20/10/2017

Por mais que olhe, continuo sem perceber

SIC Notícias, 18.10.2017

E não, o mau gosto não é meu.

Tranquilidade

Tinha andado todo o dia arredada, lá na sua vidinha ocupada de afazeres vários e tantos, agenda lotada de minudências e maiorências, tudo muito alheador e incapacitante de se actualizar. No telefone sobredotado, de vez em quando uma notificação, as redes a ferver, ai, as redes, por tudo e por nada movidas a sangue e suor, havia de ser assunto de lágrimas, já vejo, já vejo, agora não posso, ó Gabriela, despache lá isso, que eu tenho pressa, levo o verniz a secar pelo caminho, abano as mãos ao pé do ar condicionado do carro e ficam boas até sair, já na garagem. Estou aqui farta de receber mensagens, castigam-me pelo sms, pelo whatsapp, pelo face, até no insta já tenho coisas, diz que arde tudo lá para longe, e eu aqui sem saber.
Passagem breve pelo cabeleireiro chique do centro, no supermercado, mesmo ao lado, estão a pedir comida e artigos, passa rápido, senão ainda vêm atrás dela, só quer ir comprar a espuma do cabelo, sem ela é como se estivesse nua, não pode sair assim para a rua. 
No fofo do roupão branco, banho morno tomado até aos cabelos, refeição leve deixada preparada pela outra — como é que ela se chama? Sei que também tem um nome de novela brasileira, acho que é Simone, ou é Elis? Cantora, então, mas brasileira, pois —, tem que ser leve, pois leve é a vida e o Mundo é dos magros e daqueles que não precisam de comida, comer é coisa de pobre. Plasma ligado, as notícias dizem o mesmo que as redes, morreu outra vez tanta gente, o fogo levou-lhes a vida, os pais, os filhos, a casa onde moravam. Ouve falar de luto nacional, o segundo em quatro meses. Mas que aborrecimento. E agora? 
Tem que dizer alguma coisa a esse Mundo, não vá passar por insensível, ou, pior que tudo, ignorante. 
Abre a página virtual, cola-lhe a bandeira do país, não verifica se está graficamente correcta, mas o que é que isso interessa, se o que interessa é, apesar de tudo, o pesar? Ao lado, cola-lhe a fita do luto, escreve a frase que nunca nada diz, mas lhe parece dizer tudo, "Não há palavras", pois não há palavras precisamente para quem não as encontra por não as procurar na alma, desliga o PC e adormece, finalmente em paz.

19/10/2017

Na senda de "Sou só eu?" # 9

Que cada chamada para a NOS requer uma preparação mental a níveis olímpicos, porque acontecem várias coisas, eventualmente tudo, menos um telefonema?
1. Ligo e aguardo; atende-me uma gravação, feminina voz animada, que me dá as boas vindas à NOS, e me apresenta diversas opções, de entre as quais "falar com um assistente", que é a que escolho, e aguardo; a gaiata logo me avisa que "o atendimento por um assistente terá um custo até ao máximo de um euro, dependente do seu tarifário (?)", e aguardo; A Voz avisa-me que [para além de pagar até ao máximo de um euro, dependente do meu tarifário], a minha chamada vai ser gravada [suspiro de alívio, porque já se sabe, antes escutada do que ignorada] e aguardo;
2. Metem-me Freddie Mercury aos brados pelos ouvidos adentro. Diz que So don't stop me now | 'Cause I'm having a good time, having a good time | I'm a shooting star leaping through the sky, e aguardo;

   

metem-mo em repeat, só aquele nico da canção, danço um tico, morre-me o Teco de pancada, e aguardo; desconheço qual o critério quanto à escolha da música — embora a adore —, quanto à passagem [minutos 00:00:30 a 00:00:48, porquê aqueles 18?], quanto ao repeat da cena, e aguardo; é uma pastilha/injecção/tratamento de choque que se repete, em repeat, um mínimo de dez vezes [enquanto o assistente, do lado de lá, acaba o café/cigarro/serradura na colega, e A Voz me avisa que estou à espera há 55 segundos e me dispõe a possibilidade de desligar, ou ligar 8 e aguardar — hahaha — que me confirmem o número (?)], só não corto os pulsos porque o assistente não faz uma aparição presencial, e aguardo;
3. Sou atendida pelo assistente, que se identifica, mas que, em cem por cento das vezes que falamos, tem o som do telefone tão baixo, ou fala tão baixo que pondero se não estará a comunicar-se comigo a partir das catacumbas lá do call center; identifica-se, por isso, com um nome inaudível, invariavelmente David (?), Paulo (?), João (?) + Simões (?), Matos (?), Silva (?), ou algo rápida e facilmente esquecível, mas que, de toda a maneira, não ouço; identifico-me igualmente e ele reclama que não me ouve, solicitando-me de forma enfática/ impaciente/ imperativa que fale mais alto; digo-lhe ao que vou e começa por me perguntar se já li a minha factura; mau; ponho-o a explicar-me os tintins todos, um por um; ouço cerca de 50% daquilo que sussurra, apesar de me ter enfiado numa câmara de silêncio/ sala de emissão de rádio/ bidon fechado à chave;
4. Pergunta-me em que mais pode ser útil [suspiro de alívio porque a tortura está no fim]; respondo que em mais nada, porque já foi muito inútil.