta, por ser tão eufemística: não havia pista de corrida, sequer alguma separação temporal nos momentos da partida, entre quem corria ou andava. Foi chato para as atletas, que tiveram que ultrapassar a multidão compacta de gajedo que vai para a farra e o trololó. Para mim, foi óptimo, embora, tanto quanto dei por isso, tenha sido a única desvairada que fez walk-run, e tenha aproveitado os momentos em que havia passeio ou estrada livre para dar umas escapadinhas à manada. Parecia aqueles tontinhos que vão a pastar a vaca na autoestrada e, de repente, devem prender o salto do sapato no acelerador, que uma pessoa deixa de os ver (ou então, ganham invisibilidade).
Ao longo do percurso, fomos brindadas com garrafinhas de água — eu emborquei três e ainda trouxe mais uma, dou sempre prejuízo à casa — e mais música: um palco com um jovem a trautear "I'm walking on sunshine" (à torreira da canícula, se faz favor) e uma mulher grávida a entoar "It's raining men, hallelujah" (quem sabe se à espera de um rapaz, e daí...).
Na meta, recebemos tantas coisas que precisava de dez mãos para não deixar cair metade delas, como deixei: um geladinho, um saco com leite, mais água e uns papéis, uma banana (ai, o potássio, sou tão atleta, sou tão hipster), uma medalha, três panfletos não sei de quê, que já jazem no ecoponto e até podiam ser um prémio em dinheiro, mas olha.

19/05/2017

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 49


Logo eu, que costumo entreter-me a tirar o perfil de cada um, em função das compras que leva no carrinho.
Que tipo de pessoa se dirige expressamente — com pressa e com intenção — a uma grande superfície comercial para comprar isto?



1. Alguém guloso e também limpinho;
2. Alguém com desejos e também com cheiros na privada;
3. Alguém com um TOC relacionado com os sentidos do paladar e do olfacto;
4. Alguém com um TOC azul, que tudo o que compra tem embalagem azul;
5. Alguém que faz estranhas misturas;
6. Alguém sem nada para fazer;
7. Alguém que trabalha muito e precisa de desopilar em minudências;
8. Alguém que vai receber uma pessoa importante em casa e também se esqueceu de encomendar, na última compra, os benditos desodorizantes;
9. Alguém sem assunto sobre o que escrever, a quem lhe morre o blog sob os dedos todos os dias mais um niquinho/sobre assuntos-assuntos, não apetece de todo?
10. ~~~~~~~~~~

Tudo eu.

17/05/2017

1 + 10 = 11

Não é esse o assunto?

Ah, era uma mnemónica...

Com cerca de mil pedidos de desculpas pela (zero) qualidade da imagem, mas ela foi tirada:
1. Por chico-smart, em pré-falecimento;
2. A uma distância que até admira que se leia alguma coisa;
3. Por sobre os movimentos basculantes e circulatórios de uma elíptica.

E a hora, hã? Eram 11:11. Vá que não eram 11:10. 

Eu tenho problemas com tudo # 23

- Hohem hão hahou a hua hon-ha.

Existe uma pessoa que trabalha num espaço comercial junto da minha área de residência que fala assim: das vinte e duas letras do alfabeto (eu conto com o K, o X e o Y, porque sou moderna), diz apenas as vogais, ou seja, suprimiu da sua linguagem verbal (a escrita não lhe conheço, portanto dou de barato) nada mais, nada menos do que dezassete letras, se é que a matemática agora não me falha também. Algumas sílabas, entoa-as com uma única consoante, mas não a correcta para entremear as vogais correspondentes, fazendo recurso constante do H, não aspirado como o dos ingleses, mas expirado como só ela.
Nem imagino se fosse ao contrário, e tivesse suprimido as vogais.
Nem imagino como dirá palavrões.
Nem imagino quando se constipa, e não consegue expirar o H.
Assim, por exemplo, se quiser dizer Existe uma pessoa que trabalha num espaço comercial junto da minha área de residência que fala assim, diz Eihihe hua hehoa he ha-aia hum ehaho huhehial huho ha hiha áhea he hehihêhia he haha ahim.
E não é que se faz entender perfeitamente?
Sempre, menos desta vez. Criou-se, finalmente, uma barreira linguística entre ela e eu, fascinada que ficava sempre a ouvi-la falar sem consoantes e muitos HH.
Isto é um suponhamos: entro lá no local, acerco-me do expositor frigorífico onde ela labora, e preparo-me para desbobinar alface-abóbora-cenouras-couve-flor-nabo, mais ou menos por esta ordem aleatória, e vai ela assim para mim, naquilo que eu entendi:
- Ontem não pagou a sua conta.
Ó pá, esqueci-me. Mas também era escusado aquele mau modo, à frente de toda a gente. Parecia que eu tinha feito de propósito. Passei por caloteira, e, puxa!, magoei.
- Oi? — Respondi no meu melhor português. E depois girou-me a seguinte frase na cabeça: "Hoha, há! Henho ahi a ehha eh-hehun-ha há hinhe e huaho ahos, hunha heihei ahi hehuha hon-ha hoh hahah e hohe, huhe he eh-hehi uha húhiha hez, hazem-he hoho hahah hoh hahoheiha". Mas travei-me, traduzi-me mentalmente e proferi: "[Porra, pá!] Venho aqui [a esta espelunca] há vinte e quatro anos, nunca deixei uma conta para pagar e só hoje, porque me esqueci uma única vez, fazem-me logo passar por caloteira".
A comunicação entre nós bloqueou naquele momento, por assumida incapacidade minha para perceber o azedume, especialmente provindo de alguém que sempre tratei bem.
Acho que nunca mais nos vamos entender, ehá hihto.


16/05/2017

And that awkward moment # 27

em que entras num restaurante para jantar e o empregado de mesa se embeiça apaixona desesperadamente por ti? E depois é todo um manancial de situações absurdas, em que é ele a querer transmitir os seus sentimentos através dos olhares penetrantes com que te estupra, e és tu a tentar jantar em paz, fintando com imenso jogo de cintura toda a abordagem por ele perpetrada. 
Traz-te queijo à mesa, perguntas se é de Nisa — porque também não podes ficar calada, e há situações que o diabo que te habita tem ganas de fazer render —, e ele responde "Não, é do Alentejo". Mas o vinho é tão bom, parece mesmo pomada para a garganta que não te dói, que dás um daqueles suspiros que achas que só tu ouves, mas que ecoam pela sala como se alguém tivesse ligado o ar condicionado no máximo dentro da tua cabeça. E o homem fica ainda mais perturbado. Diz Murphy, esse grande estupendaço, que quando alguma coisa está mal, ainda pode piorar. Claro que sim, boi.
Estás acompanhada, pediste dois cafés, e ele aparece-te do nada, ou então do tecto da sala, com duas chávenas na mão, a perguntar: "Os cafés, são para quem?" — o que te dá logo aquela vontade de responder "São os dois para mim, baby".
[A reminiscência que ele me veio trazer. Quando os miúdos eram pequenos, numa remota época em que o mais novo ainda se sentava em cadeirinha elevatória — cadeira de papa, tecnicamente falando —, não foi uma nem duas vezes que se acercou da mesa uma figura com duas chávenas na mão, a perguntar para quem eram os cafés. E de todas, a acompanhar candidamente o queixo caído, tiveste vontade de responder "Para os dois mais novos, a ver se sossegam".]
(Um dia vou dar largas ao Tourette agrilhoado em mim, e só respondo o que me der na venta. E no vento.)
Há depois um momento — que não vou contar aqui —, talvez derivado da enervadeira que o homem te provocou, em que despejas uma parte do vinho sobre ti mesma, ficando o teu vestido (que é obviamente branco) cravejado de nódoas cor-de-tintol, aquele tom indisfarçável que grita à populaça com que te cruzas até ao carro, "Bêbada!", quando não estás. Mas é claro que os saltos altos e a p. da calçada de paralelepípedos redondos te negam qualquer negação dessa aparência sóbria.
Empregado estupidamente apaixonado - 1; LB - 0.
(O amor tudo vence.)

15/05/2017

Podia bem ter sido eu a escrever isto [tivesse eu talento]


Se um dia alguém perguntar por mim
Diz que vivi para te amar
Antes de ti só existi
Cansado e sem nada para dar

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez devagarinho possas voltar a aprender

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez devagarinho possas voltar a aprender

Se o teu coração não quiser ceder
Não sentir paixão, não quiser sofrer
Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois

14/05/2017

mmmmm, esta sensação de acordar ao domingo

espreguiçar a beleza numa cama confortável, olhar para o telemóvel, ler os mails, constatar que hoje salta fora mais um seguidor e ahhhhh, poder virar-me para o outro lado — exactamente aquele para o qual durmo melhor...



13/05/2017

Dia dos 3 FFF

Fado, futebol, Fátima.
Nunca como hoje.

Meu Benfiquinha querido, vê lá se consegues façanha igual à minha

Tetra, môr, nada menos do que quatro. 


E ainda vamos ao penta!

And that awkward moment # 26

em que recebes uma caneca da Dory pelo Dia da Mãe — e nada é por acaso, a peixa azul só não é a minha personificação porque não é uma persona, talvez seja eu que sou a personificação dela —, resolves fazer o teu primeiro chá nela, e passada meia-hora, alguém pergunta De quem é este chá?, e te vês compelida a responder
...
...
...
Esqueci-me?

Palmei da nettinha, sim.
(Vinde cá prender-me, ora vinde.)

12/05/2017

Em modo tolerância

comigo; com tudo; contudo; com a água; com a chuva; com a vida; com o destino; com a sorte (maldita); com o fado.


Nem de propósito, nem por acaso, a Teresa Borges do Canto tirou-me as palavras e as lágrimas da boca. 

11/05/2017

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 57

Vejo coisas.
Já não se pode frequentar provadores das lojas de roupa feminina, que se é logo sujeita a estas provações. Olhem-me lá para estas duas.

E a manita esquerda da mocinha da direita, hã?
Am I interrupting?

(Eu agora era uma pessoa com uma visão artística do mundo e chamava a meu retrato "O abraço" ou "A dança". Assim como não sou, dou-lhe o nome "Granda sentido de humor, caixeirinha!", ou "Queres falar?".)

Estive mesmo para ir abraçar-me a elas, mas depois senti-me um bocado a mais. Tipo aquela do "Um é pouco, dois é bom, três é demais". 

08/05/2017

Ando tão farta do anonimato


Antes que o assunto arrefeça e, efectivamente, (mais) ninguém se mate, ou a comunicação social decida se se trata de um mito urbano — ou rural —, tenho a declarar à blogobola que, também eu, jogo Baleia Azul todos os dias

Aliás, se pensar nisso bem a fundo, não afundo em disparate nenhum, pois que chego à conclusão que até posso ter sido eu a inventar o jogo da Baleia Azul, blogosfericamente falando. 
Todos os dias — todos! — tenho a minha "hora de cortar os pulsos", que é aquele momento em que vou consultar/espreitar/invadir um blog ou dois, com o mesmo desvelo e amor do ódio de estimação, mas em profundo. Então, golpeio-me.
(Calma, claro que não é nenhum dos que frequento publicamente e que fizeram parte da minha lista da barra lateral — que apaguei, mas refarei —, pois estas coisas fazem-se na privada, na calada, na cobarda.) (Com limites, já que nunca comentei em nenhum deles. Se o fizesse, seria com este meu perfil azul e belíssimo, uma vez que, quando parto para o estalo, gosto de dar a cara. Tenho a mania que sou vertical, ou lá o que é.)
Vocês, se calhar, não fazem isso, mas eu sou assim, quase toda psicobólica, e preciso de me enervar um bocadinho todos os dias. Sento-me ao computa, ou abro os ditos no telemóvel, e pronto, purgo a raiva, a neura, o ataque de fúria que não tive e contive (alguns há cerca de vários anos). É o meu corte de pulsos diário, a minha caixa de gritos, o meu boneco de pancada.
(Muito obrigada a todas as que alimentam esses espacinhos de catarse e psicoterapia gratuita.)
Conforta-me a ideia de que haja quem faça o mesmo com este meu coiso. Sirvam-se, que também é para vocês que escrevo assim. Cá abraço apertado. (Não.)

(este gif roubei da nettinha, que eu não sou loira nem tão nervosa.)

07/05/2017

Agora já sou uma blogger a sério # 2


De manhã, Corrida do Dia da Mãe. É claro que fui caminhar, por todas as razões que me são inerentes, e ainda mais pela de que tenho um pé todo desmontado, não tivesse abusado da dança (ou ela de mim), de maneira que fui, literalmente, coxear quatro quilómetros, mas cheia da corage. Levei exactamente o mesmo tempo que uma das minhas bonecas a correr dez quilómetros: uma hora e quatro minutos.
Eu gosto é da festarola, vou para me divertir, porque sou uma divertidaça-estupendaça, caturreira.

 
(Ô xenti, fiquei pelando por um sambinha...) 

Como sou demasiado etérea para algumas coisas, consegui perder-me no percurso, e tive que voltar atrás uns metros para me meter pelo intrincado caminho que levava até à meta. Lá chegada, encontrei um grupo de rapazes que pertenciam ao movimento Abraço Gratuito. (Espero que não sejam parentes dos do Abraço à Borla, organização que suponho que desapareceu, quem sabe se por, um dia, um deles se me ter dirigido com um cartaz onde estava escrito ABRAÇO HÁ BORLA e eu lhe ter gritado "Ahhh, tens um erro ortográfico no cartaz!", escapulindo-me dos braços dele.) Hoje foi diferente, nada parecia errado, por isso demos um abraço, jovem desconhecido e eu, e ele desejou-me um dia feliz, com aquele sotaque do norte que metade das minhas costelas reconhecem e vibram, canudo.

 

Cada um tem a mãe que merece?

Pela hora do almoço, e porque agora frequento casas-de-banho públicas leve, levemente, como quem chamam por mim, derivados de beber muito mais água do que antes e, eventualmente, ter a bexiga mirrada de tantos anos de camelice, fui dar com uma menina, com quatro anos ainda incompletos, a fazer cocó, perfeitamente sentada numa sanita pública, profundamente sozinha, com a saia e as cuequinhas puxadas até aos sapatos. Convenhamos que a louça sanitária destas casas-de-banho deve ser a zona mais limpa de todo o recinto, já que ninguém, no seu juízo perfeito, e se tiver mais do que quatro anos e for acompanhada por uma adulta, ali se senta. Diz-me a criança, mal entro: "Fiz cocó", e aquilo invadiu-me de ternura, porque o instinto é uma chatice que nos atinge sem pré-aviso nem dó. Perguntei-lhe pela mãe, e ela respondeu, literalmente, "Não está comigo", e deu um enorme arroto. Aquela menina era coisa para uma pessoa ter vontade de meter na mala e levar para casa. Procurei a mãe nas outras cabines, mas nada. Ajudei-a a sair da sanita e, naturalmente, ela pediu-me que a limpasse. ("Tenho o rabo sujo".) Não só limpei, como também a vesti. Enquanto o fazia, ela disse-me: "A minha mãe é muito gira". "Que bom que deve ser, ter uma mãe gira", respondi à toa, pasmada com o tempo que já havia decorrido desde que a mãe-gira não havia sentido a falta da filha-mais-uns-segundos-deste-amor-e-levo-a-para-casa. "Sim. E é mágica", continuou ela, o que me pôs a pensar que de certeza, pois só uma mágica está tantos minutos sem saber de uma filha daquela idade sem se preocupar ou sequer lançar o alarme no restaurante. Foi quando entrou uma mulher alta, farta, cabelo preto e frisado, óculos de massa grossos, e exclamou, tranquilamente: "Ah, estás aqui...". Ao fim de, seguramente, dez minutos.
(Dez minutos de desaparecimento de uma criança minha com aquela idade, e até a aviação civil já estaria a sobrevoar o restaurante.)
(Mas eu sou diferente.)


Post em tempo surreal

Mãe

06/05/2017

unhas amarelas

Entrei, pontual e opaca, eram as horas combinadas e marcadas no compasso da agenda, um bocado de vazio naquele meu bocado de vida.
Peguei nos mostruários, sabendo de antemão que era vermelho o que queria ter nas mãos, encostei um amarelo aos dedos, disse ela
Ah, não, amarelo não, minina. Minina não vai pôr amarelo,
e eu que não, que era uma vontade não bem minha, um desejo incontido de experimentar,
mas já passou.
Pus o dedo indicador debaixo de outro amarelo,
Então e este?,
ela convicta nada convencida,
Ah, não, minina.
Estás triste, minina?, ela a perguntar-me enquanto me tingia as unhas de vermelho-pouco-amarelo.
Podia ter optado por um sorriso amarelo, podia, sim, podia, pois. 
Não,
e dei-lhe o meu melhor vermelho-inverosímil. 

04/05/2017

Pequeno-almoço

Quando eu era uma petiza, os hotéis forneciam pequeno-almoço no quarto. Não era preciso ser um hotel cheio de estrelas, bastava ser um hotel. Só digo isto porque sei: no final do Verão, hospedávamo-nos num hotel de termas durante duas semanas, que era o melhor da área (e, tanto quanto me lembro, o único, fora umas pensões ilegalíssimas), que tinha duas ou três estrelas, e tinha pequeno-almoço no quarto, completo e escolhido na véspera, antes de colocadas as opções do lado de fora da porta do quarto, entre chá, café com leite ou apenas leite — que chegava fervido, com uma gigantesca nata ao de cima do bule de metal (a qual me provocava vómitos, mas eu era uma esquisitóide e ainda hoje não sei por que é que Deus, ou lá quem por ele, não me conservou essa esquisitice — hoje seria tudo muito mais fácil e não teria que me esfalfar toda para obter este resultado), pãezinhos e torradas acabados de fazer, levado em carrinhos de chá com toalhas de pano imaculadamente branco, porcelanas com o logo do hotel, funcionários irrepreensivelmente fardados de bege e branco, "Bom dia", "Bom dia". Algum dia era esta palhaçada de uma pessoa ter que se içar do leito antes das 10 da madrugada, ir a correr remelosa e estremunhada para uma sala de restaurante que ainda está com cara de fim de jantar, escolher entre croissants e pães de leite secos, leite com café chicória, cevada e centeio ou chocolate líquido acastanhado, iogurtes de marca desconhecida e cereais amarelos/castanhos, pêssego ou salada de frutas da lata, fora aquela cena das salsichas, ovos mexidos, bacon, fiambre e fatias de queijo, a armar ao intercontinental?


And that awkward moment # 25

em que te obrigas a telefonar a alguém que deve dinheiro a uma compropriedade à qual pertences (sim, dessas que dão mais trabalho a tentar governar do que a mijinha de lucro que dão), começas por ser auricularmente violada com um waiting ring que estrilha Nossa, nossa, assim você me mata| Ai, se eu te pego| Ai, ai se eu te pego, és atendida ao décimo toque, vais directa ao assunto sem nunca proferir a palavra dinheiro por sofreres de um preconceito, e recebes como resposta Ah (case study: faz sempre parte da resposta cínica/irónica/deslavada, este "ah"?), eu compreendo perfeitamente a sua situação, e imagino como é constrangedora
Hum?


03/05/2017

Preguiça

Eu dada a esforços, dos quais não vejo resultados, e a essa falta que é falha, atribuo a preguiça que me tomou hoje de assalto desde os dedos até aos outros dedos, isto se só contar com a moleza muscular, porque daquela outra, do pescoço para cima, que responda a mente, essa que está sem resposta capaz. 
Ela, senhora na meia-idade — aquela de ter para ter juízo —, magra, recta, alta, longa, ali mesmo ao meu lado, acompanhada de PT, rapaz musculado como se impõe, impondo-lhe exercícios vários e variados, não fosse ela enjoar de uns, podendo então desenjoar, variando, para outros. Ela, numa pseudo-obediência lânguida, lembrando a preguiça, precisamente: aquele bicho pausado e inteligente o suficiente para enganar um dos seus principais caçadores, o jaguar. Ele, estritamente profissional, mantendo o nível, a consistência e a forma, persistindo sem desviar o assunto que levava ambos ali: o treino dela. 
Eu não quero emagrecer.
Quando eu tinha dezoito anos, pesava quarenta e cinco quilos.
Os rapazes, hoje em dia, já não gostam das skinnies, apreciam mais uma mulher com formas.
Hoje tenho uma reunião, e tenho que estar no meu melhor.
Eu entreti-me...
Pronto, já não ouvi mais nada. Reconheço que o arrazoado de pedidos de holofotes, as demonstrações de autoestima e a feira de vaidades podem ter-me anestesiado um pouco para aquele embate final, mas declaro em minha defesa que não esperava, assim como nunca espero que, da mesma boca de onde saiu a palavra reunião com tamanha frequência, tenha brotado aquela conjugação do verbo entreter: fez-me cair, mais uma vez nesta vida, o anjo da ilusão aos pés, aos trambolhões, desfeito em cacos. 

02/05/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 15

Notícias da minha gata:
Está a odiar aquilo a que a vet chama "o cone". Na verdade, trata-se de um abat-jour, que, efectivamente, lui abat son jour: a criatura anda deprimida e revoltada nas horas, com os dias. Passa grande parte do tempo a lavar aquilo, fazendo com que ele rode a toda a volta da cabeça, continuando a lamber, num processo muito semelhante ao de uma máquina de lavar roupa. Em compensação, não consegue lavar mais nenhuma parte do corpo, a não ser o fundilho da barriga, quase no entrepernasatas, que foi depilada ao estilo Hollywood. Na verdade, é bastante útil que não consiga alcançar com a língua mais nada, a não ser o interior do abat-jour, uma vez que, cada vez que lhe dou o antibiótico e ela cospe uma parte, essa cuspidela fica ali alojada, e lá se repete o esquema de "ligar a máquina", e, assim, o antibiótico fica tomado até à última gota. Teimosa sou eu, que insisto em dar-lho à boca, quando podia perfeitamente dispará-lo para a aba, e depois ela tomava-o voluntariamente, no tal esquema de fazer andar a roda com a língua.
Por outro lado, neste momento não está muito limpa — mas também não muito suja, uma vez que é um gato de casa —, sobretudo na zona do focinho, que está cheia daquele doce horrível do remédio. Os bigodes estão uma lástima de pegajosos e parece querer a todo o momento transformar-se numa rastacat, em tudo menos na atitude. Mas também não lhe vou mandar fazer o buço, já bem bastou a depilação total da barriga. O abat-jour é preso ao pescoço com uma fita de gaze, que ela ontem, de tanto rodopiá-lo, conseguiu desfazer (e tem as unhas cortadas, imagine-se se não) e, pasme-se, arrancá-lo. Vi-me então na contingência de ter que lhe pôr uma fita que encontrei na caixa da costura, very fashionerer, mas ela achou zero piada e ainda ficou mais amuada com o Mundo. Mas que parece Miss Scarlett, isso ninguém se atreva a negar.


Cada vez que vai à veterinária para mudar o penso, rosna desalmadamente, no que parece um rugido feroz. É o que me lembra que tenho em casa um parente de leão, cuja única diferença será mesmo só essa: não ruge. (E é isso que faz dela um felino felídeo.) Mas é capaz de pôr o staff todo a dar uma ajudinha para que não se dê ali uma tragédia, em que a única sobrevivente seja, precisamente, a fulana. 
À conclusão:
1. Ela já me odiava qb;
2. Sou eu que lhe dou o antibiótico;
3. Sou eu que lhe dou o anti-inflamatório;
4. Sou eu que lhe ponho o laço a segurar o chapéu;
5. Fizeram-lhe a depilação, as unhas e o buço está nojento (segundo os parâmetros dela, que por mim está óptimo), o que ela atribui a mim (sinto-o no olhar dela).
Odeia-me sem qb, e para todo o sempre.

01/05/2017

30/04/2017

É preciso tão pouco para me fazer feliz # 5

Foram perto de duas horas a dançar.
Fiquei feliz por ter chegado antes da hora e ter anunciado ao balcão da entrada "Já chegaram as bailarinas".
Fiquei feliz por ter visto pela primeira vez a t-shirt alusiva e ter constatado que era azul.
Fiquei feliz por ter levado a saia verde-alface, que fazia matchi com o desenho da t-shirt, embora tenha ficado toda em desmatchi (legging pretas, ténis cinzento e rosa...). 
Fiquei feliz porque fui a primeira pessoa a ser chamada e fiz uma entrada triunfal na sala, ovacionada pelos cinco professores como se fosse uma artista consagrada. (Adoro ambientes de festa.)
Fiquei feliz porque quem iniciou a aula foi o PT brasileiro, que foi logo para as latino-americanas (of course, mermão!), e foi a melhor coisa que podia ter acontecido em termos de alinhamento, com toda a gente ainda com as forças e a atenção em alta.
Fiquei feliz porque o coordenador da dança saiu do palco e veio ao pé de mim para me mandar subir para lá. (Mas eu não fui, porque vedeta que é vedeta tem seu cachet, e ele ou é elevado, ou esquece.) 
Fiquei feliz porque aguentei a maratona e nunca me encostei à parede para respirar/beber água/descansar/gemer.
Até fiquei feliz por ter ficado o resto do dia com umas dores nas pernas que pensei que hoje nem da cama saía, quanto mais fazer outra aula.
Fiquei feliz porque hoje voltei lá. (Os cavalos não se abatem.)

29/04/2017

Suar a camisola



Dia Mundial

da Dança.
Cada um comemora os seus.
Hoje é a minha vez.

Cá vos apresento Meta Nagode, que deve ser a melhor dançarina de Zumba (que eu conheça), e que não precisa de ser magra e curvuda para fazer isto com o corpo.

 

28/04/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranha é a tua relação com o teu gato?

Veio para casa com cinco semanas, cresceu e passou a ter cios, como qualquer gata adulta.
Já não se aguentavam os miares, os gritos, os roçanços num candeeiro que caía constantemente (e era sempre aquele, que até tem outro igual, mas era aquele e só aquele), os encarranchamentos, e ultimamente, uma ou outra marcações de território. Além da agressividade, que talvez até fosse piorar com o passar do tempo, além dos desassossegos a aumentar de frequência: os cios, que vieram tão tarde (a dias de fazer um ano), passaram a uma cadência de semana sim, semana não.
Irremediavelmente, dona Pequena Molly foi a esterilizar. 
Foi estranho enquanto durou a ausência dela em casa: abrir a porta e não me sair a jacto o bicho, sentar-me ao computador e não a ter a morder-me a mão esquerda (a do rato), o próprio rato, a tentar apanhar o cursor com a pata, a deitar-se em cima do teclado. Foi estranho poder abrir o roupeiro, uma gaveta, a minha mala, sem que ela surgisse do ar e se enfiasse lá dentro. Foi estranho não tê-la a atormentar-me os passos, a esconder-se para me apanhar na curva, a pregar-me sustos por tudo, a não me deixar estar sem ser em permanente estado de alerta. Podia ter sido um dia de alívio, mas não foi.
Depois fui buscá-la.
Fui encontrá-la com um vestido cor-de-laranja, baralhada e furiosa, e, por baixo, uma fralda. Pedi à veterinária que lha tirasse (péssima experiência quando foi da Mel), e ela entendeu tirar-lhe também o vestido, por lhe estar largo (muito fit, a minha gata). Teve que ser amarrada com uma toalha, foi necessária a força de duas pessoas. Mesmo meio anestesiada, a minha fera não se deu por vencida. Mas os gritos, que passaram largamente a definição de rosnados, não me saem da cabeça até agora. 
Veio para casa com um funil, e agora tenho-a aqui, prostrada e infeliz. Parece um objecto. 
E estou cheia de pena dela, e desejando que volte a trepar à minha mesa e que venha embirrar comigo outra vez. Já não sei viver sem ser em permanente estado de alerta.
No fundo, desejo que a operação não lhe modifique muito o feitio. 


Quando te chamam "uma personagem" e tu ouves um elogio com música de amor

Eu sou aquela pessoa que pretende ir até Belém, partindo, digamos, do centro da cidade, e faz uma passagem pelo Cristo Rei, por exemplo. 
Não sei que diabos tenho eu com a mania de atravessar uma ponte cada vez que me perco. Já uma vez fui parar a Alcochete quando apenas pretendia alcançar essa bela localidade que dá pelo nome de Prior Velho. 
(Isto, antes de conduzir, também não era melhor. Recordo com saudade e mágoa uma vez que fui parar a Benfica para uma entrevista de emprego, porque li qualquer coisa Calhariz.)
(Já nem sei que emprego era.)
(Nunca cheguei a saber, aliás.)
Enfim.
Na minha inesgotável e descendente carreira de UBERMomSCUT, ofereci-me compulsivamente para ir a Belém buscar um dos meus amores de perdição, cansada que estava ela de onze horas (leram bem, onze) de trabalho (mas calma, ó sindicatos, é trabalho esporádico), que lhe exigiu uns saltos altos aos quais aquele pezinho mais belo e mais bom (que fui eu que fiz) não está habituado. 
Meti-me pela avenida de Ceuta afora, cujo máximo de velocidade permitida parece uma anedota, mas vá que não me ri. Limitei-me a ir ali, em velocidade de cruzeiro avariado, a ver a bela paisagem que constitui o Casal Ventoso. Em chegando ao semáforo antes de seguir em frente, normalmente, tem que se parar o carro, porque parece que está sempre vermelho. E pára-me a boneca. Mas que palhaçada é aquela da falta de orientações que expliquem detalhadamente que quem vai em frente tem que se meter por aquele lado e quem vai para a ponte tem que se meter pelo outro? 
Suponhamos que me mantive à direita, feita bem comportada do trânsito, e isso pode ter valido uma volta de ida e volta pela Ponte 25 de Abril. (Vá que tinha combustível. Dízel, como dizem os taxistas.) Andava com saudades do mar, vi o rio. Cada um tem o que merece.
Dez minutos mais tarde, estava de regresso a Alcântara, mais uns quantos e atingi Belém. Fui dar com ela fermosa e descalça, com aqueles olhos lindos que se fazem numa linha quando ri (também fui eu que fiz), e ouvi aquilo que me pareceu um elogio:
- Ó mãe, tu és uma personagem. 
O tanto que nos rimos juntas valeu pelo engano, pelo combustível, pelo tempo perdido, que foi tempo ganho — amorosamente. 

27/04/2017

Quantas proibições vês?

Imagem recolhida no dia 25 de Abril
São demasiadas, concordo.

Quando fazes aos outros o que não gostas que te façam a ti

Coincidimos na aula de dança, coincidimos depois no balneário, coincidimos finalmente na saída do ginásio. Como uma sombra, assim mesmo, muito maior do que eu, ela esteve sempre quatro passos atrás de mim, coincidências que acontecem, como numa coreografia bem ensaiada. Tínhamos recebido a novidade de uma aula especial, extra-plano, com o triplo da duração das costumeiras, e ambas queríamos fazer a inscrição para o evento. Ela, enorme, possante, chegou ao balcão os tais quatro passos depois de mim, pelo que fui atendida em primeiro lugar. Disse ao que ia, que queria inscrever-me na aula especial. Ela encostou-se no outro extremo do balcão, à espera que chegasse a sua vez, atenta, porém impaciente. Enquanto era atendida, vi num relance que toda a linguagem corporal dela denunciava pouco tempo/paciência/vontade de esperar. Pareceu-me cansada e atribuí a cara fechada a isso mesmo.
A funcionária perguntou-me se queria a t-shirt alusiva ao dia e eu ai que sim. Perguntou-me de que tamanho, e eu "XS, então não se vê logo?", mas ela não percebeu a ironia e disse-me que não tinham XS, com as sobrancelhas elevadas ao nível da raiz do cabelo.
Nesse momento, ela começou a borbulhar, aquele ponto da fervura que não tarda à ebulição. Fitava-me fixamente, contrariada e suspirante. Imagino que terá rolado mentalmente os olhos várias vezes.
- Então o S, pronto. Vai-me ficar largo, mas depois mando apertar à costureira.
(Isto era uma piada.)
Quase a ouvia bufar, a três metros de distância, enquanto me lançava olhares de enfado e pressa. A outra escrevia no computador sei lá o quê, que também não atava nem desatava com a inscrição nem com a t-shirt. 
- Tem aí alguma para eu ver o tamanho? — Quis eu acelerar o processo, abreviando a agonia da minha companheira de aula. E não esperei a resposta, fui para o expositor das t-shirts, para confirmar.
- Pode ser o S, sim.
Os olhos dela em alvo, ou melhor, eu em alvo, os olhos dela em mira, chispando. 
Finalmente, explodiu, e avisou:
- Vou-me embora, venho cá amanhã. — Na voz a raiva, no andar a fúria.
Não se costuma dizer que "Nas costas dos outros vejo as minhas"? Pois, foi exactamente o que me aconteceu. Pude ver-me ali, em tantas circunstâncias em que simplesmente desisto, porque está uma chata a fazer o Mundo perder tempo.
Não me posso esquecer de que vamos dançar juntas. (E de que ela é muito maior do que eu, já disse?)

26/04/2017

"ó amor"

[Agora tudo a achar que LB, aquele ícone, vem para aqui a estas desoras fazer uma declaração pública de amor, e toca a clicar no post. Oh, wait, isto vai aparecer no feed.]

Este meu blog faz-me lembrar o senhor da papelaria ao pé da minha casa, que é um senhor que já morreu há, pelo menos, vinte e quatro anos, tantos quantos eu levo de moradora aqui nesta minha zona. Toda a gente já percebeu que o homem está morto, menos a mulher dele, pois continua a tratá-lo por "ó amor". Também deve haver alturas em que eu trato esta coisa por "ó amor".
A ver se não me engano e não trato o homem por "senhor blog", um destes dias. 


25/04/2017

Errar é desumano

Isto vem um bocado a propósito do post de ontem.
Perco a conta ao número de erros, enganos, lapsos, gralhas e artoadas no Português que vejo e ouço todos os dias. E é muito raro corrigir ou chamar a atenção, sobretudo se estiver em público. Reservo-me aqui para o blog, para a cobardia do anonimato que é um nick.
E logo eu, que tenho a PDM com a minha língua tão amada (não me refiro ao órgão), e que também erro? Incrível, também me engano. Também escrevo e digo coisas que só me dão vontade de me açoitar. (Tenho intimidade comigo para isso, nem sequer preencherei os requisitos do crime de violência doméstica.) Ainda outro dia, neste post, escrevi dizimação maciça em vez de dizimação massiva. Mea culpa, sei perfeitamente que maciço é uma qualidade de alguns materiais (e não, não fui ver à nettinha, porque, errrr... sei.) Também não foi preciso que alguém me mandasse mail a avisar do erro, ou pusesse num comentário. Simplesmente, como veio, o erro foi. Horas depois, deu-me aquele vaipe — ahhhhh! —, e corrigi, em pleno semáforo vermelho.
Diz que errar é humano. É. Fico, assim, muito mais descansada.
Mas persistir no mesmo erro é que já não é. É qualquer coisa de irracional, no sentido em que não existe um processo de raciocínio entre um engano e outro. É quase, regressando placidamente ao meu exemplo, como na violência doméstica: à primeira és vítima, à segunda já és cúmplice. Quando cometo pela segunda vez o mesmo erro, posso ser apenas uma pobre vítima cúmplice da minha própria estupidez.
Assim como errar sistematicamente, também não é nada humano. Lembra os bois, incapazes de entrar no curral, incapazes de largar as traves, embora elas até os aleijem de cada vez que lhes marram. 
Vem tudo isto também a propósito de gente que se engana e pede uma explicação, que lhe é dada totalmente de graça, sem smileys assim :) ou assim :P, sem qualquer espécie de emoção nas palavras, já para não entrar "ruído" no recado, e ainda se amofina que os outros são todos uns arrogantes e que julgam que sabem tudo e que nunca erraram, e o genitalinho a sete. 
Gostava de saber como é que estas pessoas um dia sequer conseguiram lidar com professores, há muitos anos, quando andaram na escola (andaram?). Também lhes chamaram arrogantes de cada vez que lhes foi dada uma explicação — aí já não totalmente de graça — sobre onde é que estava o seu engano e qual a melhor forma de o sanar?
Deve ter sido. Assim, de facto, ninguém aprende coisa nenhuma.
Ámen, porra.


24/04/2017

Lapsus linguae

Entramos juntas na loja onde tudo cheira tão bem que devia ser obrigatório. Estamos animadas e felizes por estarmos juntas, é domingo, dia de mais uma partida que eu quero adiar por me partir sempre um pouco a mim, daquele tanto de mim. Queremos uma vela aromática que transforme o quarto dela, lá longe, num espaço que, não podendo ser bonito, ao menos que seja cheiroso. Começo a juntar cremes no cesto, o do corpo, o da cara, o específico dos olhos, e o nosso entusiasmo contagia-se à funcionária, que começa a oferecer-nos amostras de cremes de mãos, de cremes anti-rugas, de cremes, enfim. Espalho ainda um deles, disponível no tester, pelos braços acima. Ela está esquecida da vida e quer também pôr nos dela. Lembro-a de que tem alergia a perfumes, mas o ânimo não lhe esmorece e faz aos braços o mesmo que me viu fazer aos meus. Mostra as manchas de pele seca nas articulações à senhora, e eu explico: "Tem pele atópica". Recebo então a resposta pronta e rápida de quem já viu muito, mas não tudo-tudo:
- Isso não é só pele atópica. Isso é também equizema.
Mas eu estou feliz, perfumada e contente com a quantidade de amostras que levo no saco. E não me apetece explicar que equizema não existe, e que a expressão pele atópica, já por si, significa a existência de um eczema (eczema atópico).
Não é verdade, este último parágrafo: não foi por não me ter apetecido que não corrigi a senhora. Foi porque ela era um poço de simpatia e não merecia. Nunca o faria, efectivamente. Afectivamente.


Na blogosfera como na vida # 4

Sem palavras.

(No entanto, escrevi três rascunhos. Quatro, se contar com um de ontem. Cinco, com o de anteontem. E seis, se contar com um que está na cabeça, sobre cantis, o plural de cantil. Ainda vou conseguir transformar esta coisa num amontoado de posts que nunca viram a luz do dia. Só a escuridão. Que tétrico.)

23/04/2017

Não há flores no meu caminho

(Sei que já dei este título a um post, mas gosto dele e aceitemos de uma vez por todas sem mais discussões nem dramas que o blog é meu, portanto posso repetir-me e trepetir-me até me cansar, sematepecer.)

Não há flores no meu caminho, mas há ciclistas — isolados ou em grupo — que, oh surpresa!, passam e desejam "Bom dia!"; há, logo de seguida, uma senhora gorda que me apita para que saia da ciclovia e ela possa passar de carro; há aquele algodão amarelo não sei de que árvore caído; há formigões (que ganham asas nos dias de chuva, como os invejo), bichos da conta, marias-café, lagartixas, caracóis, borboletas, abelhas e zângãos, melros, pardais, arvelas, até me esqueço dos pombos, às vezes um bando de papagaios, mais raramente uma águia que há quem afiance que é um falcão; há gente que anda, gente que corre, gente que passeia o bebé, gente que pedala, gente que passeia de traje desportivo, aos pares, aos grupos, sozinhos — como eu, que preciso de mim e do meu ritmo de marcha que respeite a minha passada, de corrida que pouco mais é do que marcha rápida (só não abano as ancas daquela maneira, acho eu), absorta na minha música, nos meus pensamentos e no que os meus olhos captam. E, por acaso, hoje ia a pensar que, se um dia começar a (só) correr, terei sempre que o fazer sozinha, exactamente pela necessidade que tenho de dar tempo ao meu tempo, e para evitar cometer alguma violência sobre um/a pretenso/a companheiro/a de esforços e suores: estou certa que seria alguém com 66,66666...% de hipóteses de apanhar uma bordoada, caso corresse mais depressa do que eu, e também se corresse mais devagar. Portanto, deixem-me lá ir sossegada, que eu não faço mal a uma mosca e até desvio caminho só para não pisar as cascas dos caracolinhos, coitadinhos. E as formigas, e não sei quê. Juro.



22/04/2017

Désanchantée, Mr. Blogger

Perdi a possibilidade de ler blogs em chico-smart na versão para telemóvel. Apenas me restou a versão para web, o que, em aparelhómetro daquelas dimensões, significa a cegueira total, ou então o ter que aumentar o texto e andar a puxá-lo para a direita e para a esquerda, se o quiser ler. Se, em posts pequenos, vá lá que não vá, nos meus lençóis de cama de casal torna-se uma saga impraticável que leva a pessoa ao enfado e à desistência. E eu pecadora me confesso, também gosto de me ler a mim. (Ainda ontem, por exemplos, corrigi uma gralha num post publicado há horas, em pleno semáforo vermelho.)
Não sei o que se passou, se a iniciativa partiu do Blogger, ou se é chico que ameaça o adeus à vida e eu finjo não perceber. Mas não apreciei. Fica aqui o meu voto de protesto, não sei contra quem, mas sei contra o quê. 

´tá-se bonito...


21/04/2017

uma gota no oceano

Tocaram-me à porta, como quem me toca no coração. Do lado de lá da placa de madeira que nos separava, a voz de um de dois, macia e delicada, anunciava a UNICEF. Ficaram felizes por saber que haviam batido à porta errada, pois que atrás dela encontraram uma pessoa já Amiga da UNICEF — designação que me enche de orgulho e tomara que maior paz —, o que fez cair pelo pó da terra a necessidade de convencerem mais uma a contribuir (o verbo ajudar faz-me tremer as penas). Porque ainda é preciso bater porta a porta — e quantas permanecem encerradas? —, pedir e mostrar as caras de quem foi socorrido pela UNICEF (os voluntários são quase todos antigas vítimas de flagelos) para que quem não é necessitado do básico (água e comida, não me refiro sequer a electricidade e gás, tão pouco a combustível e uma cama fofa) perceba que metade da população mundial vive abaixo da linha (que irónico, chamar linha a uma fronteira tão trágica) da pobreza. E que essa linha é uma corda grossa que agrilhoa o pescoço, da qual nenhum de nós está livre, bastando apenas estarmos no epicentro errado de uma catástrofe natural ou de uma guerra, para que a aparência de tranquilidade em que vivemos — nós, do lado de da linha — possa alterar-se de um minuto para o outro.  
Ainda tenho na memória os negros olhos do jovem que, um dia, me bateu àquela mesma porta e se apresentou como voluntário da UNICEF. Vinha propor-me uma contribuição mensal mínima para que todos os dias uma criança pudesse ser vacinada. Também guardei no coração o brilho aquático daquelas duas doces azeitonas, ao ver-me assinar os papeis sem um pestanejar das minhas, quando confessou "Eu também fui uma criança dessas, e foi a UNICEF que me salvou". 
Agora, com toda a celeuma à volta do tema "Vacinação - sim ou não?", questiono-me se um destes dias não serei vista como uma contribuidora para a dizimação massiva da população do lado de . Estou há anos a vacinar uma criança por dia. Passaram de mil as crianças que contribuí para vacinar. Pergunto-me ainda que alternativa apresentariam as facções anti-vacinação se singrasse entre nós, povos evoluídos e assépticos, a cólera, a diarreia, a febre tifóide, a febre amarela, só para início de uma conversa que não deveria ter que existir. Quero acreditar que passaram de mil as vezes que fintámos a doença e a morte, juntos, as crianças, a UNICEF e eu. E é dessa paz que falo ali em cima: não o apaziguamento das consciências, o deixa cá dormir na minha cama fofa sem pensar que há pessoas deitadas em chão de terra com a barriga vazia de alimento e cheia de subnutrição, e sim porque o caminho para a Paz se percorre com passos pequenos, é certo, mas firmes e perseverantes.
E eu sou apenas uma gota no oceano, mas também faço parte dele.


20/04/2017

Na blogosfera como na vida # 3

Para quando o emoticon rolling eyes no Blogger? Faz muita falta, nem que seja para resposta sem texto, quando já não há mais nada a dizer, como naqueles romances.

(A partir de hoje, com LB: é copiarem o endereço da imagem e colarem onde vos apetecer. É melhor que nada.)
Para quando gente que se manca e percebe que nem sempre o calado se calou porque consente no arrazoado, mas porque lhe entrou um neurónio em coma e está a prestar-lhe primeiros socorros? E que ter a última palavra pode não significar que se proferiu a mais certa, e sim que a discussão morreu de morte fulminante, porque: 
1. Não era aquele o ponto;
2. Não era aquele o lugar;
3. 1 e 2 juntos;
4. A paciência de um dos interlocutores entrou em esgotamento nervoso/cerebral;
5. 1, 2 e 4 juntos.

19/04/2017

Eu tenho problemas com tudo # 22

A indecisão foi qualquer coisa inventada pelas mulheres, já a outra com a maçã, mordo-não-mordo, dou-lhe-a-morder-não-dou, transformo-isto-numa-metáfora-para-todo-o-sempre-não-transformo...?
Se não, vejamos: sou literalmente compelida a entrar numa lojeca de bairro, que vende umas roupas ao estilo jamé-Salomé (sim, hoje estou bíblica) e uns acessórios tipo bugigangas. E digo "compelida" porque a criatura que está de serviço se encontra à porta, encostada à ombreira, vê o meu interesse relativo por uma pequena bolsa que está na montra — da qual preciso desesperadamente para meter coisas muito pequenas e dar largas à compulsão que me afecta desde a mais tenra infância. (Em miúda juntava todo o meu dinheirinho para comprar porta-moedas, e depois ficava sem ter o que meter lá dentro. E sim, sou uma pessoa normal) —, e chama-me para ver o interior da loja. Vou também atraída por uma coisa branca, qual luz (eu bem digo), pensando que é uma saia branca e gira, mas afinal trata-se de um par de calções daqueles que usam as senhoras da lota. Não sei se por isso ou porque era chata, a mulher colou-se-me ao corpo daquela maneira do futebol e do basquete, que era eu a ir do expositor dos trapos para a montra e ela sempre na minha cola a um ponto em que ponderei mesmo abraçá-la, mas sem a beijar. Uma coisa de não conseguir mexer-me, como nas lojas do xnês.
Se já tenho grandes dificuldades em perceber a mentalidade de quem acha que as fancarias que tem à venda são roubáveis, ainda maiores entraves ao conhecimento me suscita o que ocorre na mona de uma figura que me veio buscar à rua, me obrigou a entrar na loja, quase me arrastando pelos cabelos, praticamente me ameaçando sob arma de fogo, e depois me sujeita àquela tortura que envolve intimidade física, só para que não lhe leve dali sem pagar o artigo de três euros e meio. Ora, vá-se catar, se eu quiser sujar as mãos meto-me na Longchamp* ou na Tous*.

* NMPPI, infelizmente.

18/04/2017

Jaguar

Comprou, em segunda mão, mas quem sabe em primeiro coração, um carro de marca cara, coisa para o encher e inchar de vaidade. Fez-se impante, soberbo, ufano daquilo. Assim percorre os passos naturais da chegada à meia-idade, necessitando de sinais exteriores de riqueza e status, para afirmar ao Mundo uma valia que, segundo aqueles cânones, deles deverá depender. 
Chega junto de meu Rosinha, minha canoa, coisa linda, coisa boa, ainda com dois mesinhos mal contados da vida, exclama Eh, pá, granda carro!, mal escuta quando lamento o risco que lhe fizeram de uma ponta à outra, e coloca os dois cotovelos na janela do passageiro, a cabeça dentro do carro. Sei que vai começar a feira de vaidades, ocorre-me que posso pregar-lhe um susto subindo um pouco o vidro, mas refreio a irreverência e dou-me ao sacrifício. Percebo que não aguenta nem mais um minuto sem falar na aquisição do seu orgulho, mas que tudo fará para disfarçar a pressa que tem em chegar ao assunto. Primeiro conta que foi não sei aonde, à neve, depois que veio de almoçar não sei aonde, ao peixe grelhado, e termina com:
- Já não cabemos todos no carro.
Tem três filhos, naturalmente que um carro comum fica lotado com cinco ocupantes. (O quarto filho é o filho do carro novo, eu que o diga.) Mas é-lhe fundamental à sobrevivência lembrar que o filho mais velho já tem uma namorada fixa, assim como ele foi namorado fixo durante doze longos anos da mulher com quem casou há vinte e seis, e essa longevidade, feita de antiguidade e resistência, lhe atribuirá, igualmente lá nos tais cânones, uma distinção em relação aos demais, uma espécie de voto de confiança de bonus pater familias.
- Tivemos que levar o Jaguar.
...

Já não cabemos todos no carro. Tivemos que levar o Jaguar
Isto, convenhamos, não existindo maiúsculas na linguagem falada, que imagem mental faz uma doce parola desavisada como eu?


17/04/2017

And that awkward moment # 24

em que recebes um sms da pessoa menos urbana (não quis chamar rural ao senhor, está bem?) que conheces, a dar-te conta do seu novo número de telemóvel — como se ele não constasse do remetente, mas acredite-se que ainda há quem desconheça certas e determinadas minudências tecnológicas (e eu até sou uma dessas personas, só que noutros sectores da high-tech) —, que inclusive te trata por menina e pelo teu petit nom, e, no fim, exactamente no fim da mensagem, assina... e coloca reticências a seguir ao próprio nome?
E tu, a quem aqueles três pontinhos dizem tanto por aparentemente nada dizerem, ris-te como uma tola.
(Que enigmático, Monsieur Marques...)



16/04/2017

Uma questão de ego


(Foi este o percurso que percorri e corri por duas vezes nos últimos quatro dias, perto do local para onde me desloquei a banhos de sol e mar. [Não costumo ir para lá, não volto para lá, não me procureis lá, não me achareis lá.] É uma longa recta de ciclovia, ladeada por um longo passeio de peões que, com sorte, não está pejado de carros estacionados.)
(Vá, vamos considerar que quem começa a andar não tem que, necessariamente, cair, mas é suposto dar primeiro passos de bebé, fazer pequenos percursos, dar umas pequenas corridas, e só depois ganhar calos nos pés, confiança, e deslargar-se a correr como se houvesse amanhã e nesse amanhã houvesse uma meta [a cumprir]). 

Por falar em metas, visando aquele objectivo de me melhorar a cada dia, ia eu pela estrada fora, bem sozinha — tal e qual o Capuchinho, mas sem a cesta —, encontrava-me sensivelmente a meio da recta, quando me apareceu, caído dos céus aos trambolhões, um cidadão espanhol que, surpreendentemente, só falava castelhano. Vinha montado numa bicicleta, qual cavalo alazão, e abordou-me com uma algarviada que me pareceu "Onde é que fica a farmácia?". Olho para a direita e vejo um quilómetro de recta. Olho para a esquerda e vejo um quilómetro de recta. Abro os braços em Cristo e elaboro mentalmente a resposta, no meu melhor espanhuelo: Siñor, por supuesto, la farmácia es equidistiante para la derecha e para la esquierda. Tanto le dá en Muente Guerdo ou en Vila Real de Santio Antiónio. Es mejor que pedales para lo lado que te apetieça, mas pergunto, à cautela, en claríssimo portunhol: A farmácia? E diz-me ele: No, pergunto se te llamas Marcia. Es muy parecida con una amiga mía, brasileña, llamada Marcia. 
(Caracoles. Então interrompe-se a walk-run a uma senhora para vir com esta conversa de [digam vocês], o estupor?)
Acho eu que não perdi a compostura, mas fui tão parva por não me ter lembrado de imitar o sotaque do Brasil: 
- Não, nem Márcia nem brasileira. E sua amiga, também não. 
E ala, com andar de antipática, que é assim um andar firme e certo que eu cá sei.
Ooooolé!


15/04/2017

Dou-Le o bloqueio mental

É loira, num tom um tudo-nada reforçado quimicamente, ou um tudo-tudo, mas o que importa isso, se é gira? De resto, como muitas loiras portuguesas, sofre de contraste denunciador no Verão, pois que bronzeia a pele uns tons acima do que tem no cabelo, lembrando o negativo de uma fotografia das que havia há muito, muito tempo, era eu uma criança, mas o que importa isso, se é gira? Já não é nova, ainda não é velha, é magra, seca, não é bela, mas o que importa isso, se é gira? E de uma simpatia quase contagiante, com um discurso que quase transmite confiança, fluente, esclarecido, quase esclarecedor. Usa e abusa da entoação de titi, a mááim (mesmo quando se refere à minha mãe, como se fossemos filhas da mesma), o pááii, os tzios, as tziáás, os ôçás. Uma pessoa embala-se naquilo e até acha piada, mas que diabo, o que é que passa pela cabeça destas pessoas, que montam um boneco tão frágil e que as fragiliza tanto? Mas lá segue, inebriada pela sua retórica imaginativa, que toda a vida viveu numa moradia destas (no luxo de Cascais), que os pais tinham uma assim, igualzinha, e juro que até ouço violinos a tocar. (Logo eu, que fico nervosa com violinos.) É gira, pode tudo, até mesmo ser a caricatura de si mesma.
Eu costumo dar-Le; 
Eu faço-Le; 
Eu vou-Le dizer uma coisa.
Não consigo ouvir mais nada de cada vez que ela assassina o H ao pronome. Bloqueio ali e fico Le-Le-Le-Le, ad infinitum. Hipnotiza-me. 
Gira, mas não tão gira que lhe possa perdoar um crime de lesa pátria.


Sumol lalanja



13/04/2017

Operação biquíni 2017 ad eternum

Hoje é aquele dia dos 365 em que uma mulher dava um braço pela sua invisibilidade: o primeiro dia de praia.
Não a rala o pêlo tresmalhado, a estria fluorescente, a celulite marota, o papo inoportuno, o derrame extemporâneo. Mas a cor com que se apresenta aos demais e também aos outros, é capaz de fazer deste dia tão azul o mais temido do ano. No entanto, o tom, sendo areia, embora não possibilite que uma pessoa se torne invisível, pelo menos permite a camuflagem, bastando, para tanto, que se estenda directamente no areal. Poupa-se um braço que, de caminho, também bronzeia.




12/04/2017

Eu tenho problemas com médicos # 24

Chego-lhe recomendada pela minha irmã. Sei, pelo apelido que tem, que, por sua vez, é irmã de um outro médico do meu coração, pediatra que foi dos meus filhos. Só isso já me merece simpatia. 
Faz-me esperar para lá do razoável, mas não me perturba a paz de estar numa sala de espera limpa, arejada e luminosa. Os outros doentes são pessoas de idade, tristes e queixosas. Não me atrevo a impacientar-me. 
Recebe-me, inexpressiva, estende-me a mão (os médicos dão-me beijinhos, as médicas apertam-me a mão. Faz sentido), sento-me e digo ao que vou. Pergunta-me quem a indicou, respondo que foi a minha irmã, digo-lhe quem é, mas não se lembra. Acho-a um pouco louca, sobretudo quando venho a saber que estiveram juntas nessa mesma manhã. (Eu gosto de loucos distraídos. Os outros, mais concentrados, enlouquecem-me.) Pede-me a história da minha vida cardíaca, e relato-lhe o rosário de amarguras que já vai em três gerações, por via paterna, tudo homens. Suspiro no fim, e digo: "Ainda bem que nasci mulher". Olha-me sem me ver, pergunta-me quantas vezes já fui operada e desfio outro rosário. Escreve, escreve, enche a ficha branca de texto corrido, distraída de mim, que observo o gabinete, distraída dela. Estão caixas de fichas de doentes dentro de um armário de portas de vidro, de A-D, de E-H, de I-L, e uma outra, em maiúsculas, MARIAS. Digo-lhe da coincidência de ser irmã do pediatra dos meus filhos, abre muito os olhos, mas, impassível, pergunta: "Então, conhece o meu irmão?". Fala tão baixo que eu julgo que se lembrou da minha irmã, e respondo: "Sim, do seu outro consultório". Ela deve achar-me louca, quando corrige, "Não, o meu irmão...". 
Saio com a certeza que vou parar à caixa das Marias, cheia de sorte por ter nascido mulher.


11/04/2017

Isto é como se, de repente [qual me oferecessem flores, qual quê!?], eu ficasse detentora de um super-poder

Tenho comigo uma fotografia do meu cunhado, talvez com oito anos de idade (ou nove, ou dez, o que é que isso interessa?), vestido com umas calças de xadrez e uma camisola de riscas largas, em que não só os padrões gritam my eyes, my eyes!, como também as cores berram umas com as outras. 
Tendo em conta que ele não tem nenhuma fotografia minha de kilt e de meias até aos joelhos — e que aquela vez em que mana e eu usámos saias azul-cinzento, cravejadas de barquinhos, com blusas de riscas, não conta, até porque ele não sabe, mas vocês sim —, sinto que tenho um novo poder, embora não saiba bem qual, sobre ele, de cada vez que me fizer ficar nervosa. 
(Qual chantagem, qual carapuça, lá vêm os juristas de serviço.)


Gosto cada vez mais da Rua Cor-de-rosa

Isso faz de mim uma blogger faishionerer? 
Faz.

Fazei zoom nos gatos e no beija-flor. São belíssimos

(Muito à vista a falta de gás para elaborar textos?)

09/04/2017

A hierarquia da ciclovia

Agora que frequento uma ínfima parcela do que é uma ciclovia, apercebo-me de realidades. Aquele tapete vermelho foi feito a pensar nos ciclistas.
Pronto, hoje acordei assim, reencarnada em LP. La-Pa-lis-se.
Acontece que aos ciclistas assiste uma soberania sobre a cena, que dá o que pensar a pessoas como eu, que se limitam a calcorreá-la como se daquela de Los Angeles se tratasse, com a única diferença de que não vamos burlescamente despidas nem perigosamente calçadas.
Já me havia dado conta de que os ciclistas mal toleram os corredores que, convenhamos, dentro das cidades simplesmente não têm onde praticar a sua actividade se não for ali. Ou alguém acha possível que se possa correr convenientemente na calçada portuguesa, que é um desafio para os saltos altos tornozelos? Com pessoas com vários ritmos, idades e credos, carros estacionados, empata-[preencham vocês] e lesmas a passar a todo o momento? 
Ele não são todos, mas há muito quem se escarranche na bicla, se coloque na ciclovia, e se adone dela como se, de facto, ela fosse um exclusivo qualquer, lavrado no cartório da sua imaginação. E é, não deixando de ser, sim senhores. De si e de todos os companheiros de pista, desde que alçados sobre duas rodas que não tenham motor acoplado. No entanto, a atitude de enfado, a impaciência e até repulsa que alguns manifestam por quem mais ocupa um cantinho da pista (parecendo que enfrentam multidões!), fazendo alguns questão de praticar o quase-cicloatropelamento (crime que inventaram e que há-de chegar ao Código Penal, so help us God), é que é de assinalar e louvar. 
Com isto, nasceu também, de parto natural, a soberania dos corredores sobre os caminhantes. Ora bem, mas foram eles que me incentivaram a mim, e a tantos como eu, a começar a correr dar uns sprints umas corridinhas! Vejo passar um, e, se é dos tais que me ultrapassa já danado (porque posso estar a obrigá-lo a contornar a minha imensa figura e a perder um cagagésimo de segundo lá na m. da aplicação dele), já só me apetece correr atrás, alcançá-lo, ultrapassá-lo e travar de repente, catrapum.  
Pronto, tudo isto, no fundo, se resume a um boneco.