31/12/2014

Entrem bem / Desta minha mania de dizer a mesma coisa por outras palavras, que já foi a minha perdição tantas vezes

Estou para aqui ralada, que este ano não comprei cuecas da sorte para o ano novo, como tenho feito nos outros anos. Na verdade, essa espécie de superstição não me tem resultado grande coisa em termos de sorte - lembro-vos que ainda não ganhei Sir Euromilhões e a tia rica não morre nem à paulada - de maneira que este ano caguei nas cuecas (não literalmente). Agora que fui ler o post do ano passado, acho que já é a segunda vez que o faço, o que significa que o curso da vida continua, mal ou bem, independentemente das cuecas que usamos e se cagamos nelas ou não. Mas este não é o objectivo deste post (embora eu não saiba bem ao certo qual é).

As pessoas desejam boas entradas umas às outras, quando se aproxima o primeiro dia do ano.

Eu digo "Entra bem". Mas soa-me mal. Tenho a mania que sou original, e digo as mesmíssimas coisas que toda a gente diz, por outras palavras.

Faz-me lembrar aquela vez em que, perfeitamente integrada em contexto laboral, criei a mim mesma aquela rica oportunidade de ficar calada, só que não.

Existe a expressão popular que chama "boa boca" a quem come bem, designadamente se se tratar de uma criança. Ou então, "santo bico". Também há quem use "santa boca", ou "santa boquinha".

Olhem, não sei, baralhei tudo.

E anunciei, assim, a seco:

"Eu sou um bom bico"

Reparem que, se eu fosse político, este seria o momento em que a minha carreira iria tranquilamente com os porcos. Mas vá que não sou. Continuo convencida que devia ser presidente da Junta da minha freguesia, tal é a popularidade de que gozo nesta área geográfica, especialmente na minha rua, particularmente no meu prédio.
De qualquer forma, foram épicas as caras que se viraram para mim, naquele momento. Chefe incluída, a azeda.

Quanto às boas entradas, também já tentei fazer como toda a gente, e desejar "feliz ano novo". Mas parece que acrescento um S à palavra ano e a frase fica, no mínimo, ciciosa. Parece

Feliz ânus novo

Não é bonito.

Mais vale dizer "Entra bem".

Olhem, entrem bem. Mas depois não se queixem.

E caguem lá nisso das cuecas.

30/12/2014

Eh pá, parem de me dizer 'olá' nas lojas!

Mas qu'esta porra agora de uma pessoa entrar numa loja e levar com um "olá"?

Mas eu sou alguma garota, ou quê?

E andámos todos na mesma escola, queres ver?

Já não há bom dia e boa tarde? Faleceram, por acaso?

Vai uma pessoa na sua vidinha, entra numa loja, dirige-se a um balcão e nem tem tempo de desejar bom dia, já está a levar com um "Olá", ou, na melhor das hipóteses, um "Olá, bom dia!". Juro que fico feita parva, a olhar à volta, a ver se não está por ali perto um dos meus amigos ou um colega da primária, que, entretanto, à falta de melhor ocupação, resolveu abraçar a carreira de ventríloquo e projectou a voz até à personagem da loja. Ou então, ponho-me a estudar os traços fisionómicos da dita, a ver se não teremos uma relação próxima, porém que eu, afectada por amnésia temporária, não estou a ver, naquele momento, qual é.

Mas a sério. Visionem comigo: eu entro na loja. Certo? Está lá dentro um rapazola com idade para ser meu filho. Nunca me viu mais gorda nem mais magra. Estão a acompanhar? Diz-me aquilo assim à queima-roupa. Bang-bang. O que é que uma pessoa pensa, apanhada desprevenida desta maneira? Queres ver que este me está a confundir com a mãe dele? Ou com a Julia Roberts? 
Isto é uma chatice, ter um tipo físico tão vulgar. Considerando Hollywood, claro.

A minha empregada também já teve a PDM. Chegava à segunda-feira, ou chegava depois de férias, e trás. "Olá!". Mas passou-lhe. Bastou-me uma vez, que me apanhou mais quentinha, responder-lhe "Oláááááá?". Aquela consegui educar.

Agora, o povo das lojas é que é do genital.

E na Nespresso? Mas ca raio é aquela cena do "Olá, boa tarde, como está, passou bem?". Tanta informação requerida numa só frase, embatuca-me sempre. O que é que é suposto uma pessoa responder? "Olá, pá. Olha, estou boa, não se vê logo?". Primeiro que me saia "Três daquelas pretas e três das encarnadas", fico ali uns segundos a pensar se não será melhor sair e depois voltar a entrar e promover a acção do take 2. Eu é que sou a vedeta freguesa, por isso, entro, peço três ristrettos e três descafeinados e não há cá palmadinhas no cu sociais, nem intimidades de "olá" nenhum, senão daqui a pouco estamos a dizer "tchau aí ó boi" no final da compra e "és tão boa, marchavas inteira fora da época dos santos populares e tudo" (por acaso inventei este piropo agora mesmo, podem usar longe dos ouvidos do pessoal do BE, que eu deixo).
Na Nespresso ainda usam de requintes de malvadez maiores, quando nos (ou só a mim?) perguntam: "E a sua máquina, está boa?". Juro que há ali três décimos de segundo de hesitação em que me pára a boneca e equaciono: "Espera. A minha máquina? Qual máquina? O meu coração? Não, espera lá mais um bocadinho. A minha máquina da roupa? Não. A minha máquina deve ser código, para designar alguém da minha família. Pergunto-lhe pela dele? Ou respondo-lhe apenas, 'Heh, uns dias melhor, outros pior. Está com diarreia, mas tenho-lhe dado Ultra Levure...'?"

Eu acho que não me fiz entender. Mais valia não publicar isto. Falava outra vez de mamas e o meu dia era passado, descansadamente, a comer pipocas e a ver as visitas a aumentar em número. Assim, ainda me sujeito a uma carga de chatices e eu já não tenho idade para estas touradas. Olá...


29/12/2014

Então, vamos falar de mamas, ou quê?

Há ou não há um estigma com mamas de silicone?
Um preconceito.
Há.
Vocês desculpem eu abordar assim o assunto, de peito aberto, mas é que é daqueles que não permitem rodeios. Mamas são mamas. Como o trabalho e o conhaque.

E tal. Que são postiças. Que as naturais é que são bonitas. Not. As naturais - como se duas bolsas de silicone metidas debaixo da pele determinassem que aquela mama passa a ser toda artificial - podem não ser bonitas. Ou são, até aos 30 anos de idade. Ou até à primeira gravidez. Ninguém se engane que o que rebenta - literally - com as mamas é a gravidez, não é a amamentação. A amamentação só vai acabar o estrago desenvolvido nos nove meses anteriores. 

Ai. Que há mamas que já tiveram filhos e estão como novas. Pois há. E que deram de mamar e ninguém diz. É certo.
Também há mamas de quinze anos e de vinte que não são bonitas.
E há mamas de 80 que se conservam bonitas. Eu já vi, por isso sei que existem. 
Mas olhem lá, eu não me apetece falar de excepções. Apetece-me falar da regra, que é: manter as mamas bonitas e acima do nível do umbigo, depois de alguns anos de guerra quente, é um oásis só ao alcance da cirurgia plástica. 

Quanto ao preconceito, ando há anos para o perceber. É o preço da operação?
Por exemplo, se uma pessoa nasce com nariz de papagaio ou queixo de limpa-neves, toda a gente acha bem que vá corrigir. E isso fica caro. Tão caro quanto meter bolsas nas mamas. E, no entanto, toda a gente se comove com as lágrimas do narigudo ou do queixadas, mas ninguém tem a mínima pena de uma mulher de mamas descaídas. Porquê? Porque são mamas. Porque se trata de um problema exclusivamente feminino (ou não, visto que há homens que mandam tirar as mamas, mas isso já é uma necessidade, como a das senhoras que têm problemas de coluna devido ao peso das mamas).

Então, é porque é artificial?
Então ok. Não ponham rímel. Isso é artificial. Essas pestanas não são vossas. Os vossos olhos não são tão bonitos. Não ponham base. A vossa pele não é tão homogénea, nem tem essa cor tão acertada. Não pintem o cabelo. O vosso cabelo tem uma cor igual à das outras mulheres portuguesas todas - entre o castanho e o castanho escuro - e tem fios brancos. Não estiquem o cabelo. O vosso cabelo tem aqueles jeitos que vocês detestam e que vos fazem sentir a esfregona das reuniões. Não façam dietas. Sejam como a vossa genética determinou, naquele código único e escrito no momento da concepção. Não ponham aparelhos nos dentes, nem os branqueiem. No limite, não os lavem. Tudo isso são artificialidades e o bonito é sermos como Deus nosso senhor nos desenhou: feios. Tudo o que façamos para nos melhorar a aparência é artificial e, por conseguinte, estúpido.

É?
Oh, pá, não. Parem de viver esse drama a tentar encontrar o soutien perfeito, que isso não existe. Ou melhor, existe, para mamas que estão à frente, para aí da costela III, não da XII. E que, quando o belo do soutien sai, ficam lá: à frente da III, já disse?
Sai conselho, que vale o que vale: se puderem, encham mas é o peito de ar, e depois de silicone. Toda a gente - vocês mais do que qualquer pessoa - agradece o benefício que isso representa para a Humanidade.
Eu sei, porque já vi.

Vá, e agora não me encham a caixa de comentários a falar das minhas mamas, que essas não são para aqui chamadas. Minhas meninas.

But wait

São 9:10 da manhã e  ela já me deu uma injecção de cultura popular. Que não pedi.
Que o antigo porteiro do prédio voltou a viver na Musgueira, check.
Que continua o mesmo malcriado de sempre, incapaz de dizer bom dia, check.
Que a filha é burra, está farta de chumbar...

E a mim ocorre-me tantas vezes aquele gif do Shame on you blogueira.

But wait...



- Como burra? Como farta de chumbar?

É que isto parte de uma pessoa cuja filha tem 18 anos e está no 8.º ano (pela segunda ou terceira vez). Sem patologias, ou vagamente uma hiperactividade diagnosticada à pressa, a ver se a escola não lhe dá o merecido pontapé no traseiro e não a manda mas é lavar escadas, em vez de estar a ocupar uma vaga e a desestabilizar aulas de miúdos com menos cinco anos que ela. Eu disse cinco. Nasceram um ano antes de ela entrar no ensino obrigatório.

- Já chumbou para aí três vezes.

- E isso, acha que é muito? Três anos perdidos é sinónimo de burrice?

[que direi cinco]

Fim de papo. Fim da injecção. Ela e eu nunca estamos a falar do mesmo assunto, mesmo quando parece que estamos a conversar.

28/12/2014

O que vos traz aqui?

Estava eu ontem meditabunda acerca do que é governar esta grande nação que é ter um blog, quando, de repente, as minhas visitas diárias passaram de 138 - isto eram umas 6 ou 7 da tarde - para 400 e uns pós, tendo chegado ao fim do dia com a PDL que foram 449.

Ora, isto ainda me deu mais o que pensar. Houve para ali um dia, a semana passada, em que pus um video da minha ida às Amoreiras (o dos três ursos, em que um deles treina o soalho pélvico à frente de toda a gente), que admito que deve ter tido mais visitas por terem aberto o video no youtube e, de alguma maneira, terem elas sido contabilizadas aqui para o meu buraco. Também, de vez em quando, há um blogger cheio da pinta que chama o pessoal um bocado à Senhora da Asneira (obrigada, Dona Redonda, obrigada, Gajo, nada disto seria possível sem vocês a trazerem mais uns quantos ao engano), mas ontem, aquelas 300 almas desenganadas, a aparecerem assim do nada, num espaço tão curto, deram-me muito que pensar, e isso, parecendo que não, cansa. Ora, de duas, uma: ou foi a palavra mamas,

mamas, mamas, mamas. A mama. Mama. Uma mama. Duas mamas. Muitas mamas

(isto é um teste, a ver se acontece outra vez. Não bloqueei na imagem mental)

ou foi o tal Gajo que exagerou algures na dose, e depois eu é que pago.

À cautela, fui investigar. E eis o resultado. As palavras chave que trazem o povo ao engano até aqui são estas:



Mas a cabeça doente é capaz de ser a minha.

Depravados.

Por falar nisso, tenho mesmo pensado (não agendado, que eu não sou disso. Isto quando sai, sai tudo de rajada) um post sobre mamas. Tenho muitas coisas a dizer acerca do assunto.

uns acabaram de maca

27/12/2014

Felizmente, as festas estão a acabar

Já só falta uma, que eu espero não seja muito dolorosa. Estou seriamente a pensar em ir para o Terreiro do Paço assistir ao concerto do José Cid (que já foi Zé Cid, mas deve ter crescido), embora tema que ele se esqueça de levar a placa e cante aquele mega hit "Louco amor" exactamente como acontece no site que detém. Ora prestem lá atenção e garantam-me que ele tem a placa posta:

http://www.josecid.com/

Também tenho medo que ele se apresente em palco com o disco em cima das partes pudendas. E mais nada. 

Mas valerá a pena arriscar tudo isso, porque a seguir há Xutos. Pumba-pumba-pumba, Xutos e Pontapés.

É que já não se aguenta mais festividades. Eu falo por mim.

Hoje adornei almoço de família. Enverguei o mais improvável dos vestidos: vermelho, ampulheta. Eu sou assim, adoro surpreender. Só não parecia a mãe Natal porque a imagino sempre baixinha e anafada. Poderia vagamente sugerir uma sexy Santa Mom, se fosse muda. No entanto, não sou.

Sit 1 - Servem Martini a LP. 
Circunstancialmente, LP regozija o dono da casa: 
- Eu adoro Martini. E, para mim, são todos iguais. Tanto gosto do Rosso, como do Bianco, como do Rosato.
- Sim, mas sabes que isto é vinho carrascão com açúcar?
- Ah. Olha... então, devo ser muito carrascona.

(ninguém merece. A minha visita podia ter ficado por aqui. Inventava uma diarreia e vinha para casa. Mas não. Murphy tem sempre mais coisas guardadas para mim)

Sit 2 - Põem uma salada de alface com nozes, pinhões, maçãs e um molho de iogurte na mesa. A salada, deliciosa, só sabe a banana.
Circunstancialmente, LP agracia a dona da casa:
- Que delícia de salada. O molho é iogurte de banana?
- Não, a banana está dentro da salada.
- Ah. Não vejo nenhuma. Só vejo maçã. Vou à pesca da banana.

(este era o momento em que alguém podia ter feito a caridade de me pegar ao colo e levar-me para casa. Não era? Não. Eu nunca estou rodeada de gente caridosa. Estou sempre rodeada de gente que A) Está habituada a isto em mim; B) Adora divertir-se)

Sit 3 - Os convivas, dezasseis, se contarmos comigo (quinze, se não contarmos) resolvem tirar fotografias ao grupo. Apercebo-me que o decote do vestido me vai pôr numa situação piriclitante, tipo centro de Natal, onde só falta a vela. 
Podia ficar calada e puxar discretamente o decote para cima, não podia? Podia.
Mas não era a mesma coisa.
- Pareço a sogra da Catarina.
Como não havia ali nenhuma Catarina, nem nas relações próximas de nenhuma daquelas pessoas, houve que explicar que há coisa de dois anos assisti a um casamento em que a sogra da noiva, minha amiga, se foi pôr ao lado dos noivos, enquanto decorria a cerimónia, de mamas à mostra. Até me documentei, não fosse mais tarde alguém duvidar. Tipo agora.




Sit 4 - Sentei-me à mesa numa cadeira forrada de almofadas, tipo poltrona. A primeira vez que me levantei do lugar, e depois voltei, já tinha a minha cadeira fofa ocupada. E restava-me sentar numa, ao lado, sem almofadas.
- Sentaste-te na minha cadeira.
- Sentei. Senta-te nessa.
- Mas esta é dura.
- E então?
- Já estava com o rabo tão satisfeito...

O que é que permitiu que não chegássemos à Sit 5? (que eu desse por isso...)
Hah, adivinharam.
A tarde acabou.

Eu só queria saber se sou a única pessoa que acha que a posição deste Pai Natal da minha árvore não é lá assim muito normal


26/12/2014

Parecendo que não, este é um post sobre grelos

Não sei se também foi na A 5 que perdi mais algum quilo ou dois, para além daqueles dois, mas que alguém os encontrou, não há dúvida. Enquanto as minhas skinny pretas que eu tanto amava - que me custaram 8 euros na Primark e, alapadas ao cagueiro, faziam-mo o melhor da minha rua -, me estão um nico largas neste momento, hoje cruzei-me com três gordas no espaço de, vá, 2,25 metros quadrados. Todas as três tinham unhas de gel tamanho xxl de cores extremamente fortes (não gordas como elas. Fortes, mesmo), com variações em ré menor do estilo unha do mindinho branca e roxa, a fazer pandã com a garra rosa cerise. Don't ask. Eu tenho para mim que as manicures delas (herselves?) bebem duas caipirinhas antes de iniciarem a lide, e depois aquilo é ao sabor das ondas etílicas. A mim, retrógrada, atrasadinha mental para estas nuances da estética feminina, é a única explicação que se me apresenta como plausível para semelhante tragédia ao nível da fanera. Uma das gordas acompanhava por dois rapazes, um da idade dela, que presumo ser o que se acasala com ela a espaços, mascarado de Jesus Cristo Super Star da Baixa da Banheira, pois ostentava uma t-shirt de manga à cava, cuja dita recortava até quase à cintura, e mais nada, porque devia ter calor, mas também fui capaz - eu e todos os que com ele se cruzaram - de visionar um pelame ao nível axilar que era assim a coisa mais medonha e mais nojenta que eu vi nos últimos cerca de dias, só porque vejo muito cocó nos passeios. A partir de hoje, decreto eu: pá, rapem-se. Se é para andarem com aquela jubazinha pendurada dos braços, é preferível que se depilem até não terem nada. Eu disse nada. Muáha, que maluca. O mesmo jovem trazia vestidas umas calças militar print, que, no meu tempo, eram as "calças da tropa", e que até era proibido uma pessoa usar na rua (não fosse confundir-se com um gajo dos comandos, ou então com um arbusto), e uns ténis animal print, de leopardo da feira. A gorda que o acompanhava disse para o puto que também era do grupo: "Enzo!", e eu gelei, porque pensei que a pobreza de espírito, quando bate à porta das pessoas, atinge todos os níveis, desde o nome próprio até aos pêlos do sovaco e às unhas de gel, mas a do nome é a pior de todas, porque nos persegue toda a vida como um lobo mau. "Enzo, arrête!", gritou a das unhas para o puto, que envergava umas calças de ganga estafada à anos 80, com punho elástico nos tornozelos e um cabelo de polpa inominável à CR da Buraca.

Acho que este foi o momento em que fugi e não me lembro de mais nada, ou então acordei, não sei.

O meu bacalhau parece pastilha elástica,

mas fica tão bom...

Eu ponho-lhe parmesão. Compro o parmesão para pôr só por cima e ir a gratinar. Mas depois entusiasmo-me e ponho por todo o lado, de maneira que, quando as pessoas vão a tirar uma colherada da mistela, há sempre uma parte que estica e faz uma ligação directa entre o recipiente e a colher. E depois entre o prato e o garfo. 

Não dizem que há mil e uma maneiras de cozinhar bacalhau? Não, são mil e duas. Chewing bacalhau gum. É o meu bacalhau. O meu bacalhau estica.

Também gosto tanto de grelos.

Agora, se calhar, acabava este post, que tenho outro para escrever, a propósito de grelos, e não sei muito bem como é que hei-de acabar este.

25/12/2014

Este Natal soube-me a rolha

Fui praticamente obrigada a beber um vinho na consoada, eu sou esquisita e pouco feminina nos copos, gosto é de cerveja e de whisky, querem fazer de mim uma senhora e dão-me vinho premiado, e afirmam, encalorados, mas que rica pomada, enquanto eu me sumia num a mim só me sabe a rolha, mas como a rolha?, um vinho que até recebeu um prémio, olha agora, se calhar para a melhor cortiça, pensava eu, que desperdício numa garganta como a minha, soube-me a rolha, mas bebi-o a preceito, de modo que me levantei da mesa com os dois braços anestesiados, trouxe a minha mãe comigo, mas isso já foi hoje, nem ressaca aquela porcaria da rolha me deu, por isso tive braços para ela, e quis vir pela marginal, para vermos o mar, eu sou parva, eu é que queria ver o mar porque o azul, aquela cor que eu nem distingo como deve ser, mas é a minha cor, o azul, dizia eu, o azul dá-me paz, ou lá o que é que o azul me dá, não é bem paz, é coragem e força, então quis vir pela marginal, a minha mãe quer lá saber do mar, a primeira vez que viu o mar tinha dezoito anos, no Alentejo dela, nosso, meu, não há mar, nunca foi apegada ao mar, nunca foi como eu, que só faltou nascerem-me guelras, pudera, veio conceber-me quase à beira-mar, por pouco não me concebeu no areal, mas isso acho que não fez, porque eu fui feita pelo Carnaval, e nessa altura faz frio e chove, não estou a vê-los irem à praia só para me conceberem, depois desovou-me aqui com o mar tão perto, como é que queria que cada vez que eu estou mais aflita é para lá que corro?, lá viemos rente ao mar, ó mãe, olhe o mar, ó mãe, o mar hoje está tão bonito, ó mãe, ali, ali, o mar, mas ela nada, lá metida com as coisas dela, sem me ouvir com voz de búzio, logo ela que me ensinou que nos búzios se ouve o mar, sem ver mar nenhum, vim eu a encher os olhos de mar para ela nem virar a cara para o vidro e ver o mar, soube-me a rolha ver que ela não quis olhar, não viu, por pouco não estragava o meu Natal constatar que o elevador do meu prédio não comporta uma cadeira de rodas, escada acima até ao segundo andar, e se eu morasse no sexto?, coitado do São Cristóvão, lembro-me sempre dele nestas horas, com o menino a pesar cada vez mais, Deus nunca dá uma cruz mais pesada do que aquela que conseguimos carregar, uma cadeira de rodas e uma pessoa levezinha pesam toneladas escadas acima, ainda mais quando já levas os olhos cheios de mar revolto daquela dor, nos últimos degraus pesam ainda mais, o filha da puta do arquitecto ainda há-de precisar de se sentar numa e, quando vier visitar as filhas, que também cá moram, eu não me ofereço para o carregar, o diabo que o carregue, ai Jesus, lá se me vai o espírito natalício, cruzes, credo, ainda bem que isto está no fim, já só sinto o sabor daquela porcaria daquela rolha, mas será que bebi assim tanto que até a rolha roí, como aquele rato da ladainha?


24/12/2014

Feliz Natal, meus

Não se esqueçam de comer muita fruta, seus alarves do genital.

Lembram-se das Ronettes?
Não?
Nem eu. Parecendo que não, não sou desse tempo.
(Sou anterior. Muito anterior. Paleolítico)
Pá, Be my baby...



E a letra disto?
Tão picantinha. 
Eu sei que, com toda a probabilidade, só eu vejo maldade numa música quase infantil feita em 1952. Mas é o que se arranja.

I saw Mommy kissing Santa Claus

Underneath the mistletoe last night.
She didn't see me creep
down the stairs to have a peep;
She thought that I was tucked
up in my bedroom fast asleep.

Then, I saw Mommy tickle Santa Claus
Underneath his beard so snowy white;
Oh, what a laugh it would have been
If Daddy had only seen
Mommy kissing Santa Claus last night

23/12/2014

Posts que ninguém lê, nem ouve a música

Não sabem o que perdem. As minhas músicas de Natal são as menos natalícias de toda a blogosfera. Vão lá buscar o varão e os red shoes para dançarem esta. Chiu. Os meninos não vão. Quietos.



Santa Baby,
Slip a sable under the tree
For me,
I've been an awful good girl
Santa Baby,
And hurry down the chimney tonight
Santa baby,
An outer-space convertible too,
Light blue
I'll wait up for you, dear
Santa baby,
And hurry down the chimney tonight
Think of all the fun I've missed
Think of all the Fella's that I haven't kissed
Next year I could be oh so good
If you check off my Christmas list
Santa Honey,
I want a yact and really that's not
A lot
I've been an angel all year
Santa Baby,
And hurry down the chimney tonight
Santa Cutie,
There's one thing i really do need
The deed
To a platinum mine
Santa Baby,
And hurry down the chimney tonight
Santa baby,
I'm fillin' my stocking with a duplex
And checks
Sign your 'x' on the line
Santa baby,
and hurry down the chimney tonight
Come and trim my Christmas tree
With some decorations bought at Tiffany's
I really do believe in you
Let´s see if you believe in me
Santa Baby,
Forgot to mention one little thing
A ring
I don't mean a phone
Santa Baby,
And hurry down the chimney tonight
Hurry down the chimney tonight
Hurry down the chimney...tonight

Comam-se. Lambam-se. Alambazem-se. Lambuzem-se.


Está na hora, está na única época do ano em que todos os filhos do Pai  - os que praticam e os que não - podem e devem devorar tudo o que apanharem pela frente, ainda que não mexa, alambazarem-se à maluca, e mesmo beberem até ficarem todos molhados. Metam o dente, metam a boca, metam mãos e vão a pés juntos, de joelhos, em agradecimento, ou sentados, para aproveitarem melhor, mas entrem com tudo. A mesa quer-se farta, façam pratadas até se cansarem, descansem aos bocadinhos e retomem a farra, atirem-se de boca ao bacalhau, lambuzem-se nos coscorões, e dêem na rabanada como se o mundo acabasse hoje. Comei-vos uns aos outros, melhor é comer que ser comido, o lombo alheio é muito mais nutritivo que o próprio. E a comida, se comida na casa dos outros, é sempre mais saborosa, quanto mais se devorada a preceito. E porque o Natal é quando um homem quiser, mas também quando a mulher estiver para aí virada, aproveitem agora esta grande festa e façam-se à comezaina. Mesas fartas, camas cheias para todos, todos os móveis da casa a uso, boas festas, festas boas, boas festinhas, e não desejo já que entrem bem porque ainda é cedo e desejos desses não precisam vocês, que com tanta fartazana certamente entrarão bem e a eito. Façam-se felizes, o Natal são dois dias, como esta vida.

22/12/2014

A mim falam-me de Joe Cocker e eu

vou parar a "Nove semanas e meia", para aí a maior seca sexual que vi na vida, sem argumento (um casal que não se conhece e se come desalmadamente durante - não fica claro - nove semanas e meia?), com um Mickey Rourke e uma Kim Basinger na era pré-queda no balde de ácido sulfúrico, mas com uma excelente fotografia e, é claro, Joe Cocker.




Pronto, voz de lobo. Para ti não acabou a festa, mas, para nós, sem ti, sim. Nem posso prometer-te uma última dança sem tirar o chapéu, porque tu vais certamente para um lugar mais confortável e menos quente do que eu.

Digam-me lá se não é verdade o que eu já acho há anos: que escrevo melhor nos comentários dos outros do que nos meus próprios posts

Reparem na beleza, e também na subtileza disto, que deixei no blog da Panda:

Conseguem ser ainda piores os paizinhos que se vestem de uma psicologia que eles próprios inventaram, que é "se ignorarmos, passa-lhe a birra", ou "já viram o que eu fiz? Uma criança! Não sou espectacular? É que mais ninguém é capaz de dar uma tão bem dada como eu dei daquela vez...". É que a birra não passa, e os outros defecam na grande arte que foi, "daquela vez", dar uma tão bem dada que saiu aquele monstrinho associal.

(eh, pá, eu bem digo que os meus comentários conseguem ser melhores que os meus posts)

(canek. Acho que vou fazer copy para o meu blog. Sou tão boa)

E não, não estou a chamar a mim (o assunto d) as criancinhas, para ter mais visitas e comentários. Isto é o que eu acho, mas eu sou, ao contrário de muita gente que caga (ou peida, entendam como quiserem) sentença no assunto, abalizada para cagar a minha.

Viciada em bebés # 2


Esta coisa pequena é minha vizinha, tem dois meses e chama-se Ginja. 

O dono anda há anos a pedir pela minha atenção, desde que, um dia, coincidimos no elevador, vinha eu a chegar da praia, de calções. Não tenho a culpa, as coisas são como são. 

Garantidamente que, nos próximos quatro meses, terá toda a minha atenção, cada vez que, como agora há pouco, nos cruzarmos na rua.

21/12/2014

Sou tão fofis

Ontem fui buscar uma boneca que tinha deixado encomendada na loja da Disney das Amoreiras.

Não, não é para oferecer.

E estava a dar uma música do Hércules, dentro da loja.

Então comecei a cantar. Até me entusiasmei. O refrão é tão giro.


Entoei e tudo. Paguei a boneca a cantar. Alto (os meus botões não podem ficar com o exclusivo).

Podres da bons, no ginásio

Por acaso, hoje estava no ginásio e desatei, assim de repente, a fazer um estudo antropológico sobre os frequentadores - homens - da sala de treino. É que há tipos. E não são muitos.

O clássico musculado - tem as costas em V, e é, invariavelmente, baixo. Por alguma razão que me escapa, é, claramente, uma pessoa que precisa de ocupar espaço e, como a natureza não o dotou em altura, resolve alargar. Mas alargar para níveis que impressionem as raparigas. Ou os rapazes. Ou a freguesia lá do bar de strip. Ou a porta da discoteca aonde são porteiros. Ou as senhoras.
É que há uns musculados que vão para o ginásio ao engate. Assim como um dia decidiram que iam ocupar espaço horizontal, num outro decidiram que o que lhes calhava mesmo bem na rifa era arranjar uma cota que os sustentasse. Uma assim em bom, que caridades também não fazem, e precisam que alguém as faça com eles. Designadamente uma senhora. Assim como eu.
Os musculados têm raciocínios directamente opostos ao tamanho dos seus bícepes: curtos. E suam horrores. E fazem os exercícios todos mal feitos. Metem cargas incríveis nas máquinas, puxam de forma errada por elas, não respeitam os tempos entre repetições, e, quando saem da máquina que acabaram de usar, deixam uma mancha de suor um bocado porca. E têm um cabelo de merda. Rapado dos lados e assim.

O gordo - o gordo é um fofão que se convenceu que vai ficar magro em quatro-três-dois-um segundos. É que não vai acontecer. Meteu-se no ginásio. Arf-arf-arf, a pagar a mensalidade. Meteu-se na sala de treino. Arf-arf-arf, cheio de coragem. Encontrou uma monitora novinha, que o convenceu que, com um plano personalizado, se vai tornar um Adónis em menos de nada. E ele agarra-se ao plano de treino, arf-arf-arf, como cães a ossos, e treina. Mas treina muito. Lá diz "Correr na passadeira 20 minutos", e ele corre 30. Lá diz "Duas séries de 15 repetições" e ele faz 3 séries de 20 repetições. Quer queimar, queimar, queimar. E chega ao balneário esfomeado. Arf-arf-arf.

O jovem - o jovem não é gordo (embora o gordo possa ser jovem), mas está evidentemente a precisar de se tonificar. Só vai ao ginásio nos intervalos das aulas, das frequências, dos trabalhos de grupo e das miúdas. Não percebe nada do plano de treino que lhe traçaram, e anda ali porque tem que se mexer. Também não se penteia. Normalmente, vai com um amigo que está exactamente nas mesmas condições, andam juntos para todo o lado, e nunca passam por gays: vestem uns calções inomináveis, tipo calções de praia, mas em liso, e t-shirt, que tem que ser a mais velha que lá havia no armário. Aproveitam, e vêem umas miúdas.

O caco - o caco não é velho, não é velhinho, não é idoso. É cota, passou da validade, mas ainda se acha. Treina moderadamente porque conhece os benefícios do excesso, na relação com o enfarte do miocárdio. Preocupa-se muito com a apresentação, e procura mesmo usar apenas outfits que o favoreçam, tanto ao nível da peida como dos coisinhos. Tudo em lycra, não só para que se veja - ou se pense - que ainda ali há vida, como também para ficar tudo arrumadinho, sem andar a baloiçar, como os rapazes. A camisola também é lycra, senão ninguém vê que o tórax está firme, e ainda pensam que aqueles músculos são mamas. Olha para as miúdas com cara de cão abandonado, e para as senhoras com um meio sorriso, à malandrão "Olá, boneca".

O PT - o PT pode ser homossexual; pode ser o piadolas, o que enfada toda a gente com o seu repertório de anedotas e gargalha alto; pode ser o gordo - sim, existe um tipo de PT que é gordo: por baixo da camada de músculo há banhinha, carrega uma leve pancinha, os braços são flácidos...; pode ser o simpático, que tem uns ténis ultra-giros; pode ser o Y, extemamente musculado, com uns pezinhos anormalmente pequenos e os tornozelos extremanente rapados; pode ser o que parece uma galinha, com um cabelo merdoso, com polpa. Há N tipos de PT, é quase impossível traçar um perfil. 

Também há A PT, que não interessa para aqui, mas falo dela na mesma, não vão achar que há cá sexismos - a PT pode ser chata (daquelas que nos impingem demasiada informação anatómica); pode ser faladora; pode ser mal feita (existem! Extremamente baixas, musculadas nos sítios errados, sem mamas, cus panorâmicos!); pode ser muita coisa, mas que caia já aqui por terra o mito da PT gira e boa, que ajuda os gajos nos exercícios, e até lhes põe a mão nas virilhas. É que não existe.

O giro - o giro nunca vai ao ginásio. É só giro, nem precisa. Também é fruto das nossas imaginações. Às vezes, vemos passar um na sala de treino. Mas é uma miragem. Passa num instante.

É por isto que eu prefiro as aulas de grupo. Levanto pesos, estico-me e dobro-me, danço, mas ninguém anda ali a apreciar o (incrível) tamanho do meu (incrível) rabo.

E estava um sol tão bonito

Encontrei-a mergulhada, inquieta, muda, com aqueles olhos.

Deu um grito, assustou-me,

Não me grite, que eu tenho medo.

E abracei-a.

Tenho tantas saudades suas.

Ela não volta. Nunca mais vai segurar-me na mão para atravessar a rua. Agora segura-me a mão, porque precisa de se agarrar à vida, ou apenas sentir - pelo cheiro das minhas mãos - o que se passa lá fora. Não volta, nunca mais, a conversar comigo. De vez em quando mergulha e desaparece, chego a desejar que estivesse demente. Ao menos vivia uma alternativa que podia ser - queria eu que fosse - mais alegre. 

Se me volta a gritar, ponho-a de castigo.

E rimo-nos muito uma para a outra.

Não foi essa a educação que eu lhe dei.

E rimos mais. Eu muito mais. Ela dá aquela segunda gargalhada - ou já só ri de me ver rir - e volta a mergulhar. Quero puxá-la para a superfície, mas ela começa a, sem querer - tenho a certeza - puxar-me para o fundo com ela. Ainda assim, rio-me mais do que a piada que a piada teve.

Agarro-a quase ao colo e passo-a da cadeira de rodas para um cadeirão. Avalio-a para 35 quilos. E digo-lhe: 

Gorda.

E ela volta a dar uma gargalhada. Uma única. Mas então, insisto. Não estou satisfeita.

Está gordíssima. Já olhou bem para esses braços e essas pernas?

Olha para eles, cheia de tristeza, e ri-se para mim. 

Quero treinar as forças e a estratégia de a levantar da cadeira, para a tirar dali no Natal. Quero dar-lhe  o colo que ela nunca mais me vai dar a mim. 

Logo agora, que eu precisava tanto.

LP às compras de Natal

video

20/12/2014

"Eu explico-vos o que é que são as nalgas: são aquelas duas grandes bolas logo abaixo da coluna"

Ouvi eu hoje.

Atendam ao contexto:

9:30 H - 4,5º + sinal de gelo, aquele assim:

10:40 H - .

Entre um tempo e outro: ginásio. A pessoa precisa de se aquecer. Para além dos já habituais

Sintam o vosso soalho pélvico

Puxem os músculos pélvicos para cima

Esmaguem o púbis no chão

O púbis é aquele osso - púbico - que é mais saliente, na parte final da bacia

ainda ouviu esta novidade das grandes bolas.

Mas eu é que sou acusada, à boca pequena, de ter uma cabeça, senão suja, pelo menos mirabolante.

19/12/2014

uich list, da uitch

Recapitulando, pai natal...

Agora vai com minúsculas, cansei-me de te tratar com vénias. Tu também não mas fazes e as cócoras foram sempre a posição que mais me custou. Nunca poderia ser guarda-redes de hóquei em patins. Ou de hóquei.

Vou refazer a minha lista de pedidos, porque acho que estou quase a ser blogger e quero ter isto tudo certinho e afinado. Espero que ainda vá a tempo, não porque eu tenha pedidos de última hora, mas porque mudei de ideias entretanto. E tu podias já ter encaminhado o meu pedido, que é como se diz nos serviços públicos. Não te assustes, que eu sou uma rapariga - assim se autodenominam as senhoras da minha idade - de poucos luxos e, para além de duas ou três coisas impossíveis de obter, só te peço trivialidades. Para teres uma ideia, no momento em que te escrevo estou-me a encher de tremoços, que, dizem, é o marisco dos pobres. Vê bem, até gosto mais de tremoços do que de marisco. Fui, durante muito tempo, mesmo, a única pessoa que conhecia que acompanhava o café com tremoços, até ao dia em que descobri que uma das minhas primas fazia a mesma coisa. A voz do sangue é tramada.

Não me queria alongar, mas tenho este defeito, de entrar por caminhos e meandros, até "lá" chegar e, às vezes, nem isso consigo, porque me perco. Mas olha, lembras-te de te ter pedido umas asas? Já não quero. Ou melhor, querer, quero, mas tenho medo. Sinceramente, nunca gostei de voar, e as quedas maiores que dei foram antecedidas por um voo picado, pelo que não guardei boas memórias dos meus percursos aéreos. E também comecei a pensar: "Ó pá" - eu penso assim de mim para comigo mesma - "e se o senhor se engana, percebe mal o recado e te dá mesmo as asas, ainda te transformas num anjo, que é uma pessoa morta?". E, mais uma vez, tive medo. "Ou então" - insisti eu para comigo - "se te dá as asas em vida e ficas para aí cheia de penas agarradas às costas? Depois é chato, até para fazeres cocó te vais ver aflita". Desculpa falar-te assim de cocó, mas é um assunto que me preocupa e que não posso ignorar diante da possibilidade de ter um par de asas, todos os dias ali sujeitas a sujarem-se todas por causa disso.

Então, pensei em pedir-te uma correia de distribuição para o meu carro, em vez das asas. Se queres que te diga, nem sei bem o que isso é, mas sei que o meu carro precisa, e sei que eu preciso, não só para evitar morrer estupidamente, mas também para ir ver a minha mãe. Segundo o mecânico, afinal são duas correias, já viste? Exactamente como as asas, vêm aos pares. Quatrocentos paus, leva ele. E ainda quer que eu lhe agradeça, diz que na marca é o dobro. E eu tenho que acreditar, e agradecer, apesar de achar que ele está a vender o peixe dele. Peixeiro.

Portanto, além das correias, que farão as vezes das minhas asas, não quero mais nada. 

Quer dizer, se me pudesse esticar e se me deixasses delirar um bocadinho, sabes o que é que era mesmo-mesmo bacano da tua parte? Ofereceres-me uma seringa cheia de botox, para eu espetar no meio da testa e tirar este vinco que já me parece um pipi, de tanta ralação que tenho tido ultimamente, e de não usar óculos de sol, como todas as pessoas fazem. Ai, que vergonha, desculpa. Mas posso continuar?

Também queria cocó. Cocó, cocó, cocó, para uma bruxa que eu cá sei, que merece ficar sentada na sanita a fazer cocó durante muitos dias, ou até semanas. Isto, se não for eu estar a pedir muito. E quem diz na sanita, diz na mata. Olha lá, mas isto não é espírito de natal porquê? Se visses os olhos dela de pessoa má a olharem para mim como eu vi hoje, trazias já aí uma sanita rachada, que era para ela entalar a nalga enquanto se desintegrava e tudo.

Mais nada.

Suukkoja *, man.

* isto é beijos em finlandês.

18/12/2014

Parecendo que não, este é um post natalício

Eu tento evitar, mas é que sou parva.

A piada que me dá a palavra rabanada.

RABANADA

Todos os anos é este martírio para me manter quieta e calada, cada vez que alguém me pergunta: "Queres uma rabanada?"

E a palavra coscorões. 

COSCORÕES

É que não melhora no singular. Coscorão. 

"Gosto tanto de coscorões". "Que doce está este coscorão".


Talvez vos poupe à repetição da piada de que No Natal cheira a bacalhau por todo o lado. E à das bolas de Natal

Boas festas. 

BOAS FESTAS é outra expressão muito boa.

Pronto, posso ser eu que tenho um desvio. Adeus.





Perdi 2 kg na A 5

Se alguém os encontrar, pode passar-lhes por cima com as quatro rodas, que eles não me fazem falta nenhuma.

17/12/2014

Vinha a pensar, pelo caminho

que não aprendi a cozinhar com a minha mãe. Nem a coser botões, nem a costurar à máquina, nem a bordar, a fazer tricot ou crochet. E, no entanto, sei fazer isso tudo, até mesmo de olhos fechados. Até mesmo. 
A minha mãe não sabe cozinhar, ao contrário das outras mães todas. Mas sabe rechear um perú e fazer-lhe uma costura cirúrgica. Não sabe coser um botão, mas sabe pregá-lo com linha e agulha, se quiser: ata-lhe nós cirúrgicos e ele fica no pano que já de lá não sai nunca mais. Sem saber cozinhar, a minha mãe ensinou-me a cozinhar: ensinou-me a alquimia dos alimentos, ensinou-me a usar os sentidos na cozinha, mostrou-me que tudo - tudo, sem excepção, até a água, ao contrário do que dizem as leis da química - tem um cheiro e, consequentemente, um sabor. E sempre me fez usar os sentidos todos, especialmente o olfacto, "aquele desprivilegiado sentido que a sociedade moderna subestima e fará desaparecer por desuso". "Usa o nariz. Usa os olhos, as mãos, os ouvidos e usa o paladar, mas, sobretudo, usa o nariz". Ensinou-me, assim, a cozinhar, usando o nariz. É o que me diz se o arroz ainda está cru, se a salsa está fresca, se a batata cozida passou do tempo. Ensinou-me que o mar cheira a melancia e a melancia cheira a mar, e porquê. E a distinguir, pelo cheiro das flores, se estão a pedir água ou não, as flores de que ela tanto gosta e eu já não. 
As mãos da minha mãe nunca cozinharam ou, pelo menos, nunca saiu delas nada que se pudesse comer. E, no entanto, nós dizíamos que a sopa feita pela nossa mãe sabia a chocolate. As crianças usam metáforas indecifráveis. Agora levo-lhe sempre chocolate, que lhe dou aos bocadinhos - e que está proibido não sei por quem -, e digo-lhe: "Vamos ao nosso cigarrinho?", logo a ela, que nunca fumou. Os adultos têm metáforas indecifráveis. Comemos aquilo a meias, para mim o almoço que não faço só para estar mais um bocadinho com ela, a ver os olhos dela iluminados de gozo, os meus dentro dos dela a sorvê-la com medo. E uso o nariz, como ela me ensinou. Cheiro-lhe a cabeça, cor-de-rosa, o cabelo, muito branquinho, e tudo me cheira a mãe. Tudo tem um cheiro, até a água, ao contrário do que dizem as leis da química. Foi a minha mãe que me ensinou.

Aula de mecânica | Aviso à navegação | Preciso de me ubiquir e de me alar

Não sabia que título dar a este post, e então dei aquele. Depois cada um escolhe o que gostar mais. Eu, pessoalmente, gosto do último. Os outros dois estão estafados na blogosfera. Mas assentavam aqui que nem luvas.

O meu carro precisa de mudar a correia de distribuição há 14.000 quilómetros atrás. Como, actualmente, eu ando constantemente na estrada, e aquilo se pode partir a todo o momento, sem avisar, tanto a 20 à hora como a 130 (não costumo passar dessas mega-velocidades), já sabem: se eu não voltar aqui, um destes dias, é sinal que a p. da correia se partiu mesmo.





16/12/2014

Já que hoje se fala aqui de pêlos


As pestanas. As tais.

O único filtro que esta fotinha levou foi mesmo o azulado da coisa, que não serviu para mais nada senão para que vocês ficassem a pensar que eu tenho olhos azuis e não soubessem que, na realidade, são pretos. E escusam de perguntar por que é que eu não depilo as sobrancelhas. Porque não. Também não vos pergunto por que genitais vocês depilam o que depilam, pois não? Então, é igual. De resto, a mancha clara na íris não é uma catarata, lamento. É um reflexo de qualquer coisa que estava ali no caminho da objectiva (um telemóvel). E não uso lentes de contacto, não. Pois, não sei porquê. Tenho um atraso no envelhecimento dos olhos. Tipo atraso no crescimento, mas em bom. E é um facto que me maquilho como uma saudita (só me falta a burqa, e, às vezes, nem isso. E faço aquilo com a língua la-la-la-la-la-la-la). A mancha no canto interior é mesmo olheira, porque não durmo. Vocês não deixam.

Mais alguma questão em que eu possa ser útil?

Santa Ana, cabeleireira

Eu vivo dramas. Ninguém me dá o meu devido valor. 

Quando não detesto o meu cabelo - em dias de chuva, que se eriça pelos ares e pareço mesmo-mesmo a Ovelha Choné -, adoro-o. Gosto de cabelos ondulados, gosto de cabelos escuros, gosto de cabelos compridos e o meu tem tudo o que eu gosto. Querido, riquezas da sua Porca. 

Todas as mulheres gostam de ir ao cabeleireiro, não é? Acho que não, mas existe essa convicção. Eu não gosto. Aquilo faz-me sofrer dos nervos. Nunca vou ao sábado, porque a afluência de senhoras-que-frequentam-com-agrado-o-cabeleireiro é enorme, e eu sinto-me lá mal. Sinto-me fora de contexto, e sinto-me verdadeiramente doente. Acho que me sobe a tensão arterial a níveis exponenciais. Aquele ruído de fundo dos secadores, aliado ao beca-beca das freguesas mais artistas do pêlo, é, para mim, a verdadeira imagem do inferno, e é coisa para me fazer reconsiderar se quero mesmo ir parar ao Hades, ou se não prefiro antes levar com os anjinhos mais as harpas e os violinos, mais as nuvens e o genital masculino a quatro. Então, vou a um dia de semana, de manhã. Duas vezes por ano. Cortar pontas. Aparar, na verdade. E faço uma preparação mental de dias. Sou capaz de ir ao dentista três vezes - com broca e sem anestesia e tudo - em vez de uma ao cabeleireiro. Não sei porquê. Freud, onde andas, quando uma pessoa de idade precisa de ti? Olha, morto não me serves para nada.

Não tenho capacidades mentais para perceber as mulheres que cortam o cabelo. Que entram naquele antro de tortura com o ar mais contente do universo e mandam cortar. E depois ficam com uma merda no alto da cabeça, a abanar as farripas para o espelho, pagam, dão beijinhos à cabeleireira e saem a pavonear a pluminha com que ficaram. Se vão aos pares, ainda dizem umas para as outras: "Está fantástico. Já estava muito seco, fizeste bem em cortar assim mais curtinho". Eu sei que é assim porque já vi. E foi por ter visto que tive que desistir de ir ao sábado à tarde. Tive pesadelos com isto durante meses. Eu, naqueles cabelos, a ouvir "Está fantástico". Coisa para me dar suores, frios e tudo.

Hoje foi o dia. Gosto tanto ou tão pouco de ir ao cabeleireiro que entrei às 11 da manhã e às 11:30 já estava cá fora, com o cabelo meio molhado. E só não encharcado porque tenho preconceito com gajas de cabelo molhado na rua. Quero lá saber das repercussões desta afirmação, eu atingi uma idade em que posso dizer o que me vem à cabeça. 

Antigamente, já entrava a hiperventilar. Agora só estou um bocadinho melhor porque descobri uma cabeleireira que deve ter tido imensas cadeiras de psicologia no curso dela, e que me entende como mais nenhuma. Mas entro em transe. Chego ao balcão da entrada e nem bom dia sou capaz de proferir. Fico presa num sorriso pateta, que deve ser semelhante ao dos condenados quando se põem de pé para ouvir a sentença. Ela vem, anima-me, lembra-me que só me vai "tirar" 2 milímetros (conquista dela, dantes era só um milímetro), nunca pronuncia os verbos "cortar", ou, sequer, "aparar", tira-me o casaco, percebe que eu estou fragilizada quando, como hoje, me pediu para tirar também o cachecolinho e eu pergunto, estupidamente, "E o vestido, também tiro?", "tira-me" as pontas, usa de malabarismos para que eu nunca veja a tesoura, mal me chega o secador ao pêlo e põe-me na rua, depois de eu pagar - muito ou pouco, pago o que me pedem, só quero sair dali, mesmo - e de me dar um abracinho reconfortante, quais beijinhos secos, quais quê. E ainda me toca uma música para os meus ouvidos: "Agora pode só cá voltar daqui a muitos meses". 

É daqui a seis.

Queridos,

Agora que estou rumo ao estrelato, porque alguém me meteu um foguete n... no... na cadeira onde estava assentada ao computa e me projectou, qual bala de canhão humana, daquelas do circo (pracasu nunca assisti, mas sei que existe), tenho que varrer aqui o buraco (e mandar a minha amiga podres da boa varrer as varandas dela, que aquilo dá-lhe um ar da badalhoca que ela nem sonha), pôr umas cortininhas de caça, que eu adoro, umas flores artificiais ali do xnês nos parapeitos, um espanador a toda a volta, assim a dar ares de que mudo o pó de lugar - eu não tenho preconceito com o pó, mas vocês hão-de ter. O pó é cotão, o cotão é cotton, cotton é algodão, e o algodão não engana -, mas, essencialmente, está por actualizar a zona dos blogs que eu leio. Ando a ir (chiu, isto é português na mesma) todos os dias a vários que ali não constam à direita. E não é justo que ali não constem. Escribinha, Silencioso, Guy, Pseudo, e, de todas a mais recente, Redondinha, é eu organizar a cabeça (só o senhor sabe quando é que isso acontece) e meto-vos ali no meio da maralha, até porque me dá jeito a mim, é só clic e pim-pim-pim. Não sei se me esqueci de alguém, mas isso posso ver na altura, thanks to my dad, to my mom, to my director and to my wife Caramella... 

Mas sintam-se honrados, está bem? Senão, eu borro o rímel. Ai, não, espera, nem estou a usar, derivado das extensões que pus. Então, borro o bâton. Espera, também não, não uso. Oh, pá, borro, e ninguém tem que saber o quê.


15/12/2014

Isto aqui não vale um cara-pau

É buraco para ter 170 visitas diárias.

Estou-vos a ser franca.

Mas hoje de manhã, aí pelas 9 horas, já tinha 238.

Alguém deixou a tecla F 5 debaixo da pata do gato, toda a noite, com a página do meu blog aberta.

Resultado: hoje devo ter batido um record, não sei mesmo se superior àquele que aconteceu no dia em que postei uma foto minha, quando montei a árvore de Natal. Ou terá sido a da minha amiga podres da boa, que não lava as varandas? Já não sei, a idade tolda-me a memória.

Calhar o truque é meter fotos de gajas boas minhas no blog, queres ver?

Não interessa. Obrigada na mesma, essa tecla F 5 deve estar esborrachada. Mas eu estou orgulhosa deste meu lugar solitário. Tenho 447 viús até agora, ó pensam? Sei que é pouco, mas para mim está de bom tamanho.

Toda a história do Natal

Pai Natal,

Peço-te, insisto, para que me dês asas. Não te peço mais nada, agora a sério.
Preciso tanto de voar.
Preciso de me pôr lá em menos de nada, a meia-hora que levo a chegar e depois a regressar custa-me tanto. Também já não vou para nova, e tu sabes isso. E sabes o que isso significa, ainda melhor do que eu.
É para lhe poder dizer mais vezes "Tenho tantas saudades suas", "Os dias em que não venho cá são tão maus", "Dê-me beijinhos", "Eu preciso dos seus beijinhos", "Diga-me 'até amanhã'" - e ouvir um sussurro, um fiozinho de voz, "Até... a... manhã...", mas ouvir na mesma - e poder abraçá-la como ontem, um abraço completo, sem medo de a partir aos bocadinhos, de tão pequenina e frágil, os meus braços a enrolarem-se à volta do corpinho pequeno, ignorando a cadeira de rodas, tê-la inteirinha agarrada a mim, como se eu pudesse, durante aquele abraço, ter voltado para dentro da barriga dela. 
Não te peço mais nada. 
Achas que podes?
Se não puderes, não precisas de me trazer nada. Agora a sério.

Carência | s.f. Necessidade de alguma coisa básica; falta, privação: carência de alimentação.

Nesta altura, mais do que "Feliz Natal", ouve-se por todo o lado - peditórios de rua, programas da manhã, rádio e também jornais - a expressão "crianças carenciadas". Ora, expliquem-me lá a mim, que sou demasiado estúpida, o que é que são crianças carenciadas. 

Daqui para a frente, corro o risco de ser tomada por fascizóide, desatenta, desumana ou mesmo burra, mas o risco é o meu middle name e há tantas coisas, como esta, que me transcendem, que quase urge que me expliquem aquilo que, pelo menos através dos sentidos, eu ainda não consegui alcançar.

O que vejo a sair dos hipermercados são carrinhos de compras cheios de brinquedos enormes, transportados por quem não só tem o ar mais humilde como também, evidentemente, não tem casa para receber cozinhas inteiras, oficinas, escorregas, baloiços e casas de bonecas onde cabem cinco índios. 

A minha empregada ganha uma merda na minha casa, tem casa para pagar, carro para sustentar, já para não falar em dois filhos que fazem os impossíveis por se manter na escola o maior número de anos possível. A filha tem 18 anos e continua alegremente no 8.º ano. Mas ela vai oferecer-lhe um tablet, vai uma apostinha? Só não levanto agora daqui o cu para lhe ir perguntar, porque fico a saber a vida, desde o nascimento até há cinco minutos, de todo o bairro das Galinheiras, senão era limpinho. Mas, se não for um tablet, é um telemóvel de última geração, semelhante ao dela, muitíssimo mais caro que o meu - que nem caro foi - que sou quem-lhe-paga-o-ordenado.

Será que se referem aos filhos dos ciganos [ei, alto aí, que eu não sou dessas! Ter olhos não é igual a ter preconceito. E conheço muito bem a realidade das escolas da cidade de Lisboa por dentro], cujo rendimento mínimo de inserção nunca chega para o pequeno-almoço dos filhos, usufruem de SASE escalão A, mas depois vive uma dezena de adultos completamente (ou aparentemente) do ar que respira?

A sério, sem qualquer desmérito para o resto do país, mas também sem cair na tentação de pensar que Portugal é só Lisboa, não resisto a pensar que, quando se fala de "crianças carenciadas", está a referir-se a tudo menos à realidade desta cidade.

14/12/2014

Eu devia ser gorda

e acordar tarde ao domingo, e também ao sábado, depois de uma noite de nove horas bem dormidas, ou até mais, na loucura, e ainda ficar a fazer aquela coisa a que chamam ronha, que, na verdade, não é fazer nada, pelo menos em termos construtivos ou evolutivos, mas que sabe tão bem (eu sei porque já fiz). Depois até podia tomar banho, vestir um fatinho de treino ou equivalente, uns sapatos confortáveis, tomar o pequeno-almoço no café do meu bairro, croissants com galão, voltar para casa, e aterrar no sofá a ver filmes ou a dormitar mais um bocadinho. E ir almoçar à sogra, à mãe ou ao raio que me partisse, mas a algum lado onde não tivesse que cozinhar, ou, sequer, no que é que havia de fazer para o almoço. Esse almoço seria em grande, muita comida, pouca preocupação com a linha, mas quais linha, era mesmo para acabar de encher o pneu da cintura, onde de certeza teria uma tatuagem, sei lá se a dizer Igor, ou Flávio. À tarde, dormia mais, ou passeava no shopping ombro-a-ombro com outras gordas, comia pipocas, gelados - mesmo no Inverno -, e comprava cenas na Primark para dar no Natal. E comia. E comia.

Em vez disso, qual é a força anímica que me põe acordada às 7:30, depois de uma noite aos retalhos, me faz levantar às 8, por estar farta de estar deitada, me mete no ginásio a fazer elíptica e máquinas, e alongamentos até rasgar, me faz sair a correr, enfiada nuns saltos altos, tenho roupa para estender, vou para Cascais, outro mundo, outro registo, o meu almoço é uma tablete de Ritter Sport (então se eu não era bem mais feliz com um entrecosto na brasa com batatas fritas cheias de óleo e cervejas até o pneu inchar a tatuagem?), volto numa corrida para ir para a Baixa fazer compras de Natal, Chiado abaixo, Chiado acima, em cima dos saltos, - "Olha como é a rua do Carmo..." -, depois finalmente em casa, nunca vejo a cor ao sofá, já venho mentalmente a destinar o jantar, não me apetece fazer nada muito elaborado, mas alface é sagrado, pepino é obrigatório, nem cansada estou, será que sou hiperactiva sem diagnóstico?, não me apetece o sofá, nem as mantas, nem o aquecimento ao pé, nem as séries, não prendo a atenção em nada nem em porra nenhuma, eu queria mesmo era poder voar. Já sei, vou escrever uma carta ao Pai Natal.

~~~

Querido Pai Natal,



Se me estás a ler,




[isto não é um erro de edição, é uma pausa meditabunda]





eu só quero voar. Podes guardar as meias quentinhas, as mantas e os pijaminhas, os gorros e as luvinhas, os chinelos e os sapatos confortáveis, as camisolas de lã grossa e os casacões XXL para outra qualquer. E as malas, os perfumes, os cremes, os relógios e até mesmo os livros. Leva tudo, não chateies.

Eu só quero isso.

Sem beijos, não sei se mereces.
(Nunca me lembro de me teres feito a vontade, nem mesmo daquela vez, em pequena, naquele Natal em que me trouxeste cinco bonecas - eu tinha-te pedido uma boneca, deixaste a chorar outras quatro meninas - e isso foi dramático, porque eu era demasiado pequena para tomar conta de cinco filhas ao mesmo tempo)
Quase tua, 
LP

Eu também não sou uma cidadã qualquer

Diz o António Campos acerca do seu amigo: "Não é um cidadão qualquer".

Olha... eu também não, mas ainda hoje estou, e amanhã vou estar, a pagar as cabeçadas todas que ele deu quando era pequenino, e que fizeram dele esta pessoa tão invulgar.

Eu sabia que não ia resistir a uma boca, um destes dias. 
Agora esqueçam. 
A conversa sobre pestanas segue dentro de menos de nada.

12/12/2014

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 2

Assisto a cenas.

10 da manhã - música de fundo: Eu fui à Rosete ("A queda dos Anjos" - Táxi).

A criança pequena (4 anos?), que passa pela zona dos papeis higiénicos,  pega numa embalagem de Tampax e grita: "Há na minha casa!", já o pai corre atrás dela, toda a gente a achar muita graça, ela corre mais que o pai e agarra uma embalagem de Control...

(hah. Sou tão cabra. Até fechei os olhos para desfrutar melhor do prazer que aquela embalagem de Control me ia dar a seguir, já a imaginar a cena seguinte, já mesmo a pôr-me com aquela idade e...)

"Há na minha casa!"

As crianças são o melhor do mundo.

E, se não existissem pessoas sempre atentas e que não deixam escapar uma destas maravilhas que a vida nos oferece, o mundo seria ainda melhor.

The great pretender

Recebi um galanteio, elogio ou piropo, como queiram, do senhor com mais idade que algum dia me dirigiu semelhante coisa. Eu avanço na idade, eles também. Não sei se o BE bloquearia - passo o pleonasmo - este tipo de abordagem. Mas nem quero saber.

- A menina é tão bonita. Não é porque eu já tenho 85 anos que não sei ver.

Bonito é ele. O cabelo todo branco, penteado para trás, memória de um galã, olhos vivos, "Eu sou Escorpião, sabe?", "Eu também...", e com o qual seria uma honra dançar um som do tempo dele. 

(que eu vi tantas vezes o meu pai dançar com a minha mãe, os dois, esquecidos do mundo)


11/12/2014

Vamos mas é falar de sexo porco. Daquele furo e duro. # 2

Agora apetece-me um post porco, para descomprimir.

O Natal faz-me sempre lembrar o tempo em que ia para o Porto, para casa da minha avó. 

(não, este não é um post bonito de se ler. E é porco. Já lá vamos)

Eu sempre enjoei muito, a andar de carro. E vivi numa época de estradas nacionais, quais autoestradas, quais carapuça. E também não havia cadeirinhas elevatórias. Os carros eram forrados a napa, uma coisa que exalava um cheiro altamente enjoativo. Eu tinha otites em barda. Enfim, tudo se conjugava para que aquilo acontecesse.

Sejamos justos: numa viagem para o Porto, a saga começava em Vila Franca. Na Mealhada eu já ia mais magra, à chegada ao Monte dos Burgos eu era uma criança extremamente verde alface. As viagens para o Algarve tinham o seu expoente máximo na Serra do Caldeirão. Eia, pá, cada curva, cada melro. Uma festa.

Mas isto tem alguma coisa de engraçado? Não. Mas tem de porco.

E de giro. 

É das recordações mais melhores boas da minha infância, a cara da outra, de cada vez que eu dizia as duas palavrinhas mágicas, "Vou vomitar!", já com a boca cheia daquela água pura que nos jorra das glândulas salivares imediatamente antes. Foram momentos tão bons. "Não, [meu petit nom], não, nãããão!" e eu SPLASH, para cima dela, todas as últimas três refeições - em se tratando do primeiro gregório da viagem, nos seguintes já levava com coisas mais gástricas. Só os gritos que se seguiam, ela toda encharcada, aquilo era música. Só se perderam as que caíram para o chão, bruxa.

Eu sei que podia fazer aquilo para o outro lado. Mas o outro lado era a minha porta, olha agora, e depois como é que eu seguia viagem? Com o meu spot todo sujo, queres ver?

E eu passava o Natal, basicamente, a recuperar do sacrifício da viagem para, ao fim de quatro dias, me meterem noutra igual: a de regresso. 

E ainda hoje ninguém dá valor ao esforço que eu faço todos os anos para me imbuir do espírito.

Estou a começar, lentamente, a imbuir-me do espírito # 2

Mas não está fácil. Quero perceber esta dualidade de critérios.

Como consumidora compulsiva da marca Intimissimi * (uns fumam, outros ficam assim), ando há anos para perceber por que é que a lingerie de Natal de mulher, todos os anos, é assim








e a de homem é assim








Mas que palhaçada vem a ser esta? A nós é-nos destinado enfiarmo-nos numa roupa diminuta e sexy, em que o pior de tudo nem é sabermos, ou alguém querer saber, se é confortável ou não. O pior de tudo é se nos fica bem ou não. É que não fica. Pelo menos, não nos fica tão bem como fica à Irina não sei das quantas, o que, já de si, é uns nervos. E a eles vai de boxer fofinho, engraçadinho (aquele do Pai Natal de rabo para o ar até tem uma campainha que dá uma musiquinha...), apetitosinho, compostinho. Até podem ser uns desabonados da vida, lingrinhas ou balofos, que o boxerzinho até os põe quiduchos. Vai uma mulher, na hora do vamo-vê, toda ardente e sensuélia, com suas chichas bem espartilhadas a transbordar rendas fora, e depara-se com... um Pai Natal de cu virado? Um coelhinho? Um papillon? É de fazer perder a pica a qualquer furacão, diz-vos isto uma pessoa mais velha. E é revoltante, também. 

Deixo-vos com a questão, que até pode ser fracturante. Eu acho.

* ninguém me paga para isto, não. Porque, se me pagassem, falia-os, de tanto lhes chular borlas.

Nunca como agora desejei ter o dom da ubiquidade

Vou vê-la dia sim, dia não. Ontem foi sim, hoje é não. Os dias não são uma tormenta. Os dias sim são a mesma tormenta desde que bato o portão atrás de mim. Fico sempre parada no passeio, a desbloquear. Nem sequer respiro fundo, não sinto nenhum alívio. Volto menos de dois dias depois, que, para ela, significam quarenta e oito horas. Quarenta e cinco. São muitos minutos para tanta solidão e silêncio e tristeza. Por mais que eu converse comigo e me diga que também tenho que viver a minha vida, amar outras pessoas, trabalhar, descansar e ligar-me à Terra, há outra em mim que me responde: "Desculpas. Agora só ela precisa de ti". E agora eu preciso dela mais do que nunca, muito mais do que quando ela me deu ao mundo e me agarrou com aqueles braços que agora quase nem existem. 

Eu devia ser duas, a que vive a minha vida, e a que está lá todos os dias, todo o dia, a tê-la aconchegada no abraço, agora que são os meus braços que a aninham, de tão pequenina que ficou - ou eu cresci? -, mas que nunca teriam que bater o portão.

Não. Eu devia ser três. Se pudesse pedir, pedia para ser três. Havia mais uma, que se metia à estrada e voava, em obediência à voz da terra e do sangue. Que também é a do coração.