21/09/2017

The girl next door # 12

Desta vez, o mesmo tabuleiro que já visitou a minha casa uma vez, veio cheio de uvas pretas. Existe uma possibilidade de serem a minha fruta favorita [e, como sou uma líder nata e inata, uma opinion maker, uma it (old) girl, é capaz de me aparecer já aqui uma multidão a dizer que "também a minha", mas é que não: ninguém gosta de uvas pretas como eu, eu quero ser única, irrepetível e ímpar nas minhas coisinhas]. Vá-se lá perceber como é que a vizinha adivinhou, ou então ele há mesmo coincidências, e, com a firme intenção de agradecer, eis que — apesar de querer ser aquelas coisas todas que disse agora, sou também altamente previsível — o devolvo com as mesmas bolachas da outra vez, só que com outro formato. 


Lembrei-me que a vizinha tem cães, e achei a ideia gira. Não sei se são dois cães ou duas cadelas, ou uma cadela e um cão, ou tudo junto, ou nada disso, mas considerei que aquela cena do azul e rosa também se podia aplicar aos animais, e só não quero é ferir susceptibilidades. 
(Se não gostar, pode sempre atirar-lhes os ossos. Literalmente.)

20/09/2017

Na senda de "Sou só eu?" # 8

que, quando vou a algum lado em que pressuponho que vou demorar, mas não posso, mas não quero, mas não devo, mas não nada, antes de sair, não faço chichi, bebo uma boa garrafada de água para encher ainda mais a bexiga e calço uns sapatos apertados?
Errr...
É para ir e vir mais depressa.

(Se virem uma senhora de idade aos pulinhos e a fazer uma estranha dança na rua, já sabem.)

Está bem, já percebi que, desta vez, sou mesmo só eu. 
Passo.

19/09/2017

Momentinho louro # 4

Telefona-me o responsável por uma das empresas que contactei, com vista à remodelação de uma casa-de-banho e do soalho todo cá do lar. 
(Por acaso, está a ser uma experiência irrepetível: das quatro que abordei, só para começar, duas já me mandaram mail a declinar, que é aquela manifestação de vontade operada pelas pessoas singulares e colectivas quando não lhes apetece. Uma, porque a minha obra não se enquadra nos parâmetros de grandes remodelações gerais lá deles — tipo Querido, encolhi o orçamento familiar? —, a outra foi um simplesmente não, não aceitamos a tua obra.) (Directamente para a categoria só-a-mim-não-me-saem-empregos-destes.)
Digo-lhe o que pretendo, em traços muito gerais, que os concretos pretendo traçar ao vivo, assim que ele me visite. Falamos mais especificamente da casa-de-banho, e, lá para o final da conversa, ele pergunta-me: Onde é que ela fica?
[Vamos fazer uma pausa.]
Preciso de explicar que não percebo nada de obras. 
...
Sei lá, podia ser importante a localização da casa-de-banho, imaginem que era ao lado da cozinha e isso interferia positivamente com o trânsito dos baldes de cimento.
...
E cenas de obras. Pás, e assim. 
...
E que, entre uma pergunta e uma resposta, via telemóvel, entre dois estranhos, decorre o quê? Um nico de segundo. 
Também não percebo nada de cérebro humano.
...
Não sei em quanto tempo se processa um raciocínio qualquer, quanto mais um raciocínio lógico. Sei que respondi assim
...
Olhe, o senhor entra, segue em frente, percorre um pequeno corredor com cerca de três metros, e encontra uma porta à sua direita, perpendicular a outras duas portas, onde ficam os quartos. É essa porta à direita...
[suspiro.]
Chiu.
Posso ter tido medo que o homem se perdesse e não conseguisse atinar com a porta da casa-de-banho a intervencionar, como eles dizem


18/09/2017

procura

Já lá não encontras nada, não é?
E ela fez que sim com a cabeça, os olhos vivos subitamente opacos da tristeza da perda. Que não, que não ia à missa por alma, nunca mais foi capaz de encontrar a amiga, que lhe está nas outras coisas todas da memória e do coração, mas não ali.
Também eu, procuro naquele lugar o que não encontro, mas vou sempre. 
Talvez se procurasse melhor, talvez se fosse mais vezes, ou talvez se desistisse, não saísse, como saio, com a renovada certeza de que acabou. Não localizo onde, nem quando, nem como, sei apenas que um dia — ou terá sido aos poucos, em vários dias —, perdi, e essa perda acompanha-me e leva-me lá uma e outra vez, e assim será enquanto continuar, mesmo sabendo, muito antes de ali entrar, o que não vou encontrar.
Também aquele pequeno animal, também ela, faz parte da minha procura. Vejo-a e sinto, por instantes, que reencontrei outra perda das minhas e que não recuperarei jamais. Ainda assim, pego-lhe, toco-lhe, sinto-lhe o calor do pequeno corpo, cheiro-a, quero-lhe ser próxima, desassossego-lhe o sono — sofregando por um amor que não voltará a ser. E, no entanto, mesmo sabendo que não, sei que está lá, e sei-o ali. Algures, eterno, também ele nas outras coisas todas da memória e do coração.