23/08/2017

Borboletas na barriga

Era um corpo nu e abandonado, aquele que se encontrava de costas voltadas para mim. Pálido, flácido, grumoso, há muito perdidas as formas femininas: anca quadrada, nádegas achatadas, ausência de cintura, pregas de pele em excesso na linha do soutien, pernas de contorno desalinhado. Avaliei-a para sessenta anos. Entrevia-lhe o peito descaído, a curvatura dos ombros desolada. Um ligeiro virar de cabeça permitiu-me vislumbrar-lhe parte do rosto, que desmentia o conjunto e revelava talvez quarenta anos. Na maior das várias barrigas dependuradas, surgiu então a tatuagem lisa, leve, linda, de uma borboleta. Havia qualquer coisa de muito belo num corpo descuidado, mas não desistente, numa barriga triste, apesar de resistente, onde ainda paira — e quem sabe que voos fará —, pelo menos, uma borboleta.

22/08/2017

Eu tenho problemas com tudo # 27

Ponham-se outra vez no meu lugar.
De vez em quando, a vida coloca-me nestas encruzilhadas, a mim, que nunca topei lá muito bem com o Y. 
Neste momento, gimnasticamente falando, estou como aquelas pessoas que chegam à fronteira entre dois países, colocam um pé num e o outro noutro, e tiram um retrato não sei para quê: estou inscrita em dois ginásios, não interessa como, embora possa adiantar que um dia acordei assim: biginásia. 
O que me prende, actualmente, ao mais antigo, é a dança. Neste momento, há uma única aula por semana, o que é pouco (especialmente quando, como na semana passada, o professor se faz substituir por uma chavaleca que julga que está no Farwest e passa cinquenta minutos, que afinal foram sessenta, a dar gritos de cowboy, aos pulos, e a sugerir "Improvisem!", ou "Quero que dêem murros no ar, como se fosse a alguém que detestam, que isto agora é uma dança combat" — tudo isto em vez de dançar. E eu já não tenho idade para aturar pitas tontas).
Ora, o novo tem sete — sete! — aulas semanais. 
Não querendo ser a Judas Iscariotes dos ginásios, das manicures e dos cabeleireiros, mas também não tendo rigorosamente apetite nenhum para andar a pagar a dobrar, tão pouco ter que fazer uma elástica ginástica mental e automobilística para conseguir frequentar os dois, põe-se-me agora o problema, gizado nos seguintes moldes: vou experimentar as aulas de dança deste outro e depois tomo uma decisão.
[Estarei a empurrar  o problema com a barriga, aquela mesma que uma pessoa humana vai ali abater (se pudesse, a tiros) a abdominais? Sim, estou.]
Se gostar mais do novo, logo se vêem as capacidades que o primeiro tem para me segurar ali, pasito a pasito. Se não, é que é o caraças.

21/08/2017

Ela fala tanto # 18

e faz tão pouco. É o que parece.
Agora encontra-se de férias, quem sabe a banhos. 
Eu entretenho as minhas horas não vagas a fazer máquinas de roupa diárias várias, um tambor com capacidade para sete quilos, vinte e um metros de corda sempre cheios, dezenas de molas, mais de metade para dobrar directamente, a restante para passar a ferro. Entre o lava-estende-recolhe-separa-dobra, esvaem-se-me as forças para passar, sobretudo camisas e lençóis de (cinco) cama(s). [Por sorte, dois de nós dormimos na mesma; se não, seriam seis.] Socorro(!)-me da mesma empresa de engomadoria que me vale nestas horas difíceis, e que me vende um pacote de sessenta peças por um balúrdio, mas eu estou capaz de dar um rim para me livrar daquele cesto, quanto mais uns míseros milhares de cêntimos. Arrebanho o mais urgente (quase tudo), rapidamente somo cinquenta peças e sigo para a empresa salvadora, a uns metros de casa. Pouso o pesadíssimo em cima do balcão e toda eu sou água desmicelar, vulgo sudação. E desabafo o que, efectivamente, me vai na alma:
- A roupa é o maior stress de qualquer dona de casa. Entre o lava, estende, recolhe, separa, dobra e passa, há um processo que nos desgasta e derrota. Estou tão cansada que, agora que aqui cheguei, a única coisa que era capaz de me dar alguma paz, era passar essa roupa toda a ferro. — Porque, não sei se já aqui disse alguma vez, para mim, passar a ferro é uma terapia ocupacional, um rage turn off, uma entrada em zen. Porém, não posso ter mais nada para fazer, e isso é coisa que quase nunca acontece.
Ainda me parece que ela faz tão pouco?
Olhem, eu não lhe dou o seu devido valor.
E ninguém me dá a mim o meu. 

É preciso tão pouco para me fazer feliz # 10